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zona de desconforto.

zona de desconforto.

22
Jan18

O 2.º trimestre

E eis que, num piscar de olhos, entrámos na reta final: o terceiro trimestre!
O primeiro resumiu-se a todo um enorme desconforto generalizado que parecia não ter fim e, por isso, foi como se tivesse demorado um ano. Os enjoos, o não saber o que comer, o calor que não consegui suportar naquele verão, a fraqueza... o não estar confortável de maneira nenhuma, basicamente. Depois, no segundo, os desconfortos desapareceram quase todos - quase... - e voltei a sentir-me eu novamente. Esse bem-estar, essa leveza, fez com que o tempo passasse a voar. É uma fase muito bonita de descobertas e, também, a mais dispendiosa até agora. Tudo começou a parecer mais real, a barriga deu um pulo, comecei a sentir e a ver a bebé mexer-se dentro da barriga, começaram as conversas sobre os nomes, tive vontade e energia para preparar o enxoval da criança, para pensar nos pormenores do quarto... é, sem dúvida, a fase de encantamento da gravidez. 

 

O menos bom, porque não posso dizer que tenha havido algo verdadeiramente mau

 

Contrações Braxton Hicks. Sabem aquele episódio dos Friends em que a Rachel começa a sentir umas pontadas na barriga e vai de urgência para o hospital com o Joey e quando o Ross lá chega e percebe que eram só contrações de Braxton Hicks fica aliviado e ainda remata com "a maioria das mulheres nem as sente"? Sabem? Pronto esta era a única referência que eu tinha das contrações de Braxton Hicks: ou eram uma coisa muito dolorosa que nos levava em pânico para o hospital, ou era uma algo tão levezinho que uma pessoa nem as sentia. Por aqui já começaram e não é nem uma coisa nem outra. O que se sente, ou o que eu sinto, vá, é a barriga a ficar pesada e rija de repente, tipo pedra, por baixo do umbigo. Não dói, causa apenas desconforto, e dura alguns segundos. É frequente quando estou em pé ou a andar, mas também acontece quando estou sentada. Por indicação do médico de família comecei a usar uma cinta de gravidez e parece que as contrações são menos frequentes. Quer dizer, não sei se são menos frequentes ou se sou eu que não as sinto tanto por ter a barriga apoiada. De qualquer forma, diminui o desconforto. 

 

Sistema imunitário assim ao nível do chão. No quinto mês foi-me diagnosticada uma faringite que me obrigou a tomar antibiótico. Estive três semanas a evitar ir ao médico e a valer-me das mezinhas caseiras mas no dia em que acordei afónica e com dores horríveis na garganta rendi-me às evidências e lá fui às urgências. Apesar de o meu obstetra me ter garantido que podia tomar o antibiótico que me tinham receitado, que era o único seguro na gravidez, tomei todos os comprimidos, durante os cinco dias de tratamento, muito contrariada e com um aperto no coração. Mas a verdade é que ao fim de uma semana estava boa.

 

Azia e refluxo. Tenho uma hérnia do hiato diagnosticada, por isso as dores de estômago violentas não me são estranhas, mas desde há uns dois anos, quando mudei a minha alimentação e comecei a comer da forma mais natural que consigo - com alguns disparates pelo meio porque, quem nunca? - sem alimentos processados e açucares adicionados, que já não tenho nada que se compare àquelas crises de ficar de cama durante dias. Porém, no final do segundo trimestre os desconfortos gástricos voltaram a dar um ar de sua graça. Tive uns episódios muito levezinhos de azia mas o que me incomodou verdadeiramente foi o refluxo. Cheguei ao ponto de jantar pelas 21h, ir deitar-me perto da 1h da manhã e às 2h acordar com um aperto na garganta e uma sensação de enfartamento como se tivesse acabado de comer um cozido. Tenho de me sentar na cama muito direitinha durante uns bons minutos até me passar. Não é nada do outro mundo, podia ser muito pior, mas como isto só me dá à noite é chato porque não consigo dormir como deve ser. O que vale é que, por enquanto, é pouco frequente.

 

Sono. No post do primeiro trimestre contei que todo aquele sono incrível que as mulheres dizem sentir me passou ao lado. Pois que agora, já no final do segundo, ele chegou em força. Na maior parte dos dias foi um martírio manter-me acordada durante a tarde e não raras as vezes precisei fazer uma sestinha de 20 ou 30 minutos ao final do dia. Os fins de semana são absolutamente gloriosos porque posso dar-me ao luxo de descansar depois de almoço, que é tudo o que me apetece fazer durante a semana. 

 

Fraqueza. A falta de energia que senti durante todo o primeiro trimestre continuou no segundo mas com menos frequência e intensidade. Ainda não consegui perceber se são quebras de tensão, quebras de açúcar no sangue ou o centro de gravidade do corpo alterado que provoca estes salamaleques. Cheguei a estar na Kiko do Chiado a conversar com uma das raparigas da loja sobre vernizes e de repente comecei a perder as forças, deixei de ouvir, deixei de ver a pessoa que tinha à frente e só tive tempo de pedir para me sentar e me atirar para a cadeira mais próxima. É o sintoma mais debilitante que tenho tido ao longo de toda a gravidez ao ponto de evitar ir a lojas ou a supermercados em horas do dia críticas, tipo final do dia durante a semana, porque já sei que as caixas vão estar com filas enormes para pagar e eu nem sempre me sinto à vontade para passar à frente das pessoas, especialmente se não houver caixas prioritárias, como acontece no Continente, por exemplo, ou em praticamente todas as lojas de roupa em que obrigam uma pessoa a mendigar para ser atendida mais depressa. Sei que é estúpido, que é um direito que eu tenho, mas também sei que as pessoas conseguem ser muito mazinhas e inconvenientes e às vezes não estou, simplesmente, para me chatear. 

 

O melhor

 

Olá senhora barriga! Se no primeiro trimestre andava tipo Calimero por não se notar a barriga, no segundo ela começou a dar um ar de sua graça. No quarto mês já se começou a notar uma bolinha redondinha para lá de gira, no início do quinto deu um pulo simpático e ao sexto já ninguém tinha dúvidas de que estava um bebé a caminho. Como não sou de usar roupas justas ainda hoje há quem diga que "não se nota muito"... podemos sempre contar com as pessoas e os seus comentários blazé em relação ao corpo de uma mulher grávida, não é mesmo? Mas já não me incomoda tanto. Continuo sem saber o que responder, porque continuo a achar que esse tipo de abordagem é estúpida, mas já não fico melindrada. Em casa, quando estou de pijama, é quando, efetivamente, se nota bem. Pareço um bêbado gordinho, a andar à pato e com a barriga a querer aparecer por baixo da camisola. Adoro!
Apesar de já ser evidente ainda sou apanhada de surpresa quando reparam que estou grávida. Primeiro foi a senhora da Nespresso, logo no início do quarto mês. "Desculpe, mas está grávida não está?" e deu-me senha prioritária. Fiquei tão emocionada com aquilo que só não a abracei porque tenho noção dos limites e do espaço pessoal dos outros. Depois foi uma vizinha, depois a rapariga que me faz as sobrancelhas na Wink, depois a menina da caixa da H&M, depois a senhora da mercearia, depois a menina da Padaria Portuguesa que me chamou para a frente da fila quando eu ainda estava a decidir se queria um pão de Deus ou um croissant de chocolate, ou os dois, depois um funcionário do IKEA... já devia ser banal mas continua a ser uma coisa que me apanha de surpresa e me deixa estupidamente feliz. 

 

It's a girl! Às 17 semanas soubemos que íamos ter uma menina e já falei aqui dos sentimentos ambivalentes que tive e que entretanto me passaram. Agora adoro ver vestidinhos e blusinhas e imaginá-la lá dentro a espernear. Foi depois de sabermos que era uma menina que começámos a comprar-lhe as primeiras roupas, até li nem me apetecia andar a ver roupa de bebé. Não queria estar a gastar dinheiro em bodies e babygrows brancos ou cinza quando havia coisas tão giras de rapaz e rapariga logo ali ao lado. Principalmente de rapaz, que a grande parte das lojas tem uma capacidade enorme de transformar roupa de rapariga numa piroseira que não se aguenta. Só cor de rosa, tules, brilhantes e bonecada. Nhéc. Uma pessoa quer um vestido, um macacão ou uma t-shirt mais minimal e clássica, de cor neutra, e não encontra quase nada no meio de tantos frufrus. Mas enfim, com alguma paciência lá conseguimos desencantar umas pecinhas janotas e fazer uns conjuntinhos todos giros. 
Foi também depois de sabermos o sexo da criança que começámos a pensar na decoração do quarto. Algo perfeitamente dispensável, tendo em conta que nos primeiros tempos ela vai ficar no nosso quarto e não vai usufruir nada daquele espaço todo mimoso, mas, caramba, que pais é que conseguem resistir à tentação de montar o quarto da pequena cria que aí vem? Tal como na roupa queremos fugir o mais possível ao cor de rosa e à bonecada. O quarto dela tem de se enquadrar na linguagem que temos no resto da casa, onde é tudo muito minimal, em tons de branco e cinza com apontamentos de cor na decoração. Não queria nada ter uma divisão temática cá em casa, acho que não faz sentido nenhum. Portanto a base será o branco e o cinza com apontamentos de rosa velho, amarelo torrado/dourado e verde escuro na decoração. Acho que vai ficar muito giro. Se ela depois, mais tarde, quiser estragar tudo com autocolantes e pósteres de uma qualquer cantora espanhola pirosona que esteja em voga na altura... bom, logo vemos.

 

O primeiro pontapé. Foi também às 17 semanas que a senti mexer-se pela primeira vez, segundos depois de termos descoberto que era uma menina, ainda durante a ecografia. Estava a dizer ao médico que nunca a tinha sentido e quando é que ele achava que isso podia acontecer e de repente brrrrrrrrrrrrrrrrr do lado esquerdo da barriga. Foi incrível. Ao início os movimentos são muito ténues e espaçados, depois desta primeira vez estive dois ou três dias sem sentir nada, mas há medida que o tempo vai passando vão sendo mais intensos e regulares ao ponto de conseguirmos sentir os movimentos com as nossas mãos e de os vermos na barriga. Esta é, sem dúvida, a parte mais gira porque agora o pai pode, finalmente, ter uma pequena noção do que nós sentimos. Pode ver a barriga a mexer, pode pôr a mão e sentir os movimentos. Até ali são meros expectadores. Expectadores dos enjoos, dos desconfortos, dos medos, das nossas ansiedades, da nossa adorável irritabilidade, dos primeiros movimentos do bebé. Mas agora podem efetivamente sentir qualquer coisa.
Durante muito tempo só a conseguia sentir se estivesse sentada, mas agora já dou por ela mesmo quando estou em pé. Não é com tanta intensidade, mas sinto. E qual é a sensação de sentir o bebé a mexer? Estão a ver o que sentem quando estão com gases? O ar a passar pelo intestino? É muito semelhante mas sem a libertação de gás no final. Lamento não conseguir descrever isto de uma maneira mais romântica mas é o que é.

 

Peso. Engordei 6 quilos e pouco em 6 meses e os dois pares de calças que comprei no início da gravidez ainda me servem. Yei! Sei que 1kg por mês, mais coisa menos coisa, é uma boa média mas já cheguei àquela fase em que não reconheço os números que vejo na balança e isso é estranho. A enfermeira do centro de saúde elogiou-me por só tenho ganho 300 ou 400 gr em dezembro, após o Natal e Ano Novo, mas avisou-me logo que no terceiro trimestre o aumento de peso poderia ser galopante porque é quando os bebés começam, finalmente, a ganhar gordura e podem engordar cerca de 1kg por mês o que vai, evidentemente, refletir-se na balança e no tamanho da barriga. Por isso é muito importante ser regrada e fazer uma alimentação saudável na reta final da gravidez para isto não descambar e não chegar ao fim em modo hipopótama. Já meti na cabeça que tenho de voltar à dieta low carb, que os enjoos do primeiro trimestre já passaram há muito e já não há razões para não comer legumes a TODAS as refeições - menos grelos. Grelos salteados continuo a não conseguir suportar.

 

Mitos urbanos, ou aqueles sintomas clássicos que me continuam a passar ao lado

 

Desejos. A única coisa que se pode ter aproximado de um desejo foi ali um espaço de duas semaninhas em que me apetecia imenso comer tomate às refeições. E comi! A todas as refeições. Mas depois passou-me e voltei ao normal. O desejo de comer doces sempre foi uma constante na minha vida, não posso culpar a gravidez por isso, mas houve coisas doces que não comia há anos e que agora me tem apetecido muito. A saber: Chocapic com leite quentinho e Cerelac com grumos. Tem de ser com grumos, sem grumos não tem piada nenhuma! Mas como deixei de beber leite há uns cinco anos tenho conseguido resistir-lhes estoicamente. Chocapic ou Cerelac feitos com bebida de aveia não devem prestar para nada - e nem me venham falar em fazer Cerelac com água! Ninguém aguenta essa mixórdia - por isso mais vale manter esses sabores da minha infância intocáveis na minha memória e não me pôr a inventar. 

 

Estrias. Ainda não vi nenhuma. Às vezes sinto umas comichões na barriga, de lado, mas esse foi o único sinal que a pele me deu de estar a esticar. Continuo a besuntar-me com Barral óleo de amêndoas doces à noite - barriga, ancas, coxas e peito, uma canseira - e de manhã vou variando entre o Nivea soft e umas amostras do Valestisa da Isdin e do Phytolastil da Lierac que volta e meia me dão na farmácia.

 

Bexiga do tamanho de uma ervilha. Grávida que se preze levanta-se quatro a cinco vezes por noite para fazer xixi porque no lugar da bexiga tem agora algo muito semelhante a um bago de arroz. Por aqui, se me levantar uma vez por semana a meio da noite para ir à casa de banho é muito. Mas se for preciso acordo umas três vezes para me virar na cama! Lá está mais uma coisa gira que descobri acontecer na gravidez. De repente virarmo-nos da esquerda para a direita deixa de ser algo tão natural como a sua sede porque, de facto, mudar de posição é todo um tratado, uma pessoa tem mesmo de estar acordada e concentrada naquilo que está a fazer. E as dores que isto dá? Parece que acabámos de fazer uma aula demoníaca de abdominais no ginásio só que não, estivemos apenas a dormir e só nos queremos virar para o outro lado.

 

Calor. Quando percebi que ia ser uma grávida de inverno desejei secretamente sofrer dos famosos afrontamentos de que tantas grávidas se queixam para, pelo menos uma vez na vida, conseguir andar na rua no inverno sem estar incrivelmente desconfortável independentemente das camadas de roupa que tivesse vestidas. No entanto, até agora, tudo se mantém igual. Saio de casa com um top, uma camisola de algodão, uma camisola de malha, casaco, cachecol e, às vezes, gorro, e continuo cheia de frio. Ainda assim reconheço uma pequenina alteração no meu termostato interno: às vezes, em sítios fechados, sou assaltada por uns calores infernais e só me apetece andar de t-shirt. Já me aconteceu várias vezes no trabalho e em restaurantes. Só na rua é que não me dá nada disto. 

 

Pele e cabelo. Continuo à espera da pele luminosa e do cabelo cheio de volume de que tantas grávidas se gabam mas parece que não vou ter essa sorte. No segundo trimestre notei uma melhoria muito ligeira na pele, na medida em que em vez de me aparecerem cinco borbulhas de uma vez aparecem só duas, e o cabelo continua fino como sempre o conheci toda a vida. Por outro lado a famosa linha nigra à qual pensei que me ia escapar triunfantemente começou a surgir muito tenuemente por baixo do umbigo. Mas até lhe tenho algum carinho, acho-lhe graça. 

 

Posto isto: terceiro e último trimestre sê muito bem-vindo.

18
Jan18

O incrível mundo das restrições alimentares na gravidez

Quando soube que não era imune à toxoplasmose pedi ajuda a médicos e enfermeiros para saber o que podia ou não comer e todos me garantiram que os cuidados eram bastante simples: a) comer carne bem passada; b) lavar muito bem, ou desinfetar, frutas e legumes comidos crus, especialmente os que andaram a chafurdar na terra - alfaces, morangos e tudo o mais que cresça ali rentinho ao chão, que é onde o toxoplasma vive.
Só.
"Então e o sushi? Não podes comer sushi! Andas a comer sushi?!" Calmaaaa. O problema do peixe cru não tem nada a ver com a toxoplasmose que, como vimos ainda agora, está presente na terra. A bactéria é outra – chama-se listeriose, que também pode estar presente em queijos não pasteurizados, por exemplo - e os perigos existem sempre e para toda a gente, só que para as grávidas é pior porque o bichinho provoca diarreias e vómitos o que nas grávidas obriga a uma vigilância maior por causa do perigo de desidratação, por isso, e como é melhor prevenir, também não há sushi nem queijos amanteigados para ninguém. Parece simples! Mas depois a pessoa engravida e percebe que estes dois ou três tópicos, afinal, e sem ninguém nos ter avisado, transformam-se em 4396!

 

Saladas: o acompanhamento de que ninguém se atreve a falar

Então, não podemos comer saladas fora de casa. Tudo bem, basta confirmar se os pratos vêm com salada e se vierem dizemos que não queremos. Mas como é que uma coisa tão simples se transforma num problema? Vejamos: vamos a um restaurante e pedimos um prato de carne assada. 
"Acompanha com o quê?"
"Arroz e batata". 
Boa, não vem com salada. Minutos depois o que é que nos chega à mesa? Um prato com umas belas fatias de carne assada acompanhadas de arroz, batata e... salada! Portanto chegámos a um ponto em que a salada já é um mero enfeite que o pessoal dos restaurantes não considera. 
Se forem grávidas descomplicadas basta tirarem a alface e o tomate do prato e comerem o resto, porém, sempre com alguma cautela porque um prato com salada tem sempre umas ripas de alface escondidas por baixo da carne ou do arroz. Se forem grávidas paranóicas acham que a alface e o tomate já contaminaram toda a comida com toxoplasma e sentem vontade de chorar para cima do prato e de agredir o empregado. Eu sou, ou fui, em tempos, uma mistura destes dois. 
Nos primeiros meses, em que tudo é novo e parece que só existem restrições, estas coisas causavam-me um imenso desespero. Parecia que os restaurantes conspiravam contra mim e começava a achar que aquilo já era um ataque pessoal. Mas depois de o meu médico me garantir, várias vezes, que basta tirar a salada e comer o resto sem medos já estou muito mais descontraída. Ainda assim, o desprezo com que se olha para a salada continua a ser uma coisa muito irritante porque torna um processo que tem tudo para ser simples, que é ir comer fora, numa coisa um bocado cansativa. Bom, depois de já dominarmos a problemática da salada eis que somos confrontados com o maravilhoso mundo das ervas frescas.


A invasão das ervas frescas
Ora bem, já vimos que nos restaurantes só podemos comer coisas cozinhadas e que as nossas piores inimigas são as saladas por isso, durante os 9 meses, optamos por legumes cozidos ou arroz. Fácil! Mas e quando toda a comida que nos puseram no prato, legumes e arroz incluídos, vêm com ervas frescas minuciosamente picadinhas por cima? Lá está, o tal universo paralelo que nos tem acompanhado desde os episódios “o mundo encantado de coisas para grávidas” e “o mundo encantado de coisas para bebés”. Aqui também existem dois universos, um em que uma pessoa não grávida pede um prato de arroz e o come sem preocupações e outro em que uma pessoa grávida pede um prato de arroz que vem para a mesa coberto de salsa/cebolinho/coentros/orégãos ou qualquer erva fresca que haja na cozinha naquele dia. Não é incrível? E ninguém nos avisa disto! Os médicos dizem para lavarmos as frutas e legumes e ficam-se por ali. Então e as putas o raio das ervas? Vêm da mesma terra que as alfaces e os morangos e ninguém nos fala dessa epidemia? Sim, porque é uma epidemia. Antes de estar grávida nunca tinha reparado que todos os pratos – todos! - podem vir para a mesa com ervas frescas picadinhas na hora, é só preciso o cozinheiro estar mais inspirado naquele dia e dar-lhe para ali. Querem ver?

Peixe grelhado com batatas cozidas: prato saudável e seguro para grávidas, não fosse chegar à mesa com ar de que um vaso de ervas aromáticas espirrou para cima da comida. É salsa por todo o lado. Pataniscas com arroz de feijão, igual. O arroz vem sempre com salsa acabadinha de picar. Arroz de pato, mais do mesmo. Há sempre um restaurante que acha que, mesmo giro e original, é picar qualquer merdinha ali para cima para dar um ar mais estrela Michelin à coisa.

Só nos dá vontade de chorar de desespero ou de desatarmos aos gritos com o cozinheiro. Em vez disso ficamos 'ssogaditas a olhar para uma coisa que, até ali, nos parecia inofensiva e a tentar arranjar uma estratégia para podermos comer aquilo. "E agora? Mando para trás ou tiro as ervas de cima da comida? E isso será suficiente? Não terá a salsa contaminado já todo o peixe e o arroz com toxoplasma?" Começamos a entrar numa espiral de pensamentos obsessivo-compulsivos e até pomos a hipótese de deixar de ir comer fora coisa que, para mim, esteve sempre completamente fora de questão. 
A minha estratégia foi passar a ter o cuidado de ver as ementas dos restaurantes antes de sair de casa, para saber de antemão o que posso ou não comer, e fazer a advertência “carne bem passada/sem ervas frescas/ sem salada” quando peço qualquer prato. É claro que às vezes a pessoa relaxa, porque não é nenhum robot, e se esquece deste último passo e depois chega à mesa um prato de bacalhau com natas com um montinho de cenoura ralada no meio, só para dar assim um salpico de cor. 
Eu disse que isto era uma epidemia. 
 

Carnes frescas
A secção de enchidos do supermercado. Feiras do fumeiro. Restaurantes de tapas. Tudo coisas ótimas mas que estão completamente off limits para uma grávida. A não ser, claro, que as carnes estejam devidamente cozinhadas. Não há bicho que sobreviva a uma boa cozedura. Inicialmente esta restrição não me fez confusão nenhuma porque também não passava a vida a comer enchidos, mas o que fui percebendo ao longo do tempo é que 9 meses é de facto demasiado tempo para andar a evitar presunto, salpicão, mortadela, farinheira... não é nenhum drama, não é desesperante, não nos estão a tirar nada que seja essencial à nossa alimentação mas... porra, já comia um pãozinho com fiambre, pensei eu um dia ali entre o quarto e quinto mês. Já me tinham dito que os fiambres de frango e perú deviam ser evitados porque não eram cozinhados, eram só fumados, mas ninguém falava do de porco porque a carne de porco tem sempre que ser bem cozinhada, é uma daquelas verdades universais, e portanto o fiambre também passaria por esse processo. Fui à charcutaria, pedi à senhora 150gr de fiambre de porco, com pouca gordura e em fatias fininhas - água na boca - e na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, enquanto me deliciava com uma grande sandocha de fiambre com manteiga, pensava que tinha fintado o sistema. Infelizmente a sensação de vitória não durou muito. Quando me gabei disto a uma amiga o que ouvi foi: "Já pensaste que a lâmina da charcutaria que te cortou o fiambre foi a mesma que, minutos antes, cortou chouriço, presunto, fiambre de perú e todas as outras carnes não cozinhadas?"

Não. De facto isso não me tinha ocorrido.
Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuck!
Esperei pela próxima consulta para esclarecer isto com um profissional de saúde, na secreta esperança que me dissessem que isso era um disparate e que podia comer fiambre à vontade, mas o que me disseram foi que, apesar de ser pouco provável haver contaminação dessa forma, o melhor era mesmo evitar as charcutarias e optar pelos fiambres de porco previamente embalados - vómito - ou então cozinhá-los bem em casa... já me estão a ver a grelhar fiambre em casa de manhã não estão? 
Adeus sandes de fiambre, voltamos a falar daqui a uns meses.

E depois ainda há as frutas
Como assim? Não é só mergulhar as maçãs em Amukina ou tirar-lhes a casca para resolver o problema? Bom, na teoria sim. Mas na prática alguém, um dia, nos conta uma história muito gira sobre a faca que corta a casca ser a mesma que logo depois está em contacto com o interior da fruta e, zás, temos uma maçã contaminada com toxoplasmose e começamos a pôr em causa quão importante é para nós comer melancia ou melão que, até ali, nos pareciam frutas inofensivas porque era só não comer a casca e pronto, mas agora pensamos se não será melhor enchermos a banheira com água, despejarmos 15 garrafas de Amukina lá para dentro e deixarmos as melancias de molho. 

 

Ah, e coisas feitas com ovos crus também é melhor esquecer. Aliás, o melhor mesmo é só comer ovos em casa.
Isto dos ovos foi ainda mais difícil de lidar do que a ideia de não comer sushi durante 9 meses. Vamos lá ver uma coisa: eu a-do-ro ovos. Sou aquela pessoa que vai a um restaurante e quando nada me enche as medidas peço uma omelete de queijo e fico satisfeita. Há quem peça um bitoque, eu peço omoletes. Qual é o problema de comer omoletes fora de casa? Se os ovos estiverem estragados ficamos com uma magnífica intoxicação alimentar, o que já é bastante mau numa situação normal, mas se estivermos grávidas significa ir para o hospital e ficar a soro uma tarde para repor os líquidos que formos perdendo com tantos vómitos e diarreia. Só isto. Não é nada de grave mas se a pessoa poder evitar essa chatice, evita. Isto não é válido apenas para os ovos cozinhados. Tudo o que for feito com ovos crus ou mal cozinhados, tipo mousse de chocolate, bolo de bolacha, tiramisu, lampreia de ovos, qualquer bolo com doce do ovo é melhor deixar para daqui a uns meses. Estão a ver a dificuldade? E nada disto - nada! - vem incluído no discurso dos médicos acerca dos cuidados a ter com a alimentação na gravidez, são as pessoas à nossa volta que nos vão avisando e depois quando o vamos confirmar com os médicos é que eles nos dizem que pois sim, o melhor é deixar os ovos fora do cardápio por uns tempos.

 

Qual é a solução para este pesadelo? Bom senso. Não é suposto sermos prisioneiras das nossas gravidezes por isso, se ajudar, relativizem a coisa. A mim ajuda. Em 31 anos de convivência com gatos e a comer carne, saladas e frutas despreocupadamente - quem nunca comeu um bago de uva por lavar, ou uma cereja, no supermercado para ver se são boas que atire a primeira pedra - nunca fui contaminada com o toxoplasma por isso era mesmo preciso ter muito azar para isso acontecer agora, ainda para mais com estes cuidados todos. Nos primeiros meses isto parece tudo muito avassalador, culpa do nosso desconhecimento e das pessoas alarmistas à nossa volta, mas com o passar do tempo vamos caindo em nós e percebendo que os médicos lá em cima no início do texto até tinham alguma razão: com apenas alguns cuidados corre tudo bem.

07
Jan18

A importância do médico certo

Depois de decidir que queria fazer o parto num hospital público fui-me informar das diferenças entre ser seguida nas consultas de rotina no Serviço Nacional de Saúde e no privado. Para começar há sempre aquelas discrepâncias óbvias de umas serem feitas num centro de saúde, provavelmente num edifício velhinho e algo deprimente, e as outras acontecerem num hospital privado ou clínica de aspeto assim mais fancy, que uma pessoa até se esquece que está no médico, ou dos tempos de espera mais ou menos reduzidos, se bem que neste caso, tanto num como noutro, os tempos de espera são sempre longos. As grávidas são seres muito chatos, com muitas dúvidas. Mas as duas grandes diferenças entre o público e o privado são que no público não há cá contactos trocados entre médicos e pacientes, se têm dúvidas liguem para a Saúde 24 - que eu acho a melhor invenção de sempre. É a next best thing a ter um médico na família a quem se pode ligar a pedir ajuda - ou esperem pela próxima consulta e a frequência com que se fazem ecografias. Numa gravidez normal, sem complicações, seguida apenas no público só se faz uma ecografia por trimestre, ou seja, vemos a criança três vezes ao longo de toda a gravidez. O resto das consultas, feitas mensalmente, resumem-se a conversas com o médico assistente e, a partir de determinada altura, lá pelas 17 semanas, a ouvir o coração da criança com um aparelho. Ora, esta parece ser uma solução para cima de espetacular para grávidas descontraídas, que levam isto tudo na desportiva mas, para mim, a ideia de só ver a minha filha a cada três meses dava-me cabo dos nervos. Se no cardápio há a opção de a ver todos os meses é essa mesmo que eu quero. Houvesse hipótese de a ver todas as semanas e nem pensava duas vezes. Foi principalmente esta diferença que me fez optar pelo privado onde podia ver a pequena cria a nadar alegremente dentro da minha barriga em todas as consultas. Infelizmente isto podia ser assim simplesinho e óbvio mas não é.

 

A primeira consulta de obstetrícia que marquei no hospital privado foi à sorte, com o médico que estava livre mais cedo para me atender, e tive logo um mau pressentimento em relação a isso. Sou aquela nerdzinha irritante que antes de marcar qualquer consulta anda à pesca de referências junto de amigos ou nos milhentos fóruns que populam por essa internet fora. Claro que isto vale o que vale, toda a gente tem dias maus, médicos incluídos, mas eu gosto de partir para as coisas a saber com o que é que posso contar. O problema é que como ainda só tinha contado à família mais próxima, tudo pessoal que é seguido em hospitais públicos, não tinha assim ninguém a quem pedir referências de obstetras por isso não tinha outro remédio senão sujeitar-me à sorte. Ainda me tentei valer do Google mas ele também não foi grande ajuda, o que para começo de conversa não augura nada de bom. Não havia uma única entrada com o nome daquele médico nas primeiras três páginas do motor de busca. Era uma inexistência. E uma pessoa tem de estar muito desesperada para ir além da primeira página, toda a gente sabe disso. Ainda assim fiz um esforço para ir para a consulta de mente aberta. 
Que desilusão.
Calhou-me um médico que estava mais preocupado em atualizar a minha ficha no computador do que em falar comigo, que estava mais preocupado com o peso que eu podia ou não ganhar do que com as 582 dúvidas que eu tinha - deu-me uma folha com uma “dieta” daquelas genéricas, que se passavam em 1987, que dizem que temos de comer de 3 em 3 horas e de fazer 3 lanches por dia que incluíam pão, bolachinhas de água e sal, gelatinas e derivados do leite… ridículo. Ainda pensei explicar-lhe que antes de engravidar seguia uma dieta low carb e que queria recomendações que fossem mais nesse sentido, mas rapidamente percebi que não valia a pena – só dava o contacto dele a partir das não sei quantas semanas porque, coiso, desvalorizou as minhas preocupações, que se calhar até eram de desvalorizar porque eram tontas, mas eu precisava de alguém que me confortasse e me desse confiança e não que me fizesse sentir burrinha, e, o pior de tudo, não fazia ecografias em todas as consultas porque “não há razão médica para isso”. Esta última foi assim um balde de água fria. Estava convencidíssima que no privado se faziam sempre ecografias de rotina mas não, pelos vistos depende do médico. E, claro, tinha-me de calhar um que achava esses "miminhos" completamente dispensáveis, que não entendia que uma grávida, especialmente de primeira viagem, é um poço de ansiedade e que aquele momento em que olha para um ecrã e vê aquele ser pequenino, que depende dela para tudo, é essencial para lhe acalmar o coraçãozinho nervoso.

 

Saí do consultório muito desiludida. Não era nada daquilo que eu queria ou precisava. Se aquela tivesse sido uma simples consulta de rotina e eu só o voltasse a ver dali a um ano estava ótimo! Mas era um obstetra, alguém que eu ia ver todos os meses durante nove meses numa altura única e especial da minha vida onde tudo é novo e bonito e assustador ao mesmo tempo. Se há médico com o qual eu tinha de ter uma relação de empatia e de confiança era com aquele. Claro que sendo eu a pessoa que sou desvalorizei os meus instintos. Achei que estava a fazer uma tempestade num copo de água, que aquilo eram as hormonas a falar e dei-lhe mais uma oportunidade. Voltei lá três semanas depois e... tudo igual. Muito computador, muito acenar de cabeça e aquela escuta ativa vazia, “hum hum”, novamente a porcaria da conversa do peso e um contacto tirado a ferros, quase a pedir por favor. Não, não era, definitivamente, aquilo que eu queria. Este assunto consumiu-me de tal maneira que nessa noite quase não dormi. Queria mudar de médico, queria ser seguida por alguém que me desse confiança, com quem conseguisse ter empatia, que me deixasse à vontade para fazer todas as perguntas que me ocorressem e, sim, queria um médico delicado que falasse comigo com paninhos quentes e não de um bloco de gelo que me tratasse como só mais uma paciente que não podia estar ali mais tempo porque ainda havia muita gente para atender.

Na manhã seguinte levantei-me cedíssimo e fiz o impensável. Fui a um daqueles grupos fechados do Facebook, onde só entram grávidas e mães, e pedi referências de obstetras naquele hospital. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Recebi imenso feedback e dois dias depois tinha encontrado o meu médico. Uma pessoa super calma e paciente, que transmite imensa tranquilidade, que quando está connosco está connosco, não nos está a querer despachar, que explica tudo muito bem explicadinho, que dá logo os contactos na primeira consulta e, a cereja no topo do bolo, faz ecografias em todas as consultas. Era mesmo aquilo que eu queria. Saí do consultório com a certeza de que tinha encontrado a minha alma gémea médica e senti um peso sair-me de cima instantaneamente. Antes da consulta estava um bocadinho nervosa porque não sabia se havia algum protocolo a seguir nestas coisas, se os médicos preferiam não seguir pacientes de outros colegas do mesmo hospital, e continuo sem saber, mas fui muitíssimo bem recebida, expliquei-lhe porque é que estava ali, falei-lhe assim por alto das incompatibilidades que tive com o outro médico e ele simplesmente acolheu-me e tratou-me como se sempre tivesse sido paciente dele.


Isto tudo para dizer o quê? Esta fase da nossa vida é tão especial que eu acho que temos o direito de ser seguidas por alguém também especial, compatível connosco. É a minha profunda convicção. Encontrar o médico certo é quase tão importante e difícil como escolher um marido. Se não tivesse mudado de médico ainda hoje quando fosse às consultas em vez de ir entusiasmada, como vou agora, iria angustiada. E ninguém merece isso. Conheço grávidas para quem isto é secundário mas para mim é essencial ser acompanhada por alguém em quem eu confie e que me transmita segurança. É a diferença entre entrar num consultório esmagada com alguma preocupação que me esteja a consumir e sair igual ou leve como uma pena. Acreditem, chega a ser terapêutico. 

07
Jan18

A importância do médico certo

Depois de decidir que queria fazer o parto num hospital público fui-me informar das diferenças entre ser seguida nas consultas de rotina no Serviço Nacional de Saúde e no privado. Para começar há sempre aquelas discrepâncias óbvias de umas serem feitas num centro de saúde, provavelmente num edifício velhinho e algo deprimente, e as outras acontecerem num hospital privado ou clínica de aspeto assim mais fancy, que uma pessoa até se esquece que está no médico, ou dos tempos de espera mais ou menos reduzidos, se bem que neste caso, tanto num como noutro, os tempos de espera são sempre longos. As grávidas são seres muito chatos, com muitas dúvidas.

Mas as duas grandes diferenças entre o público e o privado são que no público não há cá contactos trocados entre médicos e pacientes, se têm dúvidas liguem para a Saúde 24 - que eu acho a melhor invenção de sempre. É a next best thing a ter um médico na família a quem se pode ligar a pedir ajuda - ou esperem pela próxima consulta e a frequência com que se fazem ecografias. Numa gravidez normal, sem complicações, seguida apenas no público só se faz uma ecografia por trimestre, ou seja, vemos a criança três vezes ao longo de toda a gravidez. O resto das consultas, feitas mensalmente, resumem-se a conversas com o médico assistente e, a partir de determinada altura, lá pelas 17 semanas, a ouvir o coração da criança com um aparelho. Ora, esta parece ser uma solução para cima de espetacular para grávidas descontraídas, que levam isto tudo na desportiva mas, para mim, a ideia de só ver a minha filha a cada três meses dava-me cabo dos nervos. Se no cardápio há a opção de a ver todos os meses é essa mesmo que eu quero. Houvesse hipótese de a ver todas as semanas e nem pensava duas vezes. Foi principalmente esta diferença que me fez optar pelo privado onde podia ver a pequena cria a nadar alegremente dentro da minha barriga todos os meses. Infelizmente isto podia ser assim simplesinho e óbvio mas não é.

 

A primeira consulta de obstetrícia que marquei no hospital privado foi à sorte, com o médico que estava livre mais cedo para me atender, e tive logo um mau pressentimento em relação a isso. Sou aquela nerdzinha irritante que antes de marcar qualquer consulta anda à pesca de referências junto de amigos ou nos milhentos fóruns que populam por essa internet fora. Claro que isto vale o que vale, toda a gente tem dias maus, médicos incluídos, mas eu gosto de partir para as coisas a saber com o que é que posso contar. O problema é que como ainda só tinha contado à família mais próxima, tudo pessoal que é seguido em hospitais públicos, não tinha assim ninguém a quem pedir referências de obstetras por isso não tinha outro remédio senão sujeitar-me à sorte. Ainda me tentei valer do Google mas ele também não foi grande ajuda, o que para começo de conversa não augura nada de bom. Não havia uma única entrada com o nome daquele médico nas primeiras três páginas do motor de busca. Era uma inexistência. E uma pessoa tem de estar muito desesperada para ir além da primeira página, toda a gente sabe disso. Ainda assim fiz um esforço para ir para a consulta de mente aberta. 
Que desilusão.
Calhou-me um médico que estava mais preocupado em atualizar a minha ficha no computador do que em falar comigo, que estava mais preocupado com o peso que eu podia ou não ganhar do que com as 582 dúvidas que eu tinha - deu-me uma folha com uma “dieta” daquelas genéricas, que se passavam em 1987, que dizem que temos de comer de 3 em 3 horas e de fazer 3 lanches por dia que incluíam pão, bolachinhas de água e sal, gelatinas e derivados do leite… ridículo. Ainda pensei explicar-lhe que antes de engravidar seguia uma dieta low carb e que queria recomendações que fossem mais nesse sentido, mas rapidamente percebi que não valia a pena – só dava o contacto dele a partir das não sei quantas semanas porque, coiso, desvalorizou as minhas preocupações, que se calhar até eram de desvalorizar porque eram tontas, mas eu precisava de alguém que me confortasse e me desse confiança e não que me fizesse sentir burrinha, e, o pior de tudo, não fazia ecografias em todas as consultas porque “não há razão médica para isso”. Esta última foi assim um balde de água fria. Estava convencidíssima que no privado se faziam sempre ecografias de rotina mas não, pelos vistos depende do médico. E, claro, tinha-me de calhar um que achava esses "miminhos" completamente dispensáveis, que não entendia que uma grávida, especialmente de primeira viagem, é um poço de ansiedade e que aquele momento em que olha para um ecrã e vê aquele ser pequenino, que depende dela para tudo, é essencial para lhe acalmar o coraçãozinho nervoso.

 

Saí do consultório muito desiludida. Não era nada daquilo que eu queria ou precisava. Se aquela tivesse sido uma simples consulta de rotina e eu só o voltasse a ver dali a um ano estava ótimo! Mas era um obstetra, alguém que eu ia ver todos os meses durante nove meses numa altura única e especial da minha vida onde tudo é novo e bonito e assustador ao mesmo tempo. Se há médico com o qual eu tinha de ter uma relação de empatia e de confiança era com aquele. Claro que sendo eu a pessoa que sou desvalorizei os meus instintos. Achei que estava a fazer uma tempestade num copo de água, que aquilo eram as hormonas a falar e dei-lhe mais uma oportunidade. Voltei lá três semanas depois e... tudo igual. Muito computador, muito acenar de cabeça e aquela escuta ativa vazia, “hum hum”, novamente a porcaria da conversa do peso e um contacto tirado a ferros, quase a pedir por favor. Não, não era, definitivamente, aquilo que eu queria. Este assunto consumiu-me de tal maneira que nessa noite quase não dormi. Queria mudar de médico, queria ser seguida por alguém que me desse confiança, com quem conseguisse ter empatia, que me deixasse à vontade para fazer todas as perguntas que me ocorressem e, sim, queria um médico delicado que falasse comigo com paninhos quentes e não de um bloco de gelo que me tratasse como só mais uma paciente que não podia estar ali mais tempo porque ainda havia muita gente para atender.

Na manhã seguinte levantei-me cedíssimo e fiz o impensável. Fui a um daqueles grupos fechados do Facebook, onde só entram grávidas e mães, e pedi referências de obstetras naquele hospital. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Recebi imenso feedback e dois dias depois tinha encontrado o meu médico. Uma pessoa super calma e paciente, que transmite imensa tranquilidade, que quando está connosco está connosco, não nos está a querer despachar, que explica tudo muito bem explicadinho, que dá logo os contactos na primeira consulta e, a cereja no topo do bolo, faz ecografias em todas as consultas. Era mesmo aquilo que eu queria. Saí do consultório com a certeza de que tinha encontrado a minha alma gémea médica e senti um peso sair-me de cima instantaneamente. Antes da consulta estava um bocadinho nervosa porque não sabia se havia algum protocolo a seguir nestas coisas, se os médicos preferiam não seguir pacientes de outros colegas do mesmo hospital, e continuo sem saber, mas fui muitíssimo bem recebida, expliquei-lhe porque é que estava ali, falei-lhe assim por alto das incompatibilidades que tive com o outro médico e ele simplesmente acolheu-me e tratou-me como se sempre tivesse sido paciente dele.


Isto tudo para dizer o quê? Esta fase da nossa vida é tão especial que eu acho que temos o direito de ser seguidas por alguém também especial, compatível connosco. É a minha profunda convicção. Encontrar o médico certo é quase tão importante e difícil como escolher um marido. Se não tivesse mudado de médico ainda hoje quando fosse às consultas em vez de ir entusiasmada, como vou agora, iria angustiada. E ninguém merece isso. Conheço grávidas para quem isto é secundário mas para mim é essencial ser acompanhada por alguém em quem eu confie e que me transmita segurança. É a diferença entre entrar num consultório esmagada com alguma preocupação que me esteja a consumir e sair igual ou leve como uma pena. Acreditem, chega a ser terapêutico. 

02
Jan18

Público ou privado?

Ainda antes de engravidar o assunto parto no público vs privado já era coisa que me ocupava os pensamentos. Sou uma pessoa que gosta de planear, o que é que querem?
Há já alguns anos, graças ao seguro oferecido pela empresa, que não punha os pés num centro de saúde ou num hospital público, vou a todas as consultas no privado e gosto muito, mas, por alguma razão, fazer um parto no privado nunca me falou ao coração. Ter bebés num hospital público sempre me pareceu o mais lógico a fazer. É gratuito, são sítios que recebem mais pessoas, logo mais casos diferentes, que o privado, as equipas também são muito experientes, se houver algum problema também têm capacidade de resposta para o resolver... a questão para mim sempre foi "porque não fazer um parto no público?".
É verdade que os hospitais públicos são velhos e não têm aquele aspeto de hotel característico de um privado mas, caramba, estamos a falar de um parto, de fazer nascer um ser humano, e não de uma escapadinha romântica. Quão mau pode ser partilhar um quarto com três pessoas que acabaram de passar pelo mesmo que eu durante 48h? Na verdade o que realmente me importa é que ela nasça num sítio seguro, com pessoas experientes, que saibam o que estão a fazer e que cuidem de nós o melhor possível e isso eu sei que posso encontrar tanto num sítio como noutro. Tudo o resto, o quarto privado, o ter o pai da criança a dormir ao lado da minha cama por duas noites, a liberdade de poder escolher como e quando é que ela nasce - que até é uma coisa que não quero ser eu a decidir - é secundário. Para mim.

 

Ainda assim, quando começámos a pensar em engravidar, o assunto voltou a ser posto em cima da mesa. Como o meu seguro não cobre partos ainda pensei fazer um só para isso, para poder ter o conforto desse plano B mas, a verdade, é que sempre tive sentimentos muito ambivalentes em relação a isso. Por um lado, a ideia de fazer o parto com o médico que me segue desde o início da gravidez, ter um quarto só para mim para passar aqueles dois dias do pós-parto e poder dar-me ao luxo de optar por uma cesariana se perto da hora H me acagaçasse toda parecia-me ótimo. Por outro, achava um preciosismo desembolsar 40 ou 50 euros todos os meses que me iriam fazer imensa falta durante, no mínimo, um ano, porque estas coisas têm sempre períodos de carência enormes, por uma coisa que o nosso santo SNS me disponibiliza gratuitamente. Para além disso não sabia se ia ser fácil ou difícil engravidar, mas sabia que se ao fim de um ano, por exemplo, a coisa ainda não se tivesse dado e eu ainda estivesse a pagar todos os meses um montante simpático para poder fazer um parto num sítio tipo hotel quando ainda nem sequer estava grávida isso só me iria causar tristeza e pôr ainda mais pressão numa situação já de si delicada. Esta questão foi, sem dúvida, o deal breaker. Problema resolvido em três tempos: o parto será num hospital público e não se fala mais nisso. É à confiança!


Porém, isto da gravidez é um assunto muito complexo e tem muito que se lhe diga. Se optar pelo parto no público até foi uma decisão bastante fácil de tomar o mesmo não posso dizer em relação à escolha do médico para me seguir nas consultas de rotina. Mas isso fica para outro post.

25
Dez17

It's a girl!

Quando era criança e fingia ser mãe de um boneco o boneco era sempre rapaz. Quando brincava às Barbies os filhos delas eram sempre rapazes. Quando deixei a bonecada e comecei a idealizar a minha própria família, a que viria a construir um dia, imaginava-me mãe de um, ou mais, rapazes. Por alguma razão autodeclarei-me mãe de rapazes desde muito cedo. Entretanto engravidei e a vida presenteou-me com uma menina!
Queria muito poder contar-lhe, um dia, que quando soube da notícia fiquei radiante e que comecei logo a imaginar todos os vestidos fofinhos que lhe iria vestir, os penteados que a ia ensinar a fazer, as grandes tardes de compras na Zara, só as duas, ou de como iria ser divertido ensiná-la a maquilhar-se. Mas não lhe vou poder contar nada disto porque quando o médico disse “É uma menina” a primeira coisa que me saiu foi “Meu Deus, vou ter de fazer terapia”.

 

Durante anos não pensava no porquê de me imaginar mãe de meninos, mas o tempo foi passando, eu fui crescendo e tendo as minhas próprias experiências enquanto menina e, depois, mulher, e a tomar uma maior consciência do mundo onde vivemos e essa tendência para preferir os meninos tornou-se clara: educar um menino devia ser mais simples que educar uma menina, porque o mundo onde vivemos ainda é aquele em que um menino apalpar uma uma menina na escola provoca risinhos às educadoras e vigilantes e não é visto como um gesto que mereça ser repreendido porque, afinal, são só crianças e aquilo não significa nada. Não lhes ocorre que, se calhar, para o menino, aquilo não significa mesmo nada mas para a menina, que estava no recreio despreocupada, aquilo lhe causa vergonha e desconforto e é uma situação difícil de processar porque, lá está, é uma criança e é inocente e não percebe porque é que aquilo a fez sentir tão mal quando toda a gente à volta dela, adultos incluídos, agem como se fosse apenas uma gracinha. O mundo onde vivemos ainda é aquele em que uma mulher bonita, ou que se gosta de arranjar, tem de trabalhar o triplo para provar que tem outros interesses para além do verniz com que pinta as unhas, ainda é aquele em que as mulheres ganham menos que os homens, em que uma mulher que consegue alcançar um cargo de chefia é porque teve de dormir com alguém, onde o valor de uma mulher continua a ser medido pelo tamanho da saia ou do decote, onde o sentimento de insegurança nos persegue nas situações mais simples, seja a andar na rua de vestido no verão ou a atravessar um parque de estacionamento deserto no inverno, onde passar por um homem na rua significa, metade das vezes, ouvir um comentário indesejado que nos faz sentir envergonhadas e sujas e nos faz estar alerta as outras 50% das vezes em que nada acontece... perante tudo isto, era evidente, para mim, que educar um rapaz envolveria menos preocupações que educar uma rapariga.
Educar um rapaz não significa passar-lhe valores ou ideias que, muitas vezes, são pouco coerentes. Deves sentir-te à vontade para vestires o que quiseres, mas quando saíres de calções evita ruas pouco movimentadas. Isto nunca acontece com um rapaz. Mas uma rapariga, nesse dia, provavelmente já sairá de casa com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vai sentir sobre ela olhares demorados e ouvir coisas que não quer e terá de tomar a decisão de, ainda assim, sair como entender ou voltar atrás para vestir qualquer coisa “mais compostinha”. E é aqui que reside a problemática de educar uma menina. Quero que ela se sinta livre e confiante para expressar a sua individualidade como entender mas também a quero preparar para a triste realidade de que uma mulher ainda é vista por alguns como uma presa e um ser menor. Quero dar-lhe ferramentas para lidar com os constrangimentos de se ser menina mas sem ela se sentir esmagada pela simples ideia de eles existirem. Quero fazê-la sentir-se dona do seu próprio corpo quando, ao mesmo tempo, ela vai acabar por perceber que existem pessoas que acham que uma mini-saia ou um decote são um convite para a invasão do nosso espaço pessoal. Quero educar uma menina segura, confiante e assertiva, com a noção do mundo onde vive e com capacidade de o encarar de frente. Sem medos.

 

Quando soube que íamos ter uma menina fiz um sorriso nervoso e disse “Meu Deus, vou ter de fazer terapia” e logo a seguir, ainda durante a ecografia, senti-a mexer-se pela primeira vez. Nem quis acreditar! Talvez tenha ficado ofendida com a minha exclamação. Ou talvez tenha sido uma biqueirada intencional como quem diz “Vai correr tudo bem”. Ok, podem ser demasiadas palavras para uma criança com 17 semanas ainda no útero mas, de certeza, que ela já é para lá de esperta e que aquela vibração que senti do lado esquerdo da barriga era ela a dizer-me para não me preocupar e aproveitar o tempo que ainda nos falta para ir à Zara e organizar-lhe um guarda-roupa como deve ser, que não há nada pior que ir ao pediatra de babygrow para levar vacinas. Está bem que vamos chorar muito e fazer uma grande birra como se o mundo estivesse a acabar mas, convenhamos, não somos uns pelintras, há que fazê-lo em bom.
It's a girl!

17
Dez17

O mundo encantado das coisas para bebés

Se o mundo encantado das coisas para grávidas consegue ser mind blowing para quem está a passar pela experiência pela primeira vez, o mundo encantado das coisas para bebés é todo um outro campeonato. Mesmo! Eu, que estava longe de ser uma analfabeta no que respeita ao universo dos bebés, assim que comecei a pesquisar mais a sério sobre o assunto o meu cérebro deu um nó. Quem diria que um ser tão pequenito que nos primeiros tempos só come, dorme e produz grandes cocós, fosse precisar de tantos gadgets?
Tal como nas coisas para grávidas também aqui deve imperar o bom senso que, infelizmente, é muito mais difícil de pôr em prática porque é óbvio que queremos TUDO! E queremos tudo nas melhores versões que houver. O carrinho mais topo de gama, a cadeirinha de refeição que se vai transformando em cenas várias até a criança ter 18 anos, o berço mais giro, os brinquedos mais estimulantes, os produtos mais naturais, a banheira que vimos naquele blog porque sim, os lençóis que impedem que a criança escorregue pela cama, o último grito dos esterilizadores de biberões, as fraldas que mudam de cor quando estão molhadas… tudo o que for menos que o melhor e mais incrível não serve. Mas se formos pessoas normais, com consciência e fundos limitados, chegamos a duas brilhantes conclusões: a) o dinheiro não chega para tudo; b) a criança não precisa nem de 1/3.

Quando descobri que estava grávida preparei-me para enlouquecer. Imaginava que, por esta altura, já teria tudo: mobília, roupa de cama, ninhos, almofadas de amamentação, decoração, montanhas de roupa para lhe vestir, vários tipos de biberões e chuchas, fraldas para as diferentes etapas, carrinho, berço, mochila ergonómica, intercomunicadores com câmara, kits de primeiros socorros, kits de banho… enfim, tudo. Mas o tempo foi passando e, ao contrário do cenário dantesco que desenhei na minha cabeça, consegui manter a sanidade mental e poupar as nossas finanças! Começámos com uma lista inacreditável de coisas para comprar mas conforme o tempo foi passando fomos excluindo muitas delas por já não nos parecerem tão essenciais assim. O que me ajudou a não perder a cabeça e a não ter ataques de pânico sucessivos sempre que chegava à triste, mas real, conclusão que não ia conseguir chegar a tudo, foi ter uma queda, bastante acentuada, para o minimalismo e pessoas à minha volta com mais experiência que eu. 



A experiência dos outros é a nossa melhor amiga
Quando soube que íamos ter uma menina primeiro entrei em pânico - mas sobre isso falaremos depois - e a seguir fui ao site da Zara e da Mango onde reuni uma quantidade infindável de coisas para lá de giras para lhe vestir. Em duas horas fiquei com o roupeiro da criança todo pensado e esquematizado para o primeiro ano. Espetacular! Mas depois falei com uma amiga que para além de mãe é enfermeira, logo tem um olhar muito mais clínico sobre o assunto, que me alertou para dois pormenores muito simples: roupas 100% algodão para os primeiros tempos, para evitar alergias, e que apertem com molas à frente, porque são mais práticas e rápidas de vestir e despir. Mas como é que eu não tinha pensado nisto? Vou mesmo querer enfiar camisolas com golinhas de folhos pela cabeça da minha filha recém-nascida que, muito provavelmente, vai desatar num berreiro quando aquilo lhe ficar preso, por uns míseros milésimos de segundo, ali entre as orelhas e o nariz? Provavelmente não. Quando fui rever a lista à luz deste conhecimento recém-adquirido metade das coisas deixaram de fazer sentido. Eram práticas, com as tais molas ou botões à frente, mas muitas eram quase 100% poliester.

Quero com isto dizer que devemos ser cegos e fazer tudo o que as outras pessoas nos dizem, anulando-nos completamente? Claro que não! Este conselho em particular fez-me todo o sentido. Estava tão preocupada em vestir-lhe roupas giras que nem me lembrei do mais básico, que era saber de que é que as roupas eram feitas. Mas há muitas coisas que fazem sentido para os outros e que para mim nem por isso. Não por achar que são más compras ou que não são úteis, quem sou eu para tecer juízos de valor sobre isso, mas que não combinam connosco, com o nosso estilo de vida, com o nosso estilo de casa.

Minimalismo: a solução para todos os males
Também ajuda muito ser-se "anti merdinhas". Detesto, mas detesto mesmo, ter a casa cheia de merdinhas que não uso. No mínimo uma vez por ano encho uma data de sacos de coisas que só me estão a atafulhar a casa e ou as deito fora ou dou-as a pessoas que precisem mais. Seja roupa, papelada que já não interessa, revistas antigas, loiça, caixas e caixinhas. É um alívio quando chego ao fim e vejo o espaço livre com que fiquei. Infelizmente nos meses seguintes algum desse espaço livre é ocupado com mais merdinhas, que eu ainda não tenho maturidade suficiente para ser tão minimal quanto gostaria, mas é um processo. Esta queda para destralhar é ótima quando falamos do mundo encantado das coisas para bebés.
Quero mesmo ter um esterilizador e um aquecedor de biberões, que eu nem sei se vou utilizar, a ocuparem-me espaço na bancada da cozinha quando uma panela com água a ferver faz o mesmo? Não, não quero. Se entretanto chegar à conclusão, in loco, que um esterilizador é muito mais prático que a panela serei a primeira a dar o braço a torcer e ir comprar um. Não quero é fazer mais esse investimento quando nem sei se vou precisar de o usar.
Por outro lado faz-me muito mais sentido ter um biberão em casa e uma lata de leite adaptado just in case a criança querer comer às 4 da manhã e eu, por qualquer razão, não lhe conseguir dar de mamar mas, se calhar, para outra pessoa, isto também seria totalmente dispensável. Somos todas diferentes e isso é ótimo porque torna as discussões e a partilha de experiências muito mais enriquecedoras. Acho que é pondo estas variáveis todas em cima da mesa, sem fundamentalismos, que vamos conseguindo filtrar os conselhos que nos são úteis dos outros. 

Pesquisar, pesquisar, pesquisar
Não fazem ideia das coisas que à primeira vista me pareceram excelentes investimentos para fazer antes do nascimento mas que, depois de ler sobre o assunto, cheguei à conclusão que o melhor mesmo é ir com calma e deixar essas aquisições para mais tarde. 
A primeira coisa a ficar em stand by foi a mochila ergonómica. O babywearing parece-me a melhor invenção de todas. Então para mim, que não gosto de conduzir e faço tudo a pé, parece mesmo a solução para todos os males. Ir ao supermercado com o bebé coladinho a nós, que entretanto ficamos com as duas mãos livres, parece-me infinitamente mais prático que andar com carrinhos atrás. Se estivermos sozinhas como é que transportamos os sacos e empurramos o carrinho ao mesmo tempo? E se eu quiser ir só ali à mercearia da minha rua comprar leite e ovos, como é que vou andar naqueles corredores estreitos, onde não cabem duas pessoas, com um carrinho de bebé? E mesmo para as carro-dependentes, como é que levam os sacos até à porta do prédio se tiverem o bebé dentro do automóvel? Deixam-no lá dentro e andam a fazer piscinas entre o carro e o prédio? Ou levam a criança primeiro e deixam-na dentro do prédio sozinha enquanto vão ao carro buscar os sacos? Ou a solução é ficar em casa à espera do marido, ou fazer as compras online? Lá está, para mim essas soluções não servem, por isso o babywearing parece ótimo.
Assim que soube da existência da Ergobaby, que dá desde o nascimento até aos 20kg, achei que era mesmo aquilo que precisava mas, lá está, depois fui investigar e percebi que, mesmo com o redutor, a mochila não é o meio de transporte ideal para recém-nascidos e que os panos elásticos ou semi-elásticos, que rejeitei de início por me pareceram uma coisa assim meio alternativa, são muito mais confortáveis para bebés tão pequenos. Pelo sim, pelo não prefiro esperar para perguntar a um pediatra e, até lá, informar-me sobre os panos e aprender como se usam.
O mais recente item a sair da lista a grande velocidade foi o muda-fraldas. Há quem me garanta que é uma coisa essencial e que dá um jeitaço, mas também conheço muitas pessoas que resolveram o assunto na cama dos pais com uma toalha e siga o baile. Nós começámos por escolher um simples e bonitinho do IKEA mas quando nos apercebemos que o preço do móvel era quase o mesmo que o da cama de grades começámos a questionar o quão relevante seria o muda-fraldas para nós. Resultado: menos um móvel para comprar, menos um mono a ocupar espaço no quarto. Vamos experimentar mudar as fraldas na nossa cama com a ajuda de um trocador portátil, daqueles de viagem, e só se virmos que não resulta - coisa que duvido que aconteça, muito honestamente - é que investimos no móvel. 

 

Descomplicar
E quando tudo o que foi dito anteriormente não resulta entra em cena o Marcos Piangers que, um dia, tão sabiamente, nos alertou para as principais preocupações que nos assolam quando descobrimos que vamos ter um filho. Infelizmente o que nos ocupa a cabeça a maioria do tempo e nos mantém acordados grande parte das noites não são os valores que lhes queremos passar ou em que tipo de pessoas queremos que eles se tornem. As nossas energias estão focadas nas coisas e no dinheiro que essas coisas nos vão custar. "Um carro melhor", "um apartamento maior", "juntar dinheiro para a melhor creche do mundo". Não é triste? Quando fazem o exercício de sair das vossas cabeças e das vossas listas de nascimento e dos cestos de compras online onde já acumularam todas as coisas que "têm" de comprar nos próximos meses, não acham tudo isso um bocadinho demais, completamente acessório e à margem da bigger picture? Eu própria me incluo neste grupo, eu também me perco durante horas nos sites de puericultura. Mas pôr os pés na terra e sair desse estado meio sonâmbulo é um trabalho, um esforço, que me obrigo a fazer diariamente para conseguir ver as coisas da maneira mais objetiva e descomplicada possível.

Ninguém duvida que todos queremos o melhor para os nossos bebés. É verdade, queremos. Mas o melhor não significa ter tudo o que as marcas nos querem fazer acreditar serem indispensáveis. O melhor não é competir com o vizinho do lado pelo gadget mais recente. O melhor não é ter o carrinho mais incrível, as roupas das marcas mais caras, uma casa com jardim ou aquele SUV que saiu há um mês e que, de certeza, tem espaço para tudo. O melhor somos nós. O melhor que lhes podemos dar é o nosso amor, o nosso tempo, a nossa paciência e, se possível, a leveza de uma vida sem dívidas e coisas a mais, perfeitamente dispensáveis. 

O melhor somos nós.

11
Dez17

O mundo encantado das coisas para grávidas

Antes de engravidar já sabia que o mundo dos bebés não é um mundo, é um universo. Há tralha para tudo e mais alguma coisa quando, na realidade, a criança, especialmente nos primeiros tempos, não deve precisar nem de 1/3. O que não sabia era que o mesmo se passava no mundo das grávidas.

 

As roupas

Estava preparada para, quando precisasse, ir à H&M comprar calças de grávida. Só. Mas se uma pessoa se quiser deixar afundar nesse pântano que são as roupas evolutivas tem muito para explorar.
Estão a ver todos os tipos de roupa que há na Zara? Pronto, existe um universo paralelo onde se fazem exatamente os mesmos tipo de roupa mas em mau e com as palavras "de grávida" à frente. Não é incrível? Existem vestidos de grávida, camisolas de grávida, collants de grávida, t-shirts de grávida, camisas de grávida, cuecas de grávida, sutiãs de grávida, pijamas de grávida, casacos de grávida, saias de grávida... de repente a grávida passa a ser um bicho e deixa de se conseguir vestir em lojas normais para ter de se vestir em lojas... de grávida!

A utilidade das calças parece-me bastante óbvia, chega ali uma altura em que temos de vestir qualquer coisa que nos aconchegue a barriga, mas o que é que uma parka de grávida tem que uma parka normal, um ou dois tamanhos acima, não tem? E o que são as cuecas de grávida? O que é que fazem a mais que umas cuecas normais de algodão não consigam fazer? Vêm com um doppler incorporado que permite ouvir o coração do bebé a qualquer altura do dia? Será que estas coisas vendem mesmo, será que há mesmo grávidas a comprar casacos de grávida, ou é um nicho que vai desaparecer nos próximos anos? E porque é que a roupa evolutiva é sempre tão mais cara e feia, ou demasiado básica, por comparação com as mesmas peças à venda nas lojas ditas normais? Por exemplo, no mundo das roupas de grávida nunca existem peças tendência porque é tudo básico ou às riscas horizontais. Grávida que se preze tem de ter uma camisolinha com riscas horizontais ou então a vida está, claramente, a passar-lhe ao lado. Faz parte do uniforme, tipo os bibes que as crianças usam nas creches.

Da parte que me toca comprei dois pares de calças na H&M, que espero que me sirvam até ao fim da gravidez, e dois pares de collants de grávida, da mesma marca. De resto as camisolas, que uso naturalmente largas, e os casacos que já tenho em casa devem ser suficientes para me vestir ao longo da gravidez. Quando, ou se, essas as coisas me deixarem de servir compro um número acima e siga o baile.

Ainda fui dar um olhinho às calças da Prenatal mas para além de caríssimas, lá está, são um bocadinho medonhas. As da H&M sempre têm estilos mais modernos - skinny, super skinny, boyfriend, com rasgões, sem rsgões -, parecem as calças normais que já usava antes, mas com uma faixa de tecido na barriga, e muitas não chegam a 30€. As da Salsa também se safam mas só têm um ou dois cortes diferentes e são 90€... tendo em conta que isto é coisa que se usa uns 6 meses não me parece o investimento mais inteligente, mas cada um sabe de si.

 

Os cremes

Para além das roupas existem os produtos anti-estrias, que também são um tema muito complexo. Primeiro temos de decidir se queremos começar logo de início a besuntarmo-nos com cremes ou se é melhor esperar pelo subsídio de Natal. Tal como a roupa, em que existe a normal e a "de grávida", também existem cremes gordos e depois existem os cremes gordos "anti-estrias" que são logo três vezes mais caros.
Depois de pormos de parte uma fatia do orçamento familiar para este produto especial de corrida temos de escolher a textura. Queremos um creme, um óleo ou um gel? E para além disto não quereremos também juntar um sérum intensivo para garantir que as cabras o raio das estrias não aparecem? Demasiado complexo, certo? Pelo que li, antes de me pôr a comprar o que quer que fosse, isto das estrias tem muito ver com a genética. Se a nossa mãe, ou irmã, ou avó tiverem tendência para desenvolver estrias é bem provável que nós também as cheguemos a ter por muito que nos besuntemos com cremes caríssimos. Que eu saiba o flagelo das estrias não corre na minha família mas, muito honestamente, preocupa-me mais a flacidez do corpo no pós-parto do que as estrias, e para isso é que não há cremes milagrosos. 

No início da gravidez ofereceram-me um boião da Barral de óleo de amêndoas doces e é esse que tenho estado a usar. Só o consigo pôr à noite, que aquilo é imensamente gorduroso, mas gosto bastante dele. Hidrata muitíssimo bem a pele e tem um cheiro muito agradável. Intenso, mas agradável. 
Também experimentei umas amostras do famoso Valestisa da Isdin e fiquei agradavelmente surpreendida. Tem textura de gel, o que para começo de conversa não é muito fixe porque é assim um bocado viscoso, mas espalha-se bem na pele, não tem cheiro e é absorvido quase de imediato, dá jeito para pôr de manhã depois do banho. Ponto negativo: é caro e nesta fase em que tenho de investir em tanta coisa dar 30€ por um creme e rezar para que ele faça efeito não é algo que me seduza. 
Já li, também, coisas muito elogiosas do BioOil e do clássico e acessível óleo de amêndoas doces à venda em qualquer supermercado. Por agora mantenho-me fiel ao da Barral e quando terminar logo vejo o que faço. 

 

Os essenciais das grávidas profissionais

Depois destes dois temas colossais há ainda aqueles "essenciaizinhos" que as grávidas que já só vivem dentro da Prenatal conhecem e juram que são o-bri-ga-tó-ri-os, assim com os olhos muito abertos, mas que, por aqui, vão passando pelas gotas da chuva. São o caso das cintas de gravidez, que mais não são que uma faixa que nos segura a pança, as meias de descanso para as pernas não incharem, os cintos "de grávida" - lá está... - para segurar a barriga quando estamos no carro e mais uma data de coisas para lá de importantes que, certamente, me estão a passar ao lado. Não digo que não sejam úteis, aquele cinto para o carro para grávidas com barrigas muito grandes e que passem muito tempo ao volante devem ser muito práticos mas, até ver, são coisas que não me têm feito falta e por isso não pesquisei grande coisa sobre elas. Mas, tendo em conta a história dos cremes e da roupa, já sei que se precisar de me debruçar sobre o assunto também vou descobrir que há 682 tipos de cintas e de meias de descanso que prometem mundos e fundos e depois vai ser só tudo muito desconfortável e exageradamente dispendioso.

04
Dez17

Como enervar uma grávida calma em 7 passos

Confesso que antes de engravidar achava este tipo de avisos um exagero. De repente uma mulher engravida e não se lhe pode dizer nada que ela está muito sensível. Mas é mesmo isso que acontece! Existem coisas que quando ditas a uma mulher grávida acordam o monstro hormonal até ali adormecido. Chamo-lhe Alexandre. É provável que isto não suceda com todas nós, é até possível que haja uma ou outra grávida equilibrada e que leve isto tudo na desportiva.
Não é o meu caso. 
Nesta altura estamos mais sensíveis e temos alguma dificuldade em lidar com certos comentários com o mesmo discernimento e leveza com que lidaríamos se não estivéssemos tão... hormonais. Se quando chegarem ao fim do texto continuarem a achar que isto é tudo muito parvo e decidirem continuar a dizer o que vos apetece, sem filtro, estão por vossa conta e risco. O mais provável é levarem uma resposta torta do 'Alexandre' e ficarem ofendidinhos e, se isso acontecer, não esperem que seja a grávida que acabaram de irritar que vos console.

 

  1. Comentários sobre a barriga. A menos que seja para nos elogiar a figura, abstenham-se de comentários do género "tens a barriga enorme" ou "não se nota nada". Este assunto é-me especialmente sensível porque só fiz uma barriga mais ou menos evidente lá para os quatro meses e tal e detestava quando me diziam que não se via nada.
    Vamos lá ver se nos entendemos: se há altura da nossa vida em que queremos que nos reconheçam a pança é esta. Olharem para nós com os olhos semicerrados e dizerem "não se nota nada" não é fixe. Mais vale estarem caladinhos. Pode até parecer que nos estão a elogiar e a dizerem-nos, porém de uma forma um pouco estranha, que estamos para lá de elegantes, mas esses comentários só têm um efeito: fazer-nos questionar se estará tudo bem e porque é que ainda não se nota tanto como gostaríamos. Felizmente, por cada comentário de "mal se nota" há dez pessoas a pedirem-nos para mostrar a barriga e a ficarem genuinamente felizes quando a vêem. 

  2. "Foi planeado?" Assim que descobrimos que estamos grávidas queremos contar a toda a gente LOGO a seguir. É inevitável. Estamos felizes e queremos partilhar isso com as pessoas que nos são mais próximas. Portanto quando, ao fim de três longos e penosos meses, podemos finalmente contar ao mundo esperamos que toda a gente salte de alegria e não que fique na dúvida se nos há-de dar os parabéns ou uma palmadinha no ombro com olhos de bambi, "deixa lá há coisas piores". Temos mesmo de fazer aquele disclaimer "estou grávida, e sim, foi planeado"? Se vos estamos a dar a boa nova com um sorriso enorme e parvo é porque estamos felizes e queremos contagiar toda a gente com essa felicidade.

  3. Inquéritos sobre as restrições alimentares. A não ser que nos ouçam dizer que o que nos apetecia mesmo era um prato gigante de sushi e um copo de vinho, de nada vale fazerem-nos um interrogatório sobre toooooodas as coisas que sentimos falta de comer. "E ovos estrelados tens saudades? Ah, mas aposto que tens saudades de uma boa farinheira! Lembras-te daquele tártaro de novilho maravilhoso que comemos há uns meses? Ah, não podes não é? Pois, é cru. Que chatice. E morangos também não podes? E maionese? E queijo da Serra, daquele bem amanteigadinho, também não vai?" Menos.
    Tudo o que não podermos comer durante os 9 meses vamos poder voltar a comer depois durante uma vida. Provavelmente a grávida já fez as pazes com isso e nem se lembra que não come sushi há meses por isso, e para bem de toda a gente, não a lembrem.

  4. "Não podes fazer isso". Ora bem (pausa para respirar fundo)... o mais provável é estarmos a ser seguidas por um profissional de saúde que já anda nisto há toda uma vida, por isso dispensamos comentários alarmistas em relação ao que podemos ou não fazer. Até porque é possível que a grávida que têm à frente já tenha feito um inquérito exaustivo ao desgraçado do médico sobre tudo o que lhe possa ser prejudicial, inclusive o ar que respira e a água que bebe. Não lhe vão estar a dar novidade nenhuma. "Vais mesmo continuar a pintar as unhas? Não devias beber coca-cola. E também devias cortar na água com gás. Amukina? O vinagre faz o mesmo efeito." Não se aguenta.

  5. "Estás muito gorda/magrinha". Este vem de mãos dadas com o do tamanho da barriga. As únicas observações válidas sobre o nosso peso são do médico obstetra que nos segue. É essa a única opinião que importa porque vem de alguém que sabe, efetivamente, do que está a falar. A perceção do resto do mundo sobre quantos quilos devemos ou não engordar é-nos completamente inútil. Mais uma vez, se a vossa intenção é elogiarem-nos a figura um simples "estás com ótimo aspeto", é suficiente. Olharem para nós de lado quando nos vêem comer um chocolate e soltarem um "olha que isso não é saudável! Assim vais engordar muito" ou um "olha que agora tens de comer por dois! Não é altura para dietas" quando comemos menos tem um nome e chama-se bullying.

  6. Tocarem-nos na barriga. A regra aqui é simples: perguntem primeiro! Basta isso. Um dos primeiros reflexos que adquirimos quando estamos grávidas é levarmos a mão à barriga para a protegermos do resto do mundo. Faço isso quando estou em sítios com muita gente, num centro comercial ou no supermercado, por exemplo. É inconsciente. Não quero levar um encontrão e portanto protejo aquilo que, neste momento, considero mais frágil. Por isso ver alguém, de repente, a esticar a mão em direção à minha barriga, assim do nada, desperta em mim reflexos assassinos. Perguntem primeiro.

  7. Grávida calma = bebé calmo. Já tinha lido muita coisa sobre a culpa materna, e que muita dessa culpa nos era sugerida por terceiros, só ainda não sabia que isso começava tão cedo. O que mais ouvi até agora de amigos, familiares e vizinhos com quem me cruzo na rua a cada 15 dias, foi aquele sábio conselho de que tenho de ter uma gravidez muito calma para o bebé nascer calmo. Mas... como assim? Tenho de fazer um retiro budista? Fazer yoga? Massagens dia sim dia não? Ouvir Chopin? Quão calma pode ser uma gravidez? Especialmente a primeira, em que é tudo novo. E mesmo que a grávida seja a pessoa mais zen desta vida isso garante-lhe um pequeno anjo que já sai do útero a sorrir, não sofre de cólicas e que só faz um pequeno gemido, quase inaudível, quando tem fome ou a fralda suja? Não respondam que eu já sei que a resposta é não.
    Pode não parecer, mas isso é o mesmo que despejar mais um enorme e desnecessário balde de responsabilidade nos ombros da futura mãe que, provavelmente, até ali estava a levar a coisa com relativa tranquilidade mas que, de repente, começa a estar atenta a tudo o que lhe possa causar um ligeiro stress, não vá isso valer-lhe uma criança insuportável ao fim dos 9 meses. Já temos tanto em que pensar que a última coisa que precisamos é de estar a policiar as nossas próprias emoções. 
    Já imaginaram a aflição e a culpa daquelas mães que levaram esta "dica" demasiado a sério e depois lhes saiu na rifa um pequeno terrorista? De certeza que a criança tem cólicas porque ela se enervou daquela vez no trabalho ao quarto mês. Certamente que ele chora muito porque a mãe se fartou de ver filmes lamechas nos últimos 3 meses. É óbvio que ele tem cólicas desde o primeiro dia porque a mãe, essa cabra, comeu chocolates todos os dias quando estava grávida. É evidente que a criança aos dois anos faz imensas birras porque a mãe, quando estava grávida, discutiu com a sogra, porque não queria ter um urso de peluche com 1m80 em casa. 
    A única forma que eu tenho de manter a calma é informar-me sobre tudo o que, para quem está de fora, parece um sintoma clássico de stress e ansiedade. Mas não é pessoas, não se enervem. Quero simplesmente tentar estar preparada para as coisas por isso leio muito e, mais impotante que as leituras, pergunto tudo a toda a gente, não só a médicos e enfermeiros mas, sobretudo, a amigos que tenham sido pais recentemente. Felizmente, tenho muitos exemplares desses à minha volta.

    Dica verdadeiramente importante: não se isolem. Rodearem-se de pessoas que estão a passar, ou passaram recentemente, pelo mesmo que nós é a melhor rede de apoio que se pode ter nesta fase.
    Quando é que se começa a frequentar as aulas de preparação para o parto, como é que foi a experiência na maternidade x e y, quando é que começaram à procura de creches, como é que se veste um recém-nascido, quais as roupas mais práticas, qual a quantidade de fraldas que convém ter em casa quando a criança nascer, etc., etc., etc. As perguntas não têm fim mas acho que as pessoas a quem as fazemos não se importam. Primeiro porque sabem o quão difíceis e avassaladores podem ser os primeiros tempos e depois porque, geralmente, as pessoas gostam de falar das suas experiências e de se sentirem úteis aos outros. É claro que cada pessoa tem uma experiência diferente e o que resultou para uma não resultou para outra e é aqui que entra mais uma dica preciosa: ouvir tudo com o devido filtro e adaptar isso à nossa realidade. Se quisermos incorporar na nossa vida tudo o que resultou com toda a gente, de repente damos por nós a fazer coisas pouco coerentes que, obviamente, não resultam e damos em doidas. Mas isso fica para outro post.
29
Nov17

O 1.º trimestre

Descobri que estava grávida em agosto, no segundo dia de férias, num Algarve quentíssimo.
Recuemos agora 24 meses.
Nos dois anos que antecederam o momento em que o teste deu positivo, e apesar de, na altura, não estar a tentar engravidar, o tema da parentalidade começou a interessar-me bastante por isso li imenso não só sobre gravidez mas sobre educação, alimentação de crianças, parentalidade positiva, como lidar com birras, o que fazer e o que não fazer, etc., etc., etc. 
Voltemos agora ao verão de 2017.
Quando tomámos a decisão de começar a tentar engravidar pensava que estava preparada, no mínimo, para o que esperar durante a gravidez. Afinal tinha lido tanto!
Pois. Não estava.
Não sei se fiquei tão assoberbada que me esqueci de tudo, ou se li as coisas erradas ou se, simplesmente, há coisas que não vêm escritas em lado nenhum porque cada corpo é um corpo e reage de forma diferente a esta transformação incrível que é a gravidez. Aposto mais na última.
Conhecem o livro "O que esperar quando está à espera"? Pois, eu esperava muita coisa que não aconteceu: o sono, as dores no peito, os vómitos, a pele fantástica... no meu caso, foi tudo ao lado. E como muitos dos sintomas mais falados são maus e eu estava à espera do pior - como sempre - quando o pior não acontecia eu pensava que havia qualquer coisa errada. Sick, right? Não tem de ser assim e eu gostava de ter sabido disso para ter tido um início de gravidez um bocadito mais tranquilo.

 

Enjoos

Lembram-se daquela cena inicial do filme Olha Quem Fala, em que a Kirstie Alley está desesperada na casa de banho do emprego a vomitar sem saber porquê? Era isso que eu achava que nos acontecia mais ou menos meia-hora depois de a conceção ter ocorrido. Achava que o normal era estar três longos meses enjoada e a vomitar. Mentira. O primeiro enjoo aconteceu já eu estava a meio do segundo mês da gravidez. Enjoo que atribuí à bola de Berlim que comi alarvamente na praia no dia anterior para comemorar o início das férias. Por descargo de consciência, e porque a menstruação já estava mais atrasada que o normal, fiz o teste no dia seguinte e... não é que deu positivo? Afinal não era o doce de ovo que estava estragado, era a minha feijoca a formar-se no ventre. Ele há coisas! Não sei se foi da emoção de ver o teste positivo mas a verdade é que nesse dia não tive enjoos nenhuns. "Fixe! Só tive um enjoo! Afinal isto não é assim tão mau!", para logo a seguir pensar, já com o telemóvel na mão pronta para ligar para a Saúde 24: "O que é que se passa?! Porque é que não estou enjoada?!" Que inocente. Nos 15 dias que se seguiram estive mais enjoada que uma pescada.
Lição número 1: os enjoos vão e vêm. Há dias melhores que outros, há até dias ótimos. E isso é normal. Também há quem tenha enjoos todos os dias durante meses e vomite imenso mas essa, felizmente, não foi a minha experiência. Os meus enjoos eram intermitentes. Houve dias horríveis, em que não conseguia comer nada, houve outros em que só estava assim de manhã e outros em que só me começava a sentir mal disposta ao final do dia e se prolongava noite dentro. Nunca vomitei mas enjoei de imediato o cheiro a carne e peixe grelhado, assim de repente. Num dia estava a lambuzar-me com um prato de choco grelhado e no outro só de pensar nisso ficava com vómitos. E sim, isto dá um jeitaço quando se está no Algarve, onde tudo o que se come são... exato, grelhados. Quando saía de casa e sentia aquele cheiro a peixe era como se alguém me estivesse a matar. "Porquê???" E isto leva-me ao ponto seguinte.

 

Alimentação

É senso comum que uma grávida tem de ter dois cuidados básicos com aquilo que come: os legumes e frutas têm de ser desinfetados e a carne e o peixe têm de ser muito bem cozinhados. Básico não é? Bom não é bem assim, porque dentro destes dois universos há todo um mundo de nuances irritantes que nos lixam as refeições, mas isso fica para outro dia. Para além daqueles dois cuidados básicos existem mais mudanças que eu não esperava. Quando engravidei fazia já um ano que tinha mudado completamente a minha alimentação. A principal mudança foi trocar os hidratos de carbono às refeições por legumes. Há meses que não comia esparguete. 
Lição número 2: quando estamos enjoadas, muito provavelmente, a única coisa que vamos conseguir tolerar são hidratos de carbono. E não estou a falar dos hidratos que existem num pratinho de brócolos, estou a falar de hidratos à séria: arroz, massa, batatas, pão. Eu sei. Isto para mim também foi um choque. Nos 15 miseráveis dias que estive de férias a única coisa que me apetecia comer era peixe cozido com batatas cozidas, carne de vaca estufada com batatas e canja de galinha com arroz. Tudo coisas que há ao pontapé em agosto no Algarve. Ah, e pão. Mas que pão? Aquele pão de centeio fantástico, super saudável, que se compra no Celeiro e que eu andei a comer durante um ano? Vómito. Só o cheiro deixava-me doente. Só conseguia comer do de trigo. Atualmente, já no quinto mês, consegui voltar ao meu pão de centeio e aos brócolos mas o cheiro a carne grelhada continua a ser difícil de suportar e não consigo comer grelos salteados, que era uma coisa que, antes, comia praticamente todas as semanas.

 

Cansaço

Outra coisa que estava preparada para sentir era todo aquele sono incrível de que tantas grávidas se queixam e com o qual eu teria lidado lindamente nas férias. Havia finalmente um motivo de força maior para fazer sestas intermináveis na praia. Também não aconteceu. O meu cansaço manifestou-se de outra maneira.
O calor! O calor do Algarve dava cabo de mim. Eu, que sempre aguentei tão bem temperaturas altas, que cheguei a estar no Talasnal com quase 40ºC como se nada fosse, não suportei o calor daquele agosto. Estar na praia a qualquer hora do dia era um martírio. Só queria ir para casa, ligar o ar condicionado, deitar-me na cama em posição fetal e mexer-me o mínimo possível. Também não aguentava muito tempo em pé. Ir da toalha à beira-mar era um suplício, quando lá chegava estava tão ofegante que parecia que tinha corrido 5km e ao final do dia, quando chegava a casa da praia, aquela rotina básica de tomar banho, hidratar a pele e vestir-me deixava-me exausta. Hoje, muitas destas coisas ainda se mantêm mas, felizmente, com menos gravidade. Estar em pé quieta, de facto, é uma tortura. Ainda bem que existem cenas prioritárias para grávidas. Estar numa fila à espera para pagar qualquer coisa ou em pé a conversar com alguém deixa-me sem forças num estalar de dedos. Chega a ser ridículo, mas é a verdade. Caminhar não me cansa tanto desde que eu reduza a velocidade a que estava habituada. Sempre fui pessoa de andar imenso a pé - fiz 25km num dia em Nova Iorque quase sem dar por isso - e sempre tive passo acelerado mas agora tenho de andar mais devagar se quiser ter energia para chegar ao destino sem paragens. Sim, a gravidez fez de mim uma avó. É a vida.

 

Dores nas mamas

Acho que todas as grávidas que conheço se queixaram disto no início da gestação. Dores terríveis no peito em que até o toque de uma camisolinha era insuportável. Nunca soube o que isso era. Se calhar vou saber quando a criança nascer e quiser mamar... Bom, o melhor é não pensar nisso agora. Mamas doridas foi outro daqueles sintomas clássicos que me passou completamente ao lado. Fiquei tão intrigada que perguntei ao meu médico se isso seria normal, se não haveria algo de errado comigo. Ele riu-se. Fez bem.

 

Pele e cabelo fantásticos

Uma das coisas que li e ouvi com bastante frequência, inclusive de médicas dermatologistas, foi que na gravidez o cabelo fica forte e volumoso e aguenta uma semana sem ser lavado e que a nossa pele fica lindíssima, com uma luz especial e rebéubéu. Por aqui, até ver, continua tudo igual ao que era dantes. E isso não é especialmente interessante. Continuo com o cabelo fino que toda a vida conheci, a precisar de ser lavado dia sim dia não, e aquela acne incrível que acampou no meu rosto depois de ter deixado de tomar a pílula, há mais de um ano, também continua cá. Mas ainda não perdi a esperança.

 

O tamanho da barriga

Outra coisa que não sabia: é provável que no primeiro trimestre haja dias em que a barriga pareça mais pequena que no dia anterior. Fisicamente acho que isso é impossível, mas a nossa cabeça quer tanto que se comece a notar qualquer coisa que acaba por nos enganar. É o que eu acho. Havia dias em que eu jurava que via um altinho e no dia seguinte o altinho parecia ter desaparecido, ou parecia mais pequeno. Pelo que li nesse mundo magnífico que são os fóruns de maternidade e pelo que ouvi de outras grávidas, essa sensação é normal. Tal como é normal a barriga demorar algum tempo a aparecer. Todos os corpos são diferentes e se há quem faça barriga aos dois meses também há quem só comece a notar alguma coisa aos cinco. De qualquer maneira comentários do género "Bem, já se nota imenso! De certeza que só estás de 3 meses?!" ou "Já estás de 5 meses? Não se nota nada!" são parvos e, geralmente, as grávidas não gostam de os ouvir. Mas isso fica para outro post.

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