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zona de desconforto.

zona de desconforto.

10
Out16

A publicidade disfarçada nos jornais online e a ténue linha entre fazer dinheiro e o bom senso

Gosto do Observador. Acho que faz um excelente trabalho em quase todos os artigos que publica mas gosto, particularmente, dos “Explicadores”, uma secção do site onde explicam aos leitores o bê-a-bá dos assuntos do momento em vez de partir para grandes artigos de opinião ou investigação partindo do princípio que quem está a ler já sabe o básico. Dos jornais online portugueses que leio este é o único que o faz. É louvável e diferenciador e tenho pena que outros jornais do género não lhe sigam o exemplo. Mas… tinha de haver um mas… este tipo de textos dão cabo de mim.

 

É claro que um jornal online para sobreviver tem de fazer dinheiro, à semelhança da imprensa em papel e, apesar de não estar nada por dentro deste assunto, já percebi que grande parte das receitas devem vir da publicidade. Até aqui tudo bem. O que me parece muito mal é que um meio de comunicação social, que tem o dever de informar quem o lê, aceite fazer artigos deste género que podem influenciar negativamente a saúde das pessoas. Textos destes podem ser inofensivos se estivermos a falar de marcas de maquilhagem, shampoos, carros, vestuário. Mas quando entramos no campo da saúde alto e pára o baile. Aqui as coisas deveriam ser tratadas de maneira totalmente diferente.

Este jornal em particular criou a OBS Lab, uma marca que dá voz às marcas. Explicam eles que este espaço é “o palco perfeito para as marcas contarem a sua história de forma mais completa e indelével, fazendo chegar o melhor do seu conteúdo aos leitores.” Óptimo. Acho óptimo que a Becel tenha a oportunidade de contar a sua história. Mas é preocupante que um jornal online, que chega a milhares de pessoas, publique um artigo que afirma que comer Becel ajuda a baixar o colesterol prevenindo, assim, doenças cardíacas e que estes textos apareçam no meio de notícias reais e não num separador dedicado só à publicidade e devidamente identificado. É certo que no feed principal onde aparece a notícia, por baixo do lead, está a inscrição "OBS Lab" mas quem não saiba o que é o OBS Lab será que percebe que aquilo é publicidade? Duvido. Até porque só agora é que eu soube o que aquilo significava, e leio o Observador todos os dias. Como eu, devem haver mais pessoas. Daí chamar-lhe "publicidade disfarçada".

Neste artigo todas estas informações estão fundamentadas por “vários investigadores” e “vários estudos científicos” desenvolvidos “à luz da ciência moderna”. Ora bem, isto bem espremidinho quer dizer, basicamente, zero. Que tal um link para todos esses estudos científicos e altamente credíveis para as pessoas os poderem ler e, aí sim, formarem a sua opinião? Pois não há. E não há porque isso à Becel não dá jeito nenhum. À Becel o que dá jeito é que uma pessoa com o colesterol elevado leia este artigo, acredite que o que ali está escrito é a mais pura das verdades porque, afinal, são os “vários estudos científicos” que o dizem, e vá a correr comprar uma embalagem das grandes da manteiga vegetal para barrar no pão todas as manhãs e a todos os lanches convencidíssima de que a cada dentada o colesterol está a baixar. Mas não são só as pessoas com colesterol elevado que beneficiam disto. Quem sofre de hipertensão também pode tratar, ou prevenir, a doença com um produto Becel! Não é incrível? A Becel é a cura para todos os males! Só que não.

 

A solução para baixar a colesterol ou para prevenir qualquer doença não está numa embalagem de manteiga vegetal nem num copo de iogurte com dez mil milhões de qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é e o que faz efectivamente. A solução está em comer comida de verdade, que não vem em embalagens nem tem rótulos com prazos de validade e contagem de calorias. É bastante óbvio não é? Mas são artigos como aquele que fazem as pessoas acreditar que não, que o que é bom é aquela embalagem de manteiga vegetal. Porque é que o Observador, ou outro jornal online, não faz publicidade a pequenas empresas que cultivam brócolos, couve-flor ou de venda de peixe ou carne? Porque isso não é rentável para o site, nem para a Becel, nem para a indústria farmacêutica que, com este tipo de alimentação natural, não conseguiria vender tantos medicamentos para baixar o colesterol porque as pessoas, simplesmente, não precisariam deles. Esta marca do Observador, e de todos os jornais online que fazem os mesmos tipos de artigos publicitários, não é “o palco perfeito para as marcas contarem a sua história”. É o palco perfeito para as marcas contarem as suas histórias. Aquelas que mais lhes convêm. E, como disse ali em cima, se isto é inofensivo quando falamos de marcas de roupa, carros, cosmética no que toca à alimentação não deveria ser assim.

 

Se tivesse lido isto há um ano não me teria afectado minimamente. Porque há um ano eu também preferia as manteigas vegetais às manteigas normais porque achava que estava a fazer bem. Porque o que é vegetal é, obviamente, melhor que os produtos animais e nem me ocorreria ler os rótulos daquilo que comprava, nem reflectia que comer o que quer que seja “com sabor a” não podia ser bom, não podia ser a melhor escolha. Mas há um ano houve qualquer coisa em mim que mudou e comecei a querer fazer o melhor por mim e a querer saber mais sobre aquilo que compro para me alimentar. Com essa decisão e curiosidade tudo mudou. Comecei a investigar muito, descobri artigos chocantes como este, que mostra que as directrizes do governo inglês sobre uma alimentação saudável estão a engordar e a adoecer a população inglesa, descobri que afinal não há uma relação entre comer ovos e ter colesterol elevado ou que ter o colesterol elevado não aumenta necessariamente o risco de doenças cardíacas. Descobri o brilhante e elucidativo blog do Dr. Souto e comecei a seguir no Snapchat a nutricionista Lara Nesteruk e a Catarina Lopes, percebi que aquela regra idiota de comer de 3 em 3 horas não se aplica a toda a gente e não acelera o metabolismo coisa nenhuma, as pessoas devem comer quando têm fome. Ponto. Isso é o natural. Comecei a saber diferenciar um estudo clínico randomizado de um “estudo” patrocinado por uma marca qualquer de produtos industrializados, ou por uma farmacêutica, que pagou a médicos para fazerem testes a meia dúzia de pessoas muito específicas durante uma semana para se chegar à conclusão de que para curar X temos de comer Y ou tomar Z.

Infelizmente são estes últimos “estudos” que chegam aos jornais com títulos sensacionalistas do género “comer fiambre provoca cancro”. E, acreditem, saber estas coisas, ter curiosidade para investigar mais, ler realmente os estudos científicos mais sérios e credíveis, virar todas as embalagens de produtos alimentares para ler os rótulos faz uma diferença gigantesca nas escolhas que eu faço e que, acredito, serem as melhores para mim. Mas isto sou eu, que tive vontade e curiosidade de saber mais. A geração dos nossos pais ou dos nossos avós influenciam-se apenas por este tipo de notícias e pelo que vem escrito no rótulo das bolachas. Se um pacote de bolachas disser na embalagem que possui um ingrediente que baixa o colesterol, pimba, é mesmo esse que levam. Mesmo que o primeiro ingrediente seja açúcar e segundo seja óleo de palma ou de girassol.

 

Lembro-me bem de um anúncio que circulou na televisão portuguesa há uns anos, com a Adelaide de Sousa e o Nuno Delgado, atleta olímpico português, que promovia, juntamente com a Fundação Portuguesa de Cardiologia os benefícios de comer pão com margarina.

 

 

MARGARINA!!! Quem não tiver apego pelo estudo, quem não for curioso e vir um anúncio destes, feito por um atleta e, ainda por cima, com o cunho de uma respeitada instituição, vai acreditar logo que sim senhor, pão com margarina é que é saudável. Pão com uma coisa que só se pode fazer em fábricas, feita com óleo de palma, leite em pó e aromas é que é bom. A manteiga verdadeira, feita só com leite e sal é horrível, vai matar toda a gente, é péssima para o coração. Tal como o queijo. Nos produtos industrializados, nas margarinas, é que está a solução. E pronto, as pessoas engolem, literalmente, isto.

 

O tratamento e a denúncia destes temas na comunicação social deveria ser outro porque a responsabilidade social é - tem de ser - sem dúvida, outra. Mas isto é irreal, não é? O dinheiro fala sempre mais alto. É pena e é assustador, também. Principalmente assustador.

 

10
Out16

"Calma, estás muito irritada!"

Quando li este post d’A Gaja

“Quando um homem fala alto, está a "expressar a sua opinião". Uma mulher quando eleva a voz é "uma histérica". Quando um homem está zangado é porque deve ter razões para isso. Quando uma mulher está chateada, "está hormonal, com TPM".“

lembrei-me de uma coisa que acontece comigo há anos. Não sei se por ser mulher ou por ser como sou ou uma mistura das duas coisas. De qualquer maneira incomoda-me muitíssimo.

Sou, geralmente, uma pessoa reservada, apaziguadora e diplomática. Não gosto de conflitos e quando me deparo com uma pessoa que não sabe debater uma ideia ou que o faz de maneira que, para mim, é agressiva tendo a manter-me neutra para acabar a discussão rapidamente para não me chatear. Porém, volta e meia, acontece expressar a minha opinião e envolver-me em debates sobre determinados assuntos que me apaixonam particularmente. Pasme-se! E sempre que o faço, especialmente se o meu ponto de vista for diferente do do meu interlocutor, a reacção é sempre a mesma: “Calma! Estás muito enervada.” A sério? Esse é o teu melhor argumento para provares que tens razão? Eu não estou enervada, estou só a dar a minha opinião que, por acaso, é diferente da tua. Lida com isso. Mas lida de uma forma construtiva, apresentando argumentos para defender o teu ponto de vista em vez de acabares com a conversa com a cartada do “estás muito enervada”.

Não obtenho esta reacção só da parte de homens, as mulheres também fazem o mesmo, e isso faz-me reflectir se é por, normalmente, evitar alongar-me em discussões que prevejo serem intermináveis e desagradáveis ou se é por ser mulher. De qualquer das formas adorava que as pessoas aceitassem esse facto, de que sou mulher e sou como sou, se focassem naquilo que estou a dizer e se envolvessem na discussão em vez de tomarem o meu entusiasmo por determinado assunto por histerismo, stress, TPM ou o raio que o parta. E não, não estou irritada. Estou só a expressar a minha opinião. Obrigada.

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