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zona de desconforto.

zona de desconforto.

25
Dez17

It's a girl!

Quando era criança e fingia ser mãe de um boneco o boneco era sempre rapaz. Quando brincava às Barbies os filhos delas eram sempre rapazes. Quando deixei a bonecada e comecei a idealizar a minha própria família, a que viria a construir um dia, imaginava-me mãe de um, ou mais, rapazes. Por alguma razão autodeclarei-me mãe de rapazes desde muito cedo. Entretanto engravidei e a vida presenteou-me com uma menina!
Queria muito poder contar-lhe, um dia, que quando soube da notícia fiquei radiante e que comecei logo a imaginar todos os vestidos fofinhos que lhe iria vestir, os penteados que a ia ensinar a fazer, as grandes tardes de compras na Zara, só as duas, ou de como iria ser divertido ensiná-la a maquilhar-se. Mas não lhe vou poder contar nada disto porque quando o médico disse “É uma menina” a primeira coisa que me saiu foi “Meu Deus, vou ter de fazer terapia”.

 

Durante anos não pensava no porquê de me imaginar mãe de meninos, mas o tempo foi passando, eu fui crescendo e tendo as minhas próprias experiências enquanto menina e, depois, mulher, e a tomar uma maior consciência do mundo onde vivemos e essa tendência para preferir os meninos tornou-se clara: educar um menino devia ser mais simples que educar uma menina, porque o mundo onde vivemos ainda é aquele em que um menino apalpar uma uma menina na escola provoca risinhos às educadoras e vigilantes e não é visto como um gesto que mereça ser repreendido porque, afinal, são só crianças e aquilo não significa nada. Não lhes ocorre que, se calhar, para o menino, aquilo não significa mesmo nada mas para a menina, que estava no recreio despreocupada, aquilo lhe causa vergonha e desconforto e é uma situação difícil de processar porque, lá está, é uma criança e é inocente e não percebe porque é que aquilo a fez sentir tão mal quando toda a gente à volta dela, adultos incluídos, agem como se fosse apenas uma gracinha. O mundo onde vivemos ainda é aquele em que uma mulher bonita, ou que se gosta de arranjar, tem de trabalhar o triplo para provar que tem outros interesses para além do verniz com que pinta as unhas, ainda é aquele em que as mulheres ganham menos que os homens, em que uma mulher que consegue alcançar um cargo de chefia é porque teve de dormir com alguém, onde o valor de uma mulher continua a ser medido pelo tamanho da saia ou do decote, onde o sentimento de insegurança nos persegue nas situações mais simples, seja a andar na rua de vestido no verão ou a atravessar um parque de estacionamento deserto no inverno, onde passar por um homem na rua significa, metade das vezes, ouvir um comentário indesejado que nos faz sentir envergonhadas e sujas e nos faz estar alerta as outras 50% das vezes em que nada acontece... perante tudo isto, era evidente, para mim, que educar um rapaz envolveria menos preocupações que educar uma rapariga.
Educar um rapaz não significa passar-lhe valores ou ideias que, muitas vezes, são pouco coerentes. Deves sentir-te à vontade para vestires o que quiseres, mas quando saíres de calções evita ruas pouco movimentadas. Isto nunca acontece com um rapaz. Mas uma rapariga, nesse dia, provavelmente já sairá de casa com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vai sentir sobre ela olhares demorados e ouvir coisas que não quer e terá de tomar a decisão de, ainda assim, sair como entender ou voltar atrás para vestir qualquer coisa “mais compostinha”. E é aqui que reside a problemática de educar uma menina. Quero que ela se sinta livre e confiante para expressar a sua individualidade como entender mas também a quero preparar para a triste realidade de que uma mulher ainda é vista por alguns como uma presa e um ser menor. Quero dar-lhe ferramentas para lidar com os constrangimentos de se ser menina mas sem ela se sentir esmagada pela simples ideia de eles existirem. Quero fazê-la sentir-se dona do seu próprio corpo quando, ao mesmo tempo, ela vai acabar por perceber que existem pessoas que acham que uma mini-saia ou um decote são um convite para a invasão do nosso espaço pessoal. Quero educar uma menina segura, confiante e assertiva, com a noção do mundo onde vive e com capacidade de o encarar de frente. Sem medos.

 

Quando soube que íamos ter uma menina fiz um sorriso nervoso e disse “Meu Deus, vou ter de fazer terapia” e logo a seguir, ainda durante a ecografia, senti-a mexer-se pela primeira vez. Nem quis acreditar! Talvez tenha ficado ofendida com a minha exclamação. Ou talvez tenha sido uma biqueirada intencional como quem diz “Vai correr tudo bem”. Ok, podem ser demasiadas palavras para uma criança com 17 semanas ainda no útero mas, de certeza, que ela já é para lá de esperta e que aquela vibração que senti do lado esquerdo da barriga era ela a dizer-me para não me preocupar e aproveitar o tempo que ainda nos falta para ir à Zara e organizar-lhe um guarda-roupa como deve ser, que não há nada pior que ir ao pediatra de babygrow para levar vacinas. Está bem que vamos chorar muito e fazer uma grande birra como se o mundo estivesse a acabar mas, convenhamos, não somos uns pelintras, há que fazê-lo em bom.
It's a girl!

17
Dez17

O mundo encantado das coisas para bebés

Se o mundo encantado das coisas para grávidas consegue ser mind blowing para quem está a passar pela experiência pela primeira vez, o mundo encantado das coisas para bebés é todo um outro campeonato. Mesmo! Eu, que estava longe de ser uma analfabeta no que respeita ao universo dos bebés, assim que comecei a pesquisar mais a sério sobre o assunto o meu cérebro deu um nó. Quem diria que um ser tão pequenito que nos primeiros tempos só come, dorme e produz grandes cocós, fosse precisar de tantos gadgets?
Tal como nas coisas para grávidas também aqui deve imperar o bom senso que, infelizmente, é muito mais difícil de pôr em prática porque é óbvio que queremos TUDO! E queremos tudo nas melhores versões que houver. O carrinho mais topo de gama, a cadeirinha de refeição que se vai transformando em cenas várias até a criança ter 18 anos, o berço mais giro, os brinquedos mais estimulantes, os produtos mais naturais, a banheira que vimos naquele blog porque sim, os lençóis que impedem que a criança escorregue pela cama, o último grito dos esterilizadores de biberões, as fraldas que mudam de cor quando estão molhadas… tudo o que for menos que o melhor e mais incrível não serve. Mas se formos pessoas normais, com consciência e fundos limitados, chegamos a duas brilhantes conclusões: a) o dinheiro não chega para tudo; b) a criança não precisa nem de 1/3.

Quando descobri que estava grávida preparei-me para enlouquecer. Imaginava que, por esta altura, já teria tudo: mobília, roupa de cama, ninhos, almofadas de amamentação, decoração, montanhas de roupa para lhe vestir, vários tipos de biberões e chuchas, fraldas para as diferentes etapas, carrinho, berço, mochila ergonómica, intercomunicadores com câmara, kits de primeiros socorros, kits de banho… enfim, tudo. Mas o tempo foi passando e, ao contrário do cenário dantesco que desenhei na minha cabeça, consegui manter a sanidade mental e poupar as nossas finanças! Começámos com uma lista inacreditável de coisas para comprar mas conforme o tempo foi passando fomos excluindo muitas delas por já não nos parecerem tão essenciais assim. O que me ajudou a não perder a cabeça e a não ter ataques de pânico sucessivos sempre que chegava à triste, mas real, conclusão que não ia conseguir chegar a tudo, foi ter uma queda, bastante acentuada, para o minimalismo e pessoas à minha volta com mais experiência que eu. 



A experiência dos outros é a nossa melhor amiga
Quando soube que íamos ter uma menina primeiro entrei em pânico - mas sobre isso falaremos depois - e a seguir fui ao site da Zara e da Mango onde reuni uma quantidade infindável de coisas para lá de giras para lhe vestir. Em duas horas fiquei com o roupeiro da criança todo pensado e esquematizado para o primeiro ano. Espetacular! Mas depois falei com uma amiga que para além de mãe é enfermeira, logo tem um olhar muito mais clínico sobre o assunto, que me alertou para dois pormenores muito simples: roupas 100% algodão para os primeiros tempos, para evitar alergias, e que apertem com molas à frente, porque são mais práticas e rápidas de vestir e despir. Mas como é que eu não tinha pensado nisto? Vou mesmo querer enfiar camisolas com golinhas de folhos pela cabeça da minha filha recém-nascida que, muito provavelmente, vai desatar num berreiro quando aquilo lhe ficar preso, por uns míseros milésimos de segundo, ali entre as orelhas e o nariz? Provavelmente não. Quando fui rever a lista à luz deste conhecimento recém-adquirido metade das coisas deixaram de fazer sentido. Eram práticas, com as tais molas ou botões à frente, mas muitas eram quase 100% poliester.

Quero com isto dizer que devemos ser cegos e fazer tudo o que as outras pessoas nos dizem, anulando-nos completamente? Claro que não! Este conselho em particular fez-me todo o sentido. Estava tão preocupada em vestir-lhe roupas giras que nem me lembrei do mais básico, que era saber de que é que as roupas eram feitas. Mas há muitas coisas que fazem sentido para os outros e que para mim nem por isso. Não por achar que são más compras ou que não são úteis, quem sou eu para tecer juízos de valor sobre isso, mas que não combinam connosco, com o nosso estilo de vida, com o nosso estilo de casa.

Minimalismo: a solução para todos os males
Também ajuda muito ser-se "anti merdinhas". Detesto, mas detesto mesmo, ter a casa cheia de merdinhas que não uso. No mínimo uma vez por ano encho uma data de sacos de coisas que só me estão a atafulhar a casa e ou as deito fora ou dou-as a pessoas que precisem mais. Seja roupa, papelada que já não interessa, revistas antigas, loiça, caixas e caixinhas. É um alívio quando chego ao fim e vejo o espaço livre com que fiquei. Infelizmente nos meses seguintes algum desse espaço livre é ocupado com mais merdinhas, que eu ainda não tenho maturidade suficiente para ser tão minimal quanto gostaria, mas é um processo. Esta queda para destralhar é ótima quando falamos do mundo encantado das coisas para bebés.
Quero mesmo ter um esterilizador e um aquecedor de biberões, que eu nem sei se vou utilizar, a ocuparem-me espaço na bancada da cozinha quando uma panela com água a ferver faz o mesmo? Não, não quero. Se entretanto chegar à conclusão, in loco, que um esterilizador é muito mais prático que a panela serei a primeira a dar o braço a torcer e ir comprar um. Não quero é fazer mais esse investimento quando nem sei se vou precisar de o usar.
Por outro lado faz-me muito mais sentido ter um biberão em casa e uma lata de leite adaptado just in case a criança querer comer às 4 da manhã e eu, por qualquer razão, não lhe conseguir dar de mamar mas, se calhar, para outra pessoa, isto também seria totalmente dispensável. Somos todas diferentes e isso é ótimo porque torna as discussões e a partilha de experiências muito mais enriquecedoras. Acho que é pondo estas variáveis todas em cima da mesa, sem fundamentalismos, que vamos conseguindo filtrar os conselhos que nos são úteis dos outros. 

Pesquisar, pesquisar, pesquisar
Não fazem ideia das coisas que à primeira vista me pareceram excelentes investimentos para fazer antes do nascimento mas que, depois de ler sobre o assunto, cheguei à conclusão que o melhor mesmo é ir com calma e deixar essas aquisições para mais tarde. 
A primeira coisa a ficar em stand by foi a mochila ergonómica. O babywearing parece-me a melhor invenção de todas. Então para mim, que não gosto de conduzir e faço tudo a pé, parece mesmo a solução para todos os males. Ir ao supermercado com o bebé coladinho a nós, que entretanto ficamos com as duas mãos livres, parece-me infinitamente mais prático que andar com carrinhos atrás. Se estivermos sozinhas como é que transportamos os sacos e empurramos o carrinho ao mesmo tempo? E se eu quiser ir só ali à mercearia da minha rua comprar leite e ovos, como é que vou andar naqueles corredores estreitos, onde não cabem duas pessoas, com um carrinho de bebé? E mesmo para as carro-dependentes, como é que levam os sacos até à porta do prédio se tiverem o bebé dentro do automóvel? Deixam-no lá dentro e andam a fazer piscinas entre o carro e o prédio? Ou levam a criança primeiro e deixam-na dentro do prédio sozinha enquanto vão ao carro buscar os sacos? Ou a solução é ficar em casa à espera do marido, ou fazer as compras online? Lá está, para mim essas soluções não servem, por isso o babywearing parece ótimo.
Assim que soube da existência da Ergobaby, que dá desde o nascimento até aos 20kg, achei que era mesmo aquilo que precisava mas, lá está, depois fui investigar e percebi que, mesmo com o redutor, a mochila não é o meio de transporte ideal para recém-nascidos e que os panos elásticos ou semi-elásticos, que rejeitei de início por me pareceram uma coisa assim meio alternativa, são muito mais confortáveis para bebés tão pequenos. Pelo sim, pelo não prefiro esperar para perguntar a um pediatra e, até lá, informar-me sobre os panos e aprender como se usam.
O mais recente item a sair da lista a grande velocidade foi o muda-fraldas. Há quem me garanta que é uma coisa essencial e que dá um jeitaço, mas também conheço muitas pessoas que resolveram o assunto na cama dos pais com uma toalha e siga o baile. Nós começámos por escolher um simples e bonitinho do IKEA mas quando nos apercebemos que o preço do móvel era quase o mesmo que o da cama de grades começámos a questionar o quão relevante seria o muda-fraldas para nós. Resultado: menos um móvel para comprar, menos um mono a ocupar espaço no quarto. Vamos experimentar mudar as fraldas na nossa cama com a ajuda de um trocador portátil, daqueles de viagem, e só se virmos que não resulta - coisa que duvido que aconteça, muito honestamente - é que investimos no móvel. 

 

Descomplicar
E quando tudo o que foi dito anteriormente não resulta entra em cena o Marcos Piangers que, um dia, tão sabiamente, nos alertou para as principais preocupações que nos assolam quando descobrimos que vamos ter um filho. Infelizmente o que nos ocupa a cabeça a maioria do tempo e nos mantém acordados grande parte das noites não são os valores que lhes queremos passar ou em que tipo de pessoas queremos que eles se tornem. As nossas energias estão focadas nas coisas e no dinheiro que essas coisas nos vão custar. "Um carro melhor", "um apartamento maior", "juntar dinheiro para a melhor creche do mundo". Não é triste? Quando fazem o exercício de sair das vossas cabeças e das vossas listas de nascimento e dos cestos de compras online onde já acumularam todas as coisas que "têm" de comprar nos próximos meses, não acham tudo isso um bocadinho demais, completamente acessório e à margem da bigger picture? Eu própria me incluo neste grupo, eu também me perco durante horas nos sites de puericultura. Mas pôr os pés na terra e sair desse estado meio sonâmbulo é um trabalho, um esforço, que me obrigo a fazer diariamente para conseguir ver as coisas da maneira mais objetiva e descomplicada possível.

Ninguém duvida que todos queremos o melhor para os nossos bebés. É verdade, queremos. Mas o melhor não significa ter tudo o que as marcas nos querem fazer acreditar serem indispensáveis. O melhor não é competir com o vizinho do lado pelo gadget mais recente. O melhor não é ter o carrinho mais incrível, as roupas das marcas mais caras, uma casa com jardim ou aquele SUV que saiu há um mês e que, de certeza, tem espaço para tudo. O melhor somos nós. O melhor que lhes podemos dar é o nosso amor, o nosso tempo, a nossa paciência e, se possível, a leveza de uma vida sem dívidas e coisas a mais, perfeitamente dispensáveis. 

O melhor somos nós.

11
Dez17

O mundo encantado das coisas para grávidas

Antes de engravidar já sabia que o mundo dos bebés não é um mundo, é um universo. Há tralha para tudo e mais alguma coisa quando, na realidade, a criança, especialmente nos primeiros tempos, não deve precisar nem de 1/3. O que não sabia era que o mesmo se passava no mundo das grávidas.

 

As roupas

Estava preparada para, quando precisasse, ir à H&M comprar calças de grávida. Só. Mas se uma pessoa se quiser deixar afundar nesse pântano que são as roupas evolutivas tem muito para explorar.
Estão a ver todos os tipos de roupa que há na Zara? Pronto, existe um universo paralelo onde se fazem exatamente os mesmos tipo de roupa mas em mau e com as palavras "de grávida" à frente. Não é incrível? Existem vestidos de grávida, camisolas de grávida, collants de grávida, t-shirts de grávida, camisas de grávida, cuecas de grávida, sutiãs de grávida, pijamas de grávida, casacos de grávida, saias de grávida... de repente a grávida passa a ser um bicho e deixa de se conseguir vestir em lojas normais para ter de se vestir em lojas... de grávida!

A utilidade das calças parece-me bastante óbvia, chega ali uma altura em que temos de vestir qualquer coisa que nos aconchegue a barriga, mas o que é que uma parka de grávida tem que uma parka normal, um ou dois tamanhos acima, não tem? E o que são as cuecas de grávida? O que é que fazem a mais que umas cuecas normais de algodão não consigam fazer? Vêm com um doppler incorporado que permite ouvir o coração do bebé a qualquer altura do dia? Será que estas coisas vendem mesmo, será que há mesmo grávidas a comprar casacos de grávida, ou é um nicho que vai desaparecer nos próximos anos? E porque é que a roupa evolutiva é sempre tão mais cara e feia, ou demasiado básica, por comparação com as mesmas peças à venda nas lojas ditas normais? Por exemplo, no mundo das roupas de grávida nunca existem peças tendência porque é tudo básico ou às riscas horizontais. Grávida que se preze tem de ter uma camisolinha com riscas horizontais ou então a vida está, claramente, a passar-lhe ao lado. Faz parte do uniforme, tipo os bibes que as crianças usam nas creches.

Da parte que me toca comprei dois pares de calças na H&M, que espero que me sirvam até ao fim da gravidez, e dois pares de collants de grávida, da mesma marca. De resto as camisolas, que uso naturalmente largas, e os casacos que já tenho em casa devem ser suficientes para me vestir ao longo da gravidez. Quando, ou se, essas as coisas me deixarem de servir compro um número acima e siga o baile.

Ainda fui dar um olhinho às calças da Prenatal mas para além de caríssimas, lá está, são um bocadinho medonhas. As da H&M sempre têm estilos mais modernos - skinny, super skinny, boyfriend, com rasgões, sem rsgões -, parecem as calças normais que já usava antes, mas com uma faixa de tecido na barriga, e muitas não chegam a 30€. As da Salsa também se safam mas só têm um ou dois cortes diferentes e são 90€... tendo em conta que isto é coisa que se usa uns 6 meses não me parece o investimento mais inteligente, mas cada um sabe de si.

 

Os cremes

Para além das roupas existem os produtos anti-estrias, que também são um tema muito complexo. Primeiro temos de decidir se queremos começar logo de início a besuntarmo-nos com cremes ou se é melhor esperar pelo subsídio de Natal. Tal como a roupa, em que existe a normal e a "de grávida", também existem cremes gordos e depois existem os cremes gordos "anti-estrias" que são logo três vezes mais caros.
Depois de pormos de parte uma fatia do orçamento familiar para este produto especial de corrida temos de escolher a textura. Queremos um creme, um óleo ou um gel? E para além disto não quereremos também juntar um sérum intensivo para garantir que as cabras o raio das estrias não aparecem? Demasiado complexo, certo? Pelo que li, antes de me pôr a comprar o que quer que fosse, isto das estrias tem muito ver com a genética. Se a nossa mãe, ou irmã, ou avó tiverem tendência para desenvolver estrias é bem provável que nós também as cheguemos a ter por muito que nos besuntemos com cremes caríssimos. Que eu saiba o flagelo das estrias não corre na minha família mas, muito honestamente, preocupa-me mais a flacidez do corpo no pós-parto do que as estrias, e para isso é que não há cremes milagrosos. 

No início da gravidez ofereceram-me um boião da Barral de óleo de amêndoas doces e é esse que tenho estado a usar. Só o consigo pôr à noite, que aquilo é imensamente gorduroso, mas gosto bastante dele. Hidrata muitíssimo bem a pele e tem um cheiro muito agradável. Intenso, mas agradável. 
Também experimentei umas amostras do famoso Valestisa da Isdin e fiquei agradavelmente surpreendida. Tem textura de gel, o que para começo de conversa não é muito fixe porque é assim um bocado viscoso, mas espalha-se bem na pele, não tem cheiro e é absorvido quase de imediato, dá jeito para pôr de manhã depois do banho. Ponto negativo: é caro e nesta fase em que tenho de investir em tanta coisa dar 30€ por um creme e rezar para que ele faça efeito não é algo que me seduza. 
Já li, também, coisas muito elogiosas do BioOil e do clássico e acessível óleo de amêndoas doces à venda em qualquer supermercado. Por agora mantenho-me fiel ao da Barral e quando terminar logo vejo o que faço. 

 

Os essenciais das grávidas profissionais

Depois destes dois temas colossais há ainda aqueles "essenciaizinhos" que as grávidas que já só vivem dentro da Prenatal conhecem e juram que são o-bri-ga-tó-ri-os, assim com os olhos muito abertos, mas que, por aqui, vão passando pelas gotas da chuva. São o caso das cintas de gravidez, que mais não são que uma faixa que nos segura a pança, as meias de descanso para as pernas não incharem, os cintos "de grávida" - lá está... - para segurar a barriga quando estamos no carro e mais uma data de coisas para lá de importantes que, certamente, me estão a passar ao lado. Não digo que não sejam úteis, aquele cinto para o carro para grávidas com barrigas muito grandes e que passem muito tempo ao volante devem ser muito práticos mas, até ver, são coisas que não me têm feito falta e por isso não pesquisei grande coisa sobre elas. Mas, tendo em conta a história dos cremes e da roupa, já sei que se precisar de me debruçar sobre o assunto também vou descobrir que há 682 tipos de cintas e de meias de descanso que prometem mundos e fundos e depois vai ser só tudo muito desconfortável e exageradamente dispendioso.

04
Dez17

Como enervar uma grávida calma em 7 passos

Confesso que antes de engravidar achava este tipo de avisos um exagero. De repente uma mulher engravida e não se lhe pode dizer nada que ela está muito sensível. Mas é mesmo isso que acontece! Existem coisas que quando ditas a uma mulher grávida acordam o monstro hormonal até ali adormecido. Chamo-lhe Alexandre. É provável que isto não suceda com todas nós, é até possível que haja uma ou outra grávida equilibrada e que leve isto tudo na desportiva.
Não é o meu caso. 
Nesta altura estamos mais sensíveis e temos alguma dificuldade em lidar com certos comentários com o mesmo discernimento e leveza com que lidaríamos se não estivéssemos tão... hormonais. Se quando chegarem ao fim do texto continuarem a achar que isto é tudo muito parvo e decidirem continuar a dizer o que vos apetece, sem filtro, estão por vossa conta e risco. O mais provável é levarem uma resposta torta do 'Alexandre' e ficarem ofendidinhos e, se isso acontecer, não esperem que seja a grávida que acabaram de irritar que vos console.

 

  1. Comentários sobre a barriga. A menos que seja para nos elogiar a figura, abstenham-se de comentários do género "tens a barriga enorme" ou "não se nota nada". Este assunto é-me especialmente sensível porque só fiz uma barriga mais ou menos evidente lá para os quatro meses e tal e detestava quando me diziam que não se via nada.
    Vamos lá ver se nos entendemos: se há altura da nossa vida em que queremos que nos reconheçam a pança é esta. Olharem para nós com os olhos semicerrados e dizerem "não se nota nada" não é fixe. Mais vale estarem caladinhos. Pode até parecer que nos estão a elogiar e a dizerem-nos, porém de uma forma um pouco estranha, que estamos para lá de elegantes, mas esses comentários só têm um efeito: fazer-nos questionar se estará tudo bem e porque é que ainda não se nota tanto como gostaríamos. Felizmente, por cada comentário de "mal se nota" há dez pessoas a pedirem-nos para mostrar a barriga e a ficarem genuinamente felizes quando a vêem. 

  2. "Foi planeado?" Assim que descobrimos que estamos grávidas queremos contar a toda a gente LOGO a seguir. É inevitável. Estamos felizes e queremos partilhar isso com as pessoas que nos são mais próximas. Portanto quando, ao fim de três longos e penosos meses, podemos finalmente contar ao mundo esperamos que toda a gente salte de alegria e não que fique na dúvida se nos há-de dar os parabéns ou uma palmadinha no ombro com olhos de bambi, "deixa lá há coisas piores". Temos mesmo de fazer aquele disclaimer "estou grávida, e sim, foi planeado"? Se vos estamos a dar a boa nova com um sorriso enorme e parvo é porque estamos felizes e queremos contagiar toda a gente com essa felicidade.

  3. Inquéritos sobre as restrições alimentares. A não ser que nos ouçam dizer que o que nos apetecia mesmo era um prato gigante de sushi e um copo de vinho, de nada vale fazerem-nos um interrogatório sobre toooooodas as coisas que sentimos falta de comer. "E ovos estrelados tens saudades? Ah, mas aposto que tens saudades de uma boa farinheira! Lembras-te daquele tártaro de novilho maravilhoso que comemos há uns meses? Ah, não podes não é? Pois, é cru. Que chatice. E morangos também não podes? E maionese? E queijo da Serra, daquele bem amanteigadinho, também não vai?" Menos.
    Tudo o que não podermos comer durante os 9 meses vamos poder voltar a comer depois durante uma vida. Provavelmente a grávida já fez as pazes com isso e nem se lembra que não come sushi há meses por isso, e para bem de toda a gente, não a lembrem.

  4. "Não podes fazer isso". Ora bem (pausa para respirar fundo)... o mais provável é estarmos a ser seguidas por um profissional de saúde que já anda nisto há toda uma vida, por isso dispensamos comentários alarmistas em relação ao que podemos ou não fazer. Até porque é possível que a grávida que têm à frente já tenha feito um inquérito exaustivo ao desgraçado do médico sobre tudo o que lhe possa ser prejudicial, inclusive o ar que respira e a água que bebe. Não lhe vão estar a dar novidade nenhuma. "Vais mesmo continuar a pintar as unhas? Não devias beber coca-cola. E também devias cortar na água com gás. Amukina? O vinagre faz o mesmo efeito." Não se aguenta.

  5. "Estás muito gorda/magrinha". Este vem de mãos dadas com o do tamanho da barriga. As únicas observações válidas sobre o nosso peso são do médico obstetra que nos segue. É essa a única opinião que importa porque vem de alguém que sabe, efetivamente, do que está a falar. A perceção do resto do mundo sobre quantos quilos devemos ou não engordar é-nos completamente inútil. Mais uma vez, se a vossa intenção é elogiarem-nos a figura um simples "estás com ótimo aspeto", é suficiente. Olharem para nós de lado quando nos vêem comer um chocolate e soltarem um "olha que isso não é saudável! Assim vais engordar muito" ou um "olha que agora tens de comer por dois! Não é altura para dietas" quando comemos menos tem um nome e chama-se bullying.

  6. Tocarem-nos na barriga. A regra aqui é simples: perguntem primeiro! Basta isso. Um dos primeiros reflexos que adquirimos quando estamos grávidas é levarmos a mão à barriga para a protegermos do resto do mundo. Faço isso quando estou em sítios com muita gente, num centro comercial ou no supermercado, por exemplo. É inconsciente. Não quero levar um encontrão e portanto protejo aquilo que, neste momento, considero mais frágil. Por isso ver alguém, de repente, a esticar a mão em direção à minha barriga, assim do nada, desperta em mim reflexos assassinos. Perguntem primeiro.

  7. Grávida calma = bebé calmo. Já tinha lido muita coisa sobre a culpa materna, e que muita dessa culpa nos era sugerida por terceiros, só ainda não sabia que isso começava tão cedo. O que mais ouvi até agora de amigos, familiares e vizinhos com quem me cruzo na rua a cada 15 dias, foi aquele sábio conselho de que tenho de ter uma gravidez muito calma para o bebé nascer calmo. Mas... como assim? Tenho de fazer um retiro budista? Fazer yoga? Massagens dia sim dia não? Ouvir Chopin? Quão calma pode ser uma gravidez? Especialmente a primeira, em que é tudo novo. E mesmo que a grávida seja a pessoa mais zen desta vida isso garante-lhe um pequeno anjo que já sai do útero a sorrir, não sofre de cólicas e que só faz um pequeno gemido, quase inaudível, quando tem fome ou a fralda suja? Não respondam que eu já sei que a resposta é não.
    Pode não parecer, mas isso é o mesmo que despejar mais um enorme e desnecessário balde de responsabilidade nos ombros da futura mãe que, provavelmente, até ali estava a levar a coisa com relativa tranquilidade mas que, de repente, começa a estar atenta a tudo o que lhe possa causar um ligeiro stress, não vá isso valer-lhe uma criança insuportável ao fim dos 9 meses. Já temos tanto em que pensar que a última coisa que precisamos é de estar a policiar as nossas próprias emoções. 
    Já imaginaram a aflição e a culpa daquelas mães que levaram esta "dica" demasiado a sério e depois lhes saiu na rifa um pequeno terrorista? De certeza que a criança tem cólicas porque ela se enervou daquela vez no trabalho ao quarto mês. Certamente que ele chora muito porque a mãe se fartou de ver filmes lamechas nos últimos 3 meses. É óbvio que ele tem cólicas desde o primeiro dia porque a mãe, essa cabra, comeu chocolates todos os dias quando estava grávida. É evidente que a criança aos dois anos faz imensas birras porque a mãe, quando estava grávida, discutiu com a sogra, porque não queria ter um urso de peluche com 1m80 em casa. 
    A única forma que eu tenho de manter a calma é informar-me sobre tudo o que, para quem está de fora, parece um sintoma clássico de stress e ansiedade. Mas não é pessoas, não se enervem. Quero simplesmente tentar estar preparada para as coisas por isso leio muito e, mais impotante que as leituras, pergunto tudo a toda a gente, não só a médicos e enfermeiros mas, sobretudo, a amigos que tenham sido pais recentemente. Felizmente, tenho muitos exemplares desses à minha volta.

    Dica verdadeiramente importante: não se isolem. Rodearem-se de pessoas que estão a passar, ou passaram recentemente, pelo mesmo que nós é a melhor rede de apoio que se pode ter nesta fase.
    Quando é que se começa a frequentar as aulas de preparação para o parto, como é que foi a experiência na maternidade x e y, quando é que começaram à procura de creches, como é que se veste um recém-nascido, quais as roupas mais práticas, qual a quantidade de fraldas que convém ter em casa quando a criança nascer, etc., etc., etc. As perguntas não têm fim mas acho que as pessoas a quem as fazemos não se importam. Primeiro porque sabem o quão difíceis e avassaladores podem ser os primeiros tempos e depois porque, geralmente, as pessoas gostam de falar das suas experiências e de se sentirem úteis aos outros. É claro que cada pessoa tem uma experiência diferente e o que resultou para uma não resultou para outra e é aqui que entra mais uma dica preciosa: ouvir tudo com o devido filtro e adaptar isso à nossa realidade. Se quisermos incorporar na nossa vida tudo o que resultou com toda a gente, de repente damos por nós a fazer coisas pouco coerentes que, obviamente, não resultam e damos em doidas. Mas isso fica para outro post.

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