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zona de desconforto.

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07
Jan18

A importância do médico certo

Depois de decidir que queria fazer o parto num hospital público fui-me informar das diferenças entre ser seguida nas consultas de rotina no Serviço Nacional de Saúde e no privado. Para começar há sempre aquelas discrepâncias óbvias de umas serem feitas num centro de saúde, provavelmente num edifício velhinho e algo deprimente, e as outras acontecerem num hospital privado ou clínica de aspeto assim mais fancy, que uma pessoa até se esquece que está no médico, ou dos tempos de espera mais ou menos reduzidos, se bem que neste caso, tanto num como noutro, os tempos de espera são sempre longos. As grávidas são seres muito chatos, com muitas dúvidas. Mas as duas grandes diferenças entre o público e o privado são que no público não há cá contactos trocados entre médicos e pacientes, se têm dúvidas liguem para a Saúde 24 - que eu acho a melhor invenção de sempre. É a next best thing a ter um médico na família a quem se pode ligar a pedir ajuda - ou esperem pela próxima consulta e a frequência com que se fazem ecografias. Numa gravidez normal, sem complicações, seguida apenas no público só se faz uma ecografia por trimestre, ou seja, vemos a criança três vezes ao longo de toda a gravidez. O resto das consultas, feitas mensalmente, resumem-se a conversas com o médico assistente e, a partir de determinada altura, lá pelas 17 semanas, a ouvir o coração da criança com um aparelho. Ora, esta parece ser uma solução para cima de espetacular para grávidas descontraídas, que levam isto tudo na desportiva mas, para mim, a ideia de só ver a minha filha a cada três meses dava-me cabo dos nervos. Se no cardápio há a opção de a ver todos os meses é essa mesmo que eu quero. Houvesse hipótese de a ver todas as semanas e nem pensava duas vezes. Foi principalmente esta diferença que me fez optar pelo privado onde podia ver a pequena cria a nadar alegremente dentro da minha barriga em todas as consultas. Infelizmente isto podia ser assim simplesinho e óbvio mas não é.

 

A primeira consulta de obstetrícia que marquei no hospital privado foi à sorte, com o médico que estava livre mais cedo para me atender, e tive logo um mau pressentimento em relação a isso. Sou aquela nerdzinha irritante que antes de marcar qualquer consulta anda à pesca de referências junto de amigos ou nos milhentos fóruns que populam por essa internet fora. Claro que isto vale o que vale, toda a gente tem dias maus, médicos incluídos, mas eu gosto de partir para as coisas a saber com o que é que posso contar. O problema é que como ainda só tinha contado à família mais próxima, tudo pessoal que é seguido em hospitais públicos, não tinha assim ninguém a quem pedir referências de obstetras por isso não tinha outro remédio senão sujeitar-me à sorte. Ainda me tentei valer do Google mas ele também não foi grande ajuda, o que para começo de conversa não augura nada de bom. Não havia uma única entrada com o nome daquele médico nas primeiras três páginas do motor de busca. Era uma inexistência. E uma pessoa tem de estar muito desesperada para ir além da primeira página, toda a gente sabe disso. Ainda assim fiz um esforço para ir para a consulta de mente aberta. 
Que desilusão.
Calhou-me um médico que estava mais preocupado em atualizar a minha ficha no computador do que em falar comigo, que estava mais preocupado com o peso que eu podia ou não ganhar do que com as 582 dúvidas que eu tinha - deu-me uma folha com uma “dieta” daquelas genéricas, que se passavam em 1987, que dizem que temos de comer de 3 em 3 horas e de fazer 3 lanches por dia que incluíam pão, bolachinhas de água e sal, gelatinas e derivados do leite… ridículo. Ainda pensei explicar-lhe que antes de engravidar seguia uma dieta low carb e que queria recomendações que fossem mais nesse sentido, mas rapidamente percebi que não valia a pena – só dava o contacto dele a partir das não sei quantas semanas porque, coiso, desvalorizou as minhas preocupações, que se calhar até eram de desvalorizar porque eram tontas, mas eu precisava de alguém que me confortasse e me desse confiança e não que me fizesse sentir burrinha, e, o pior de tudo, não fazia ecografias em todas as consultas porque “não há razão médica para isso”. Esta última foi assim um balde de água fria. Estava convencidíssima que no privado se faziam sempre ecografias de rotina mas não, pelos vistos depende do médico. E, claro, tinha-me de calhar um que achava esses "miminhos" completamente dispensáveis, que não entendia que uma grávida, especialmente de primeira viagem, é um poço de ansiedade e que aquele momento em que olha para um ecrã e vê aquele ser pequenino, que depende dela para tudo, é essencial para lhe acalmar o coraçãozinho nervoso.

 

Saí do consultório muito desiludida. Não era nada daquilo que eu queria ou precisava. Se aquela tivesse sido uma simples consulta de rotina e eu só o voltasse a ver dali a um ano estava ótimo! Mas era um obstetra, alguém que eu ia ver todos os meses durante nove meses numa altura única e especial da minha vida onde tudo é novo e bonito e assustador ao mesmo tempo. Se há médico com o qual eu tinha de ter uma relação de empatia e de confiança era com aquele. Claro que sendo eu a pessoa que sou desvalorizei os meus instintos. Achei que estava a fazer uma tempestade num copo de água, que aquilo eram as hormonas a falar e dei-lhe mais uma oportunidade. Voltei lá três semanas depois e... tudo igual. Muito computador, muito acenar de cabeça e aquela escuta ativa vazia, “hum hum”, novamente a porcaria da conversa do peso e um contacto tirado a ferros, quase a pedir por favor. Não, não era, definitivamente, aquilo que eu queria. Este assunto consumiu-me de tal maneira que nessa noite quase não dormi. Queria mudar de médico, queria ser seguida por alguém que me desse confiança, com quem conseguisse ter empatia, que me deixasse à vontade para fazer todas as perguntas que me ocorressem e, sim, queria um médico delicado que falasse comigo com paninhos quentes e não de um bloco de gelo que me tratasse como só mais uma paciente que não podia estar ali mais tempo porque ainda havia muita gente para atender.

Na manhã seguinte levantei-me cedíssimo e fiz o impensável. Fui a um daqueles grupos fechados do Facebook, onde só entram grávidas e mães, e pedi referências de obstetras naquele hospital. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Recebi imenso feedback e dois dias depois tinha encontrado o meu médico. Uma pessoa super calma e paciente, que transmite imensa tranquilidade, que quando está connosco está connosco, não nos está a querer despachar, que explica tudo muito bem explicadinho, que dá logo os contactos na primeira consulta e, a cereja no topo do bolo, faz ecografias em todas as consultas. Era mesmo aquilo que eu queria. Saí do consultório com a certeza de que tinha encontrado a minha alma gémea médica e senti um peso sair-me de cima instantaneamente. Antes da consulta estava um bocadinho nervosa porque não sabia se havia algum protocolo a seguir nestas coisas, se os médicos preferiam não seguir pacientes de outros colegas do mesmo hospital, e continuo sem saber, mas fui muitíssimo bem recebida, expliquei-lhe porque é que estava ali, falei-lhe assim por alto das incompatibilidades que tive com o outro médico e ele simplesmente acolheu-me e tratou-me como se sempre tivesse sido paciente dele.


Isto tudo para dizer o quê? Esta fase da nossa vida é tão especial que eu acho que temos o direito de ser seguidas por alguém também especial, compatível connosco. É a minha profunda convicção. Encontrar o médico certo é quase tão importante e difícil como escolher um marido. Se não tivesse mudado de médico ainda hoje quando fosse às consultas em vez de ir entusiasmada, como vou agora, iria angustiada. E ninguém merece isso. Conheço grávidas para quem isto é secundário mas para mim é essencial ser acompanhada por alguém em quem eu confie e que me transmita segurança. É a diferença entre entrar num consultório esmagada com alguma preocupação que me esteja a consumir e sair igual ou leve como uma pena. Acreditem, chega a ser terapêutico. 

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