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zona de desconforto.

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01
Jul15

A nova lei do álcool

Entra hoje em vigor a nova lei do álcool, o que significa que os menores de 18 anos estão proibidos de consumir bebidas alcoólicas em espaços públicos. Tenho uma opinião pouco popular em relação a esta lei porque, ao contrário da grande maioria das pessoas, concordo com ela. Acho que o álcool não faz falta a ninguém e que não é nenhum drama esperar até aos 18 anos para se poder beber uma cerveja. Mas onde me quero focar hoje não é na lei per se mas nas reacções que ela provocou. De repente toda a gente se insurgiu contra a nova lei do álcool com tamanho histerismo que parecia que se lhes estava a tirar um bem essencial. E o mais curioso é que grande parte destas reacções não partiram dos tais jovens que a partir de hoje não podem beber uma cerveja – bummer… - mas de adultos, provavelmente pais de miúdos com 15, 16, 17 anos. Que é ridículo, que isto não lembra a ninguém, que era só o que faltava, que é uma injustiça. Mas agora fiquei confusa... estão-lhes a negar o acesso a um copo de whisky ou a um copo de água? É que se for a segunda hipótese acho bem que fiquemos todos assim indignados. Um copo de água não se nega a ninguém! Ah, mas esperem… estamos mesmo a falar de whisky, cerveja, vodka e afins não é? Pois. Então para quê tanto histerismo? Ninguém lhes está a negar bebidas espirituosas para o resto da vida. É só até aos 18, calma. Acham que conseguem aguentar a pressão? Acho impressionante que uma alteração deste género cause tanta celeuma, mas notícias como aquela dos estudantes mortos no Quénia passe em branco e ninguém levante sequer um dedo para se insurgir com isso. Foram duas notícias que vieram a público no mesmo mês, em Abril, e a discrepância de reacções, ou a ausência delas no segundo caso, dá cabo de mim. Se calhar estamos a ficar histéricos com coisas erradas, não?
O que também me mata são os argumentos usados para provar o quão ridícula é esta lei. O mais recorrente é o argumento do casamento: “Se aos 16 anos uma pessoa se pode, por lei, casar, porque é que não há-de poder beber uma cerveja?”. Ora vamos lá ver uma coisa. Sim, ok, a lei diz que aos 16 anos já nos podemos casar. Mas a questão é: será que nos devemos casar aos 16 anos? Hum? Acham que é uma decisão prudente? Acham que é uma coisa que vai correr bem, quando pensam nela assim a longo prazo? Se a vossa filha chegar a casa hoje à noite com um anel pechisbeque no dedo a anunciar aos sete ventos que se vai casar com o Rodrigo do 11.ºE o que é que fazem? Dão-lhe os parabéns e começam a tratar dos convites? Ou passam-se da marmita e põem-na de castigo até fazer 18 anos? Se realmente quiserem discutir o assunto como pessoas adultas podem pegar em argumentos sérios como, por exemplo, esta lei poder levar os jovens a beber em casa e a saírem já bêbados por saberem que se lhes vai ser negado álcool no bar ou na discoteca para onde vão. Isto, a acontecer, é, de facto, um problema. Provavelmente deveria haver uma maior sensibilização dos encarregados de educação para se prevenir este tipo de comportamentos. Já se sabe que os miúdos são muito sensíveis ao peer pressure, que “se vai toda a gente para casa do Manel beber jolas antes de irem para o Urban então eu também vou para não ser gozado pelos outros”. Estas parvoíces fazem parte da idade mas cabe, também, aos pais ajudarem a construir a confiança dos adolescentes imberbes que têm em casa em vez de se demitirem dessa função. Se acham que o assunto é sério e deve ser discutido discutam-no, também, com seriedade. O argumento de se poder casar aos 16 é, no mínimo, ridículo. Contam-se pelos dedos de uma mão, e se calhar nem isso, as pessoas que dizem o sim com essa idade. Às vezes nem com 30, quanto mais com 16. Para além disso, tenho sérias duvidas que se essa lei também fosse alterada para "casamento só depois dos 18", que as mesmas pessoas que a usam como argumento para defender a lei do álcool se indignassem com isso.
Mas também podemos fazer o exercício contrário. Por exemplo, o poder de voto, um dos mais importantes direitos, e deveres, que temos enquanto cidadãos numa sociedade democrática. A lei diz que só se pode votar a partir dos 18 anos. Porquê? Porque, provavelmente, já temos uma maturidade diferente e uma capacidade de decisão maior e mais afinada do quando tínhamos 15 ou 16 anos. Nessas idades a nossa maturidade e personalidade ainda estão em formação. É provável que um jovem com 18 anos se sinta mais seguro de si para não se deixar levar pela vida loca do Bairro Alto e ficar estendido no chão a um canto a vomitar, do que um com 16. Há excepções claro, não nos tornamos pessoas altamente iluminadas aos 18. Na verdade, se analisarmos bem a coisa, continuamos tão estúpidos como quando tínhamos 17, mas acho que as leis devem ser coerentes. Se aos 18 é a idade em que se atribui a responsabilidade de, em conjunto com os restantes cidadãos, ajudar a decidir o futuro de um país, então também deve ser nessa idade que se lhes deve ser dada a responsabilidade de poderem beber álcool, se assim o entenderem. É claro que a lei tem falhas e que, provavelmente, não vai ser possível aplicá-la como deve ser mas isso não deve ser motivo de chacota por parte das pessoas que não concordam com ela. O que, para mim, é motivo de chacota é ver tanta indignação por uma coisa que, a meu ver, não é assim tão fracturante. Há tanta coisa a acontecer à nossa volta com que nos devemos indignar e escolhemos direccionar a nossa frustração para uma lei que proíbe jovens com 16 de beber álcool. A sério? Queremos mesmo ser essas pessoas? Pessoas a morrer em África? Who cares?! Vamos mas é protestar muito e ruidosamente contra o facto dos nossos adolescentes não se poderem embebedar no Lux.

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