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zona de desconforto.

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17
Jun16

Carta aberta aos professores dos ginásios

Aula de Localizada. Professor com cara de poucos amigos e com braços que pareciam o tronco de uma árvore. Entramos na sala para começar. Ele berra o material que vamos usar. “Barra, step e colchão. Dois discos de 10kg para homens e 5kg para mulheres. Mínimo.” Fui buscar as coisas e trouxe comigo dois discos 2.50kg que é o que consigo levantar com algum esforço mas sem sentir que me estou a lesionar toda. Ele olha para mim e berra: “5kg! 5kg! 5kg!” Fulminei-o com o olhar: “Não consigo levantar 5kg.” “Tem de ser mais peso. Mais peso!” Meti o rabinho entre as pernas e fui buscar dois discos de 1.25kg só para lhe fazer a vontade e a achar que pôr aquilo ou fazer só com 2.50kg era igual. Não era. E senti logo isso quando quis levantar a barra. “Vamos fazer vários exercícios. Quatro séries de dez cada. No final da aula, tudo somado, tem de dar mil.” Ele disse mesmo isto. Mil repetições em 50 minutos de aula que, em tradução livre, é mais ou menos isto: vamos fazer quatro séries de dez repetições o mais depressa que conseguirmos. Que se lixe a técnica. Temos é de chegar ao fim com mil repetições feitas.

Primeiro exercício: barra atrás do pescoço e toca a agachar. Afinal agachar com 2.50kg de cada lado ou com 3.75kg ainda faz diferença. Fazia um agachamento por cada dois dele, que olhou furioso para mim, como se fosse a vergonha da turma, e gritou: “Mais rápida! Mais rápida!” E eu com uma vontadinha de mandar a barra ao chão e gritar de volta: “Mais rápida o quê c$%#%&o! Ou ponho mais peso ou sou rápida a agachar! As duas coisas é que não pode ser!” Uns quinze minutos depois, já a fazer um esforço horrível, comecei a lembrar-me de todo o dinheiro que já gastei para diagnosticar e tratar lesões feitas no ginásio: ressonância magnética, Raio X, ecografias, fisioterapia, dois meses sem conseguir treinar… “Fuck this shit”. Pousei a barra, tirei os discos mais leves e continuei com os de 2.50kg que devia ter usado desde o início.
Vamos lá ver aqui uma coisa muito simples: vocês, professores de ginásio que muitas vezes encaram as aulas como se fosse um treino vosso – não são!!!! Parem com isso! – têm de meter na cabeça que os alunos não têm todos a mesma condição física, nem têm todos os mesmos objectivos! Nem é suposto! Acham que conseguem entender isto e deixarem de ser umas pequenas bestas? Acham que é uma coisa com a qual podem viver? Eu só quero ser mais saudável, baixar os níveis de colesterol, e ter um corpo moderadamente fit. Sem pernas e braços a abanar, qual gelatina. É só isto. Não bebo batidos de proteína, nem como ovos nem bananas antes do treino, não ando a contar os dias até conseguir levantar mais peso que a colega do lado e a minha vida não gira à volta das gramas de hidratos e proteína que tenho de comer em cada refeição. Respeito quem viva assim, nada contra, mas essa não é a minha cena. Já é óptimo eu ir às vossas aulas, certo? Mostra empenho, resiliência, capacidade de superação e essas coisas todas muito boas de que a malta do ginásio gosta muito de falar. Para quê humilhar as pessoas fracas de braços? Ou que não podem saltar? Ou que têm problemas de costas? Ou de joelhos? Para quê?! Ficariam mais felizes se conseguissem levar toda a gente ao limite das forças e na semana seguinte não terem ninguém na aula porque ainda está tudo a recuperar a mobilidade perdida? É mais divertido assim? Ou será que é melhor e mais natural as pessoas evoluírem ao ritmo delas? Eu aposto mais na segunda hipótese. Vamos tentar a segunda hipótese? Só durante uns tempos, para ver como corre? Sim? Então está bem.

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