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zona de desconforto.

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25
Dez17

It's a girl!

Quando era criança e fingia ser mãe de um boneco o boneco era sempre rapaz. Quando brincava às Barbies os filhos delas eram sempre rapazes. Quando deixei a bonecada e comecei a idealizar a minha própria família, a que viria a construir um dia, imaginava-me mãe de um, ou mais, rapazes. Por alguma razão autodeclarei-me mãe de rapazes desde muito cedo. Entretanto engravidei e a vida presenteou-me com uma menina!
Queria muito poder contar-lhe, um dia, que quando soube da notícia fiquei radiante e que comecei logo a imaginar todos os vestidos fofinhos que lhe iria vestir, os penteados que a ia ensinar a fazer, as grandes tardes de compras na Zara, só as duas, ou de como iria ser divertido ensiná-la a maquilhar-se. Mas não lhe vou poder contar nada disto porque quando o médico disse “É uma menina” a primeira coisa que me saiu foi “Meu Deus, vou ter de fazer terapia”.

 

Durante anos não pensava no porquê de me imaginar mãe de meninos, mas o tempo foi passando, eu fui crescendo e tendo as minhas próprias experiências enquanto menina e, depois, mulher, e a tomar uma maior consciência do mundo onde vivemos e essa tendência para preferir os meninos tornou-se clara: educar um menino devia ser mais simples que educar uma menina, porque o mundo onde vivemos ainda é aquele em que um menino apalpar uma uma menina na escola provoca risinhos às educadoras e vigilantes e não é visto como um gesto que mereça ser repreendido porque, afinal, são só crianças e aquilo não significa nada. Não lhes ocorre que, se calhar, para o menino, aquilo não significa mesmo nada mas para a menina, que estava no recreio despreocupada, aquilo lhe causa vergonha e desconforto e é uma situação difícil de processar porque, lá está, é uma criança e é inocente e não percebe porque é que aquilo a fez sentir tão mal quando toda a gente à volta dela, adultos incluídos, agem como se fosse apenas uma gracinha. O mundo onde vivemos ainda é aquele em que uma mulher bonita, ou que se gosta de arranjar, tem de trabalhar o triplo para provar que tem outros interesses para além do verniz com que pinta as unhas, ainda é aquele em que as mulheres ganham menos que os homens, em que uma mulher que consegue alcançar um cargo de chefia é porque teve de dormir com alguém, onde o valor de uma mulher continua a ser medido pelo tamanho da saia ou do decote, onde o sentimento de insegurança nos persegue nas situações mais simples, seja a andar na rua de vestido no verão ou a atravessar um parque de estacionamento deserto no inverno, onde passar por um homem na rua significa, metade das vezes, ouvir um comentário indesejado que nos faz sentir envergonhadas e sujas e nos faz estar alerta as outras 50% das vezes em que nada acontece... perante tudo isto, era evidente, para mim, que educar um rapaz envolveria menos preocupações que educar uma rapariga.
Educar um rapaz não significa passar-lhe valores ou ideias que, muitas vezes, são pouco coerentes. Deves sentir-te à vontade para vestires o que quiseres, mas quando saíres de calções evita ruas pouco movimentadas. Isto nunca acontece com um rapaz. Mas uma rapariga, nesse dia, provavelmente já sairá de casa com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vai sentir sobre ela olhares demorados e ouvir coisas que não quer e terá de tomar a decisão de, ainda assim, sair como entender ou voltar atrás para vestir qualquer coisa “mais compostinha”. E é aqui que reside a problemática de educar uma menina. Quero que ela se sinta livre e confiante para expressar a sua individualidade como entender mas também a quero preparar para a triste realidade de que uma mulher ainda é vista por alguns como uma presa e um ser menor. Quero dar-lhe ferramentas para lidar com os constrangimentos de se ser menina mas sem ela se sentir esmagada pela simples ideia de eles existirem. Quero fazê-la sentir-se dona do seu próprio corpo quando, ao mesmo tempo, ela vai acabar por perceber que existem pessoas que acham que uma mini-saia ou um decote são um convite para a invasão do nosso espaço pessoal. Quero educar uma menina segura, confiante e assertiva, com a noção do mundo onde vive e com capacidade de o encarar de frente. Sem medos.

 

Quando soube que íamos ter uma menina fiz um sorriso nervoso e disse “Meu Deus, vou ter de fazer terapia” e logo a seguir, ainda durante a ecografia, senti-a mexer-se pela primeira vez. Nem quis acreditar! Talvez tenha ficado ofendida com a minha exclamação. Ou talvez tenha sido uma biqueirada intencional como quem diz “Vai correr tudo bem”. Ok, podem ser demasiadas palavras para uma criança com 17 semanas ainda no útero mas, de certeza, que ela já é para lá de esperta e que aquela vibração que senti do lado esquerdo da barriga era ela a dizer-me para não me preocupar e aproveitar o tempo que ainda nos falta para ir à Zara e organizar-lhe um guarda-roupa como deve ser, que não há nada pior que ir ao pediatra de babygrow para levar vacinas. Está bem que vamos chorar muito e fazer uma grande birra como se o mundo estivesse a acabar mas, convenhamos, não somos uns pelintras, há que fazê-lo em bom.
It's a girl!

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