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zona de desconforto.

zona de desconforto.

22
Jan18

O 2.º trimestre

E eis que, num piscar de olhos, entrámos na reta final: o terceiro trimestre!
O primeiro resumiu-se a todo um enorme desconforto generalizado que parecia não ter fim e, por isso, foi como se tivesse demorado um ano. Os enjoos, o não saber o que comer, o calor que não consegui suportar naquele verão, a fraqueza... o não estar confortável de maneira nenhuma, basicamente. Depois, no segundo, os desconfortos desapareceram quase todos - quase... - e voltei a sentir-me eu novamente. Esse bem-estar, essa leveza, fez com que o tempo passasse a voar. É uma fase muito bonita de descobertas e, também, a mais dispendiosa até agora. Tudo começou a parecer mais real, a barriga deu um pulo, comecei a sentir e a ver a bebé mexer-se dentro da barriga, começaram as conversas sobre os nomes, tive vontade e energia para preparar o enxoval da criança, para pensar nos pormenores do quarto... é, sem dúvida, a fase de encantamento da gravidez. 

 

O menos bom, porque não posso dizer que tenha havido algo verdadeiramente mau

 

Contrações Braxton Hicks. Sabem aquele episódio dos Friends em que a Rachel começa a sentir umas pontadas na barriga e vai de urgência para o hospital com o Joey e quando o Ross lá chega e percebe que eram só contrações de Braxton Hicks fica aliviado e ainda remata com "a maioria das mulheres nem as sente"? Sabem? Pronto esta era a única referência que eu tinha das contrações de Braxton Hicks: ou eram uma coisa muito dolorosa que nos levava em pânico para o hospital, ou era uma algo tão levezinho que uma pessoa nem as sentia. Por aqui já começaram e não é nem uma coisa nem outra. O que se sente, ou o que eu sinto, vá, é a barriga a ficar pesada e rija de repente, tipo pedra, por baixo do umbigo. Não dói, causa apenas desconforto, e dura alguns segundos. É frequente quando estou em pé ou a andar, mas também acontece quando estou sentada. Por indicação do médico de família comecei a usar uma cinta de gravidez e parece que as contrações são menos frequentes. Quer dizer, não sei se são menos frequentes ou se sou eu que não as sinto tanto por ter a barriga apoiada. De qualquer forma, diminui o desconforto. 

 

Sistema imunitário assim ao nível do chão. No quinto mês foi-me diagnosticada uma faringite que me obrigou a tomar antibiótico. Estive três semanas a evitar ir ao médico e a valer-me das mezinhas caseiras mas no dia em que acordei afónica e com dores horríveis na garganta rendi-me às evidências e lá fui às urgências. Apesar de o meu obstetra me ter garantido que podia tomar o antibiótico que me tinham receitado, que era o único seguro na gravidez, tomei todos os comprimidos, durante os cinco dias de tratamento, muito contrariada e com um aperto no coração. Mas a verdade é que ao fim de uma semana estava boa.

 

Azia e refluxo. Tenho uma hérnia do hiato diagnosticada, por isso as dores de estômago violentas não me são estranhas, mas desde há uns dois anos, quando mudei a minha alimentação e comecei a comer da forma mais natural que consigo - com alguns disparates pelo meio porque, quem nunca? - sem alimentos processados e açucares adicionados, que já não tenho nada que se compare àquelas crises de ficar de cama durante dias. Porém, no final do segundo trimestre os desconfortos gástricos voltaram a dar um ar de sua graça. Tive uns episódios muito levezinhos de azia mas o que me incomodou verdadeiramente foi o refluxo. Cheguei ao ponto de jantar pelas 21h, ir deitar-me perto da 1h da manhã e às 2h acordar com um aperto na garganta e uma sensação de enfartamento como se tivesse acabado de comer um cozido. Tenho de me sentar na cama muito direitinha durante uns bons minutos até me passar. Não é nada do outro mundo, podia ser muito pior, mas como isto só me dá à noite é chato porque não consigo dormir como deve ser. O que vale é que, por enquanto, é pouco frequente.

 

Sono. No post do primeiro trimestre contei que todo aquele sono incrível que as mulheres dizem sentir me passou ao lado. Pois que agora, já no final do segundo, ele chegou em força. Na maior parte dos dias foi um martírio manter-me acordada durante a tarde e não raras as vezes precisei fazer uma sestinha de 20 ou 30 minutos ao final do dia. Os fins de semana são absolutamente gloriosos porque posso dar-me ao luxo de descansar depois de almoço, que é tudo o que me apetece fazer durante a semana. 

 

Fraqueza. A falta de energia que senti durante todo o primeiro trimestre continuou no segundo mas com menos frequência e intensidade. Ainda não consegui perceber se são quebras de tensão, quebras de açúcar no sangue ou o centro de gravidade do corpo alterado que provoca estes salamaleques. Cheguei a estar na Kiko do Chiado a conversar com uma das raparigas da loja sobre vernizes e de repente comecei a perder as forças, deixei de ouvir, deixei de ver a pessoa que tinha à frente e só tive tempo de pedir para me sentar e me atirar para a cadeira mais próxima. É o sintoma mais debilitante que tenho tido ao longo de toda a gravidez ao ponto de evitar ir a lojas ou a supermercados em horas do dia críticas, tipo final do dia durante a semana, porque já sei que as caixas vão estar com filas enormes para pagar e eu nem sempre me sinto à vontade para passar à frente das pessoas, especialmente se não houver caixas prioritárias, como acontece no Continente, por exemplo, ou em praticamente todas as lojas de roupa em que obrigam uma pessoa a mendigar para ser atendida mais depressa. Sei que é estúpido, que é um direito que eu tenho, mas também sei que as pessoas conseguem ser muito mazinhas e inconvenientes e às vezes não estou, simplesmente, para me chatear. 

 

O melhor

 

Olá senhora barriga! Se no primeiro trimestre andava tipo Calimero por não se notar a barriga, no segundo ela começou a dar um ar de sua graça. No quarto mês já se começou a notar uma bolinha redondinha para lá de gira, no início do quinto deu um pulo simpático e ao sexto já ninguém tinha dúvidas de que estava um bebé a caminho. Como não sou de usar roupas justas ainda hoje há quem diga que "não se nota muito"... podemos sempre contar com as pessoas e os seus comentários blazé em relação ao corpo de uma mulher grávida, não é mesmo? Mas já não me incomoda tanto. Continuo sem saber o que responder, porque continuo a achar que esse tipo de abordagem é estúpida, mas já não fico melindrada. Em casa, quando estou de pijama, é quando, efetivamente, se nota bem. Pareço um bêbado gordinho, a andar à pato e com a barriga a querer aparecer por baixo da camisola. Adoro!
Apesar de já ser evidente ainda sou apanhada de surpresa quando reparam que estou grávida. Primeiro foi a senhora da Nespresso, logo no início do quarto mês. "Desculpe, mas está grávida não está?" e deu-me senha prioritária. Fiquei tão emocionada com aquilo que só não a abracei porque tenho noção dos limites e do espaço pessoal dos outros. Depois foi uma vizinha, depois a rapariga que me faz as sobrancelhas na Wink, depois a menina da caixa da H&M, depois a senhora da mercearia, depois a menina da Padaria Portuguesa que me chamou para a frente da fila quando eu ainda estava a decidir se queria um pão de Deus ou um croissant de chocolate, ou os dois, depois um funcionário do IKEA... já devia ser banal mas continua a ser uma coisa que me apanha de surpresa e me deixa estupidamente feliz. 

 

It's a girl! Às 17 semanas soubemos que íamos ter uma menina e já falei aqui dos sentimentos ambivalentes que tive e que entretanto me passaram. Agora adoro ver vestidinhos e blusinhas e imaginá-la lá dentro a espernear. Foi depois de sabermos que era uma menina que começámos a comprar-lhe as primeiras roupas, até li nem me apetecia andar a ver roupa de bebé. Não queria estar a gastar dinheiro em bodies e babygrows brancos ou cinza quando havia coisas tão giras de rapaz e rapariga logo ali ao lado. Principalmente de rapaz, que a grande parte das lojas tem uma capacidade enorme de transformar roupa de rapariga numa piroseira que não se aguenta. Só cor de rosa, tules, brilhantes e bonecada. Nhéc. Uma pessoa quer um vestido, um macacão ou uma t-shirt mais minimal e clássica, de cor neutra, e não encontra quase nada no meio de tantos frufrus. Mas enfim, com alguma paciência lá conseguimos desencantar umas pecinhas janotas e fazer uns conjuntinhos todos giros. 
Foi também depois de sabermos o sexo da criança que começámos a pensar na decoração do quarto. Algo perfeitamente dispensável, tendo em conta que nos primeiros tempos ela vai ficar no nosso quarto e não vai usufruir nada daquele espaço todo mimoso, mas, caramba, que pais é que conseguem resistir à tentação de montar o quarto da pequena cria que aí vem? Tal como na roupa queremos fugir o mais possível ao cor de rosa e à bonecada. O quarto dela tem de se enquadrar na linguagem que temos no resto da casa, onde é tudo muito minimal, em tons de branco e cinza com apontamentos de cor na decoração. Não queria nada ter uma divisão temática cá em casa, acho que não faz sentido nenhum. Portanto a base será o branco e o cinza com apontamentos de rosa velho, amarelo torrado/dourado e verde escuro na decoração. Acho que vai ficar muito giro. Se ela depois, mais tarde, quiser estragar tudo com autocolantes e pósteres de uma qualquer cantora espanhola pirosona que esteja em voga na altura... bom, logo vemos.

 

O primeiro pontapé. Foi também às 17 semanas que a senti mexer-se pela primeira vez, segundos depois de termos descoberto que era uma menina, ainda durante a ecografia. Estava a dizer ao médico que nunca a tinha sentido e quando é que ele achava que isso podia acontecer e de repente brrrrrrrrrrrrrrrrr do lado esquerdo da barriga. Foi incrível. Ao início os movimentos são muito ténues e espaçados, depois desta primeira vez estive dois ou três dias sem sentir nada, mas há medida que o tempo vai passando vão sendo mais intensos e regulares ao ponto de conseguirmos sentir os movimentos com as nossas mãos e de os vermos na barriga. Esta é, sem dúvida, a parte mais gira porque agora o pai pode, finalmente, ter uma pequena noção do que nós sentimos. Pode ver a barriga a mexer, pode pôr a mão e sentir os movimentos. Até ali são meros expectadores. Expectadores dos enjoos, dos desconfortos, dos medos, das nossas ansiedades, da nossa adorável irritabilidade, dos primeiros movimentos do bebé. Mas agora podem efetivamente sentir qualquer coisa.
Durante muito tempo só a conseguia sentir se estivesse sentada, mas agora já dou por ela mesmo quando estou em pé. Não é com tanta intensidade, mas sinto. E qual é a sensação de sentir o bebé a mexer? Estão a ver o que sentem quando estão com gases? O ar a passar pelo intestino? É muito semelhante mas sem a libertação de gás no final. Lamento não conseguir descrever isto de uma maneira mais romântica mas é o que é.

 

Peso. Engordei 6 quilos e pouco em 6 meses e os dois pares de calças que comprei no início da gravidez ainda me servem. Yei! Sei que 1kg por mês, mais coisa menos coisa, é uma boa média mas já cheguei àquela fase em que não reconheço os números que vejo na balança e isso é estranho. A enfermeira do centro de saúde elogiou-me por só tenho ganho 300 ou 400 gr em dezembro, após o Natal e Ano Novo, mas avisou-me logo que no terceiro trimestre o aumento de peso poderia ser galopante porque é quando os bebés começam, finalmente, a ganhar gordura e podem engordar cerca de 1kg por mês o que vai, evidentemente, refletir-se na balança e no tamanho da barriga. Por isso é muito importante ser regrada e fazer uma alimentação saudável na reta final da gravidez para isto não descambar e não chegar ao fim em modo hipopótama. Já meti na cabeça que tenho de voltar à dieta low carb, que os enjoos do primeiro trimestre já passaram há muito e já não há razões para não comer legumes a TODAS as refeições - menos grelos. Grelos salteados continuo a não conseguir suportar.

 

Mitos urbanos, ou aqueles sintomas clássicos que me continuam a passar ao lado

 

Desejos. A única coisa que se pode ter aproximado de um desejo foi ali um espaço de duas semaninhas em que me apetecia imenso comer tomate às refeições. E comi! A todas as refeições. Mas depois passou-me e voltei ao normal. O desejo de comer doces sempre foi uma constante na minha vida, não posso culpar a gravidez por isso, mas houve coisas doces que não comia há anos e que agora me tem apetecido muito. A saber: Chocapic com leite quentinho e Cerelac com grumos. Tem de ser com grumos, sem grumos não tem piada nenhuma! Mas como deixei de beber leite há uns cinco anos tenho conseguido resistir-lhes estoicamente. Chocapic ou Cerelac feitos com bebida de aveia não devem prestar para nada - e nem me venham falar em fazer Cerelac com água! Ninguém aguenta essa mixórdia - por isso mais vale manter esses sabores da minha infância intocáveis na minha memória e não me pôr a inventar. 

 

Estrias. Ainda não vi nenhuma. Às vezes sinto umas comichões na barriga, de lado, mas esse foi o único sinal que a pele me deu de estar a esticar. Continuo a besuntar-me com Barral óleo de amêndoas doces à noite - barriga, ancas, coxas e peito, uma canseira - e de manhã vou variando entre o Nivea soft e umas amostras do Valestisa da Isdin e do Phytolastil da Lierac que volta e meia me dão na farmácia.

 

Bexiga do tamanho de uma ervilha. Grávida que se preze levanta-se quatro a cinco vezes por noite para fazer xixi porque no lugar da bexiga tem agora algo muito semelhante a um bago de arroz. Por aqui, se me levantar uma vez por semana a meio da noite para ir à casa de banho é muito. Mas se for preciso acordo umas três vezes para me virar na cama! Lá está mais uma coisa gira que descobri acontecer na gravidez. De repente virarmo-nos da esquerda para a direita deixa de ser algo tão natural como a sua sede porque, de facto, mudar de posição é todo um tratado, uma pessoa tem mesmo de estar acordada e concentrada naquilo que está a fazer. E as dores que isto dá? Parece que acabámos de fazer uma aula demoníaca de abdominais no ginásio só que não, estivemos apenas a dormir e só nos queremos virar para o outro lado.

 

Calor. Quando percebi que ia ser uma grávida de inverno desejei secretamente sofrer dos famosos afrontamentos de que tantas grávidas se queixam para, pelo menos uma vez na vida, conseguir andar na rua no inverno sem estar incrivelmente desconfortável independentemente das camadas de roupa que tivesse vestidas. No entanto, até agora, tudo se mantém igual. Saio de casa com um top, uma camisola de algodão, uma camisola de malha, casaco, cachecol e, às vezes, gorro, e continuo cheia de frio. Ainda assim reconheço uma pequenina alteração no meu termostato interno: às vezes, em sítios fechados, sou assaltada por uns calores infernais e só me apetece andar de t-shirt. Já me aconteceu várias vezes no trabalho e em restaurantes. Só na rua é que não me dá nada disto. 

 

Pele e cabelo. Continuo à espera da pele luminosa e do cabelo cheio de volume de que tantas grávidas se gabam mas parece que não vou ter essa sorte. No segundo trimestre notei uma melhoria muito ligeira na pele, na medida em que em vez de me aparecerem cinco borbulhas de uma vez aparecem só duas, e o cabelo continua fino como sempre o conheci toda a vida. Por outro lado a famosa linha nigra à qual pensei que me ia escapar triunfantemente começou a surgir muito tenuemente por baixo do umbigo. Mas até lhe tenho algum carinho, acho-lhe graça. 

 

Posto isto: terceiro e último trimestre sê muito bem-vindo.

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