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zona de desconforto.

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16
Jan17

Os 5 estágios da procura de casa

Eu e o meu homem terminámos 2016 em demanda pela casa perfeita em Lisboa. Objetivo: comprar. Começámos otimistas, afinal quão difícil podia ser encontrar casa?, mas rapidamente percebemos que este é um caminho sinuoso, cheio de altos e baixos, e que são mais as desilusões que as agradáveis surpresas. Aliás, das primeiras tivemos muitas, mas das segundas, até agora, zero. Espetáculo! Percebemos também que procurar casa para comprar é frustrante e faz com que até a mais calma e otimista das pessoas passe pelos 5 estágios da perda, mas aplicado ao mercado imobiliário.

 

Negação

 

Depois de falarmos com duas ou três pessoas que também tinham estado, ou estavam naquele momento, à procura de casa e de ouvirmos atentamente as suas histórias de terror, trocámos olhares cúmplices como que a dizer “Humpf, isto não pode ser assim tão difícil. De certeza que eles estão a procurar nos sítios errados.” E foi com este espírito otimista que começamos as nossas buscas nesse baluarte do mercado imobiliário que é o Imovirtual. Usámos todos os filtros disponíveis para só nos aparecerem as coisas que pretendíamos e, curiosamente, o que nos apareceu foi mau! Casas caras, casas pequeníssimas, prédios sem elevador e casas a precisar de “pequenas obras” mas que as fotografias deixavam antever looooooongos meses e rios de dinheiro gastos em pôr a casa de pé novamente. “De certeza que o Imovirtual não tem tudo. As agências imobiliárias devem ter coisas muito mais interessantes e exclusivas.” Right?!

 

Raiva

 

Ao fim de dois dias não só já conhecíamos de cor TODAS as casas que estavam no mercado como começámos a perceber que era indiferente consultar uma panóplia tão grande de motores de busca porque, basicamente, tinham TODOS a mesma coisa. Imovirtual, Casa Sapo, Remax, Era, OLX, têm todos praticamente as mesmas casas… e quando começamos à procura de coisas no OLX sabemos que batemos no fundo.
Outro pormenor muito giro que nos começou a dar cabo dos nervos foi essa epidemia do mercado imobiliário que são as “fotos modelo”. Adoramos. Encontramos uma fotografia catita, abrimos o link, vemos o resto das fotografias, “Uau, que giro. Tudo remodelado e branquinho” lemos a descrição, que até agrada, começamos a ficar entusiasmados mas depois chegamos ao fim e pimba, aviso: “fotos modelo”, que só piora quando se segue do convite “venha conhecer!” Portanto, tudo o que eu tinha visto até ali e que tinha gostado não passava de uma miragem porque, na verdade, aquelas fotografias são de uma casa que não era aquela. Mas nós até damos o benefício da dúvida e lá vamos, só para encontrar apartamentos minúsculos, cheios de pó e sem encanto. E isso leva-nos a outro ponto deprimente: as casas são todas iguais, sem personalidade nenhuma.
Aparentemente o que está a dar em Lisboa são as remodelações "chapa cinco". Já as conheço de cor: cozinhas com bancada “em Silestone cinza”, "pavimento flutuante cor de carvalho", que faz aquele barulho oco super irritante mas extremamente útil para perceber a fraca qualidade da coisa e que dali a 5 anos, máximo, aquilo vai começar tudo a levantar e vai ter de ser substituído, "pré instalação de ar condicionado", janelas “oscilo-batentes lacadas a branco”, vidros duplos com um isolamento acústico para cima de espetacular, não se ouve nada tirando o comboio do outro lado da rua que parece mesmo que está a passar dentro de casa mas que tirando isso é um sossego, e "porta de alta segurança", whatever that means mas que agora também é super tendência nisto das casas. Podemos ver 5 apartamentos num dia que parece que vimos só um. Mais metro quadrado, menos metro quadrado acaba por ser tudo igual, estandardizado, estéril.

 

Negociação

 

Meia-dúzia de visitas depois percebemos que vamos ter de fazer cedências - gente pobre é assim, não pode ficar feliz muito tempo - e já estamos por tudo. Queremos um T2 com áreas decentes e boa exposição solar. Quando damos por nós estamos numa casa de 90m2 - o que em Lisboa é um palácio! - com um logradouro que, como é lógico, fica num rés do chão.
Rés do chão está fora de questão, que as pessoas lá fora passam mesmo ali ao lado da janela do quarto e isso é estranho. "Pronto, então até podemos ter uma casa um bocadinho mais pequena, desde que seja num andar intermédio". Damos por nós numa casa de 68m2 - !! -, num 2.º andar mas as janelas da cozinha e da sala ficam viradas para um muro.
"Sejamos realistas, precisamos mesmo de uma casa maior, 68m2 é minúsculo, e também gostávamos de ter uma vista. Se for preciso aumentamos um bocadinho mais o orçamento". Dias depois entramos numa casa ligeiramente maior, num 3.º andar com "magníficas vistas para Monsanto", 20 mil euros mais cara mas... sem elevador. E as "magníficas vistas para Monsanto" resumiam-se a umas tímidas copas de quatro árvores que ficavam em terceiro plano, depois da estação da CP e de uns cabos elétricos. É o que dá responder a anúncios com "fotos modelo".

 

Depressão

 

E com isto tudo passam-se meses, só que não, na verdade passaram apenas duas semanas só que isto de andar em busca de casa é tão cansativo que um dia parecem dois e duas semanas rapidamente se transformam em meses, e damos por nós a desistir do sonho de continuar a morar em Lisboa, numa casa com áreas decentes, com quartos onde se possa pôr uma cama, só uma cama, perto do metro e segura, onde uma pessoa possa andar a pé depois das 21h sem ter medo de ser cortada às postas ali ao virar da esquina. Em menos de nada começamos a ver casas lindas e enormes que ficam para trás do sol posto e a ponderar se demorar 1h40m para chegar ao trabalho será assim tão mau. Houve um dia particularmente péssimo em que chegamos a ponderar ir ver uma casa enorme... a Cacilhas. Cacilhas!!!! Dez minutos depois caímos em nós e pusemos essa brilhante ideia de parte. Ainda bem, porque era péssima. A ideia, não a casa.

 

Aceitação

 

Ontem abri o meu email e tinha a resposta de uma imobiliária para onde tinha enviado um pedido de visita a um apartamento que já nem me lembrava qual era mas que "infelizmente, já se encontrava vendido". Ainda assim a agente, muito simpática e pro-ativa, enviou-me uma lista de 5 imóveis que ela acreditava irem "de encontro" ao que pretendíamos. Um deles dizia o seguinte, ora atentem que isto é tão bom que, lido em voz alta, até faz festinhas no lóbulo da orelha:

 

T3,

 

"Uau! T3! Tantos quartos!"

 

completamente remodelado, a estrear.

 

"Ótimo, não precisa de obras!"

 

Perto do metro de Sete Rios.

 

"Bingo! Linha azul. A melhor linha, logo ali à porta de casa. Tu queres ver que é desta?!"

 

O apartamento é uma cave,

 

"... ... ... ..."

 

no entanto, não há qualquer divisão interior,

 

"... ... ..."

 

há divisões que dão para o logradouro e outras que dão para o passeio com aproximadamente 1 metro de altura.

 

"..."

 

Preço: 229 mil euros. 

 

Foi depois de ler esta deliciosa peça de literatura ficcional que percebi que tinha chegado ao quinto estágio: a aceitação. E como é que percebi isto? Porque quando cheguei ao fim em vez de desesperar e não ver a luz ao fundo do túnel desatei-me a rir. Duzentos e vinte e nove mil euros?! Por uma cave?! Ahahahahahahahahahahahahahahaha. De facto a senhora agente imobiliária estava cheia de razão, os imóveis que ela me enviou iam todos "de encontro" ao que nós procurávamos como, aliás, foram todos os que vimos até agora. Difícil, pelos vistos, é algum ir AO ENCONTRO do que nós queremos. Mas pronto, a esperança é a última a morrer. E se não for em Lisboa será noutro sítio qualquer. Sem pressas.

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