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zona de desconforto

zona de desconforto

Tão modernas que nós somos

Há um programa muito engraçado no canal Q, o “Paradoxo da Tangência”, apresentado pelo Eduardo Madeira, ali vestindo a pele de Eduardo Jaime, onde o entrevistador pergunta quase sempre às entrevistadas se elas estariam dispostas a despir-se por uma boa causa, por exemplo, para salvar a vida das focas bebés, ressalvando sempre que será “tudo feito com muito bom gosto!” porque, afinal de contas, o Eduardo Jaime é um intelectual e longe dele estar a propor às convidadas coisas indecentes. Nestes últimos dias a Joana Amaral Dias e a sua recém-descoberta nudez têm-me feito lembrar estes excertos do programa do canal Q. Primeiro apareceu nua na revista da Cristina Ferreira e uns dias depois, ainda estava eu a digerir o assunto e a tentar perceber se achava aquilo muito corajoso e irreverente ou só estranho, voltou a aparecer desnuda na capa da revista que sai gratuitamente aos sábados com o Correio da Manhã. Porquê tanto exibicionismo? Simples, porque a Joana é uma feminista assumida e quer chamar a atenção para esse flagelo que são os despedimentos de mulheres grávidas.
(suspiro)
Ora bem. Eu não fico chocada por ver a Joana despida numa revista, a mim o que me choca são os argumentos. Tudo bem, queria despir-se para chamar a atenção ou simplesmente para ficar com uma recordação bonita do estado de graça em que se encontra, qual Demi Moore fotografa pela Annie Leibovitz para a capa da Vanity Fair em 1991, nada contra. Nada mesmo. Mas não me queiram convencer que tudo isto é para defender as mulheres grávidas que perdem o emprego. É tão descabido como a outra menina que sangrou livremente – é assim que se chama o movimento, free bleed em inglês – porque há mulheres no Congo que não têm pensos higiénicos. Até podia comprar esse argumento se se tivesse ficado pela capa da Cristina mas com a do Correio da Manhã perdeu toda a credibilidade. Despiu-se duas vezes para defender as mulheres grávidas? Isso quer dizer que sempre que quiser falar do tema se vai despir até já só restar a capa da Playboy? E será que é mesmo preciso uma mulher grávida posar nua para alertar a restante população para a discriminação existente em certas empresas em relação a este assunto? Não me parece. Não sou nada pudica e acho que estes temas importantes não se devem cingir às amarras da vida política. Aliás, já o escrevi aqui. Mas acho que há atitudes que ridicularizam a causa pela qual se diz estar a lutar. Porque é que uma mulher aparecer nua e grávida na capa de uma revista é uma forma de protesto contra os despedimentos das mulheres em estado de graça? Não só não é uma fotografia inédita, longe disso, - ali em cima falei da Demi Moore, a primeira a arriscar algo do género, mas depois dessa as capas de grávidas nuas sucederam-se: Miranda Kerr, Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Britney Spears, Alessandra Ambrosio... - como não é algo que tenha particular relação com a causa a defender. Aliás, a fotografia para o Correio da Manhã tem zero bom gosto e grita deboche por todos os lados. E não há mal nenhum nisso! Cada um usa o corpo como bem entende. Mas não nos queiram convencer que é tudo por uma boa causa e que é quase o mesmo que aquelas fotografias "que os políticos tiram na praia e essas ninguém critica". Primeiro: quais fotografias que os políticos tiram na praia?! Segundo: não Joana, não é o mesmo. Posso estar enganada, mas não me lembro de ter visto alguma vez uma foto de um político na praia em poses sexys todo molhado ou com coisas escritas na barriga de cerveja seguida do argumento "Isto no fundo é por uma boa causa. É para chamar a atenção para o flagelo do desemprego! Uma vergonha é o que é, é o que é!" 

 

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