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zona de desconforto

zona de desconforto

Ter um gato também é isto #12

Ter um gato é desejar ter um buraco para me esconder a cada ida ao veterinário. Felizmente é coisa que só acontece uma vez por ano, por altura da renovação das vacinas.

 

O Kubrick nunca foi um gato bem comportado nas idas ao senhor doutor, mas piorou bastante quando uma mente iluminada de bata branca achou que a solução era por-lhe umas molas da roupa no cachaço para simular a pega da mãe e, assim, permitir uma melhor manipulação pelo médico. "É uma técnica muito utilizada em Londres" disse ele armado em esperto com três molas na mão. Pois que o meu Kubrick detesta modernices e passou-se completamente com a porcaria das molas. Primeiro ficou muito rasteirinho na mesa e depois deu um salto enorme e as molas saíram-lhe disparadas do cachaço. Menos uma que lhe ficou ali pendurada de lado que tive de ser eu a tirar, coitadinho. A partir daí foi sempre a piorar. Mas nunca nada foi tão mau como no passado fim-de-semana.

Como mudámos de casa fomos a um hospital veterinário novo, coisa que eu achava que ia mudar tudo. Era um começar do zero. Não foi. Assim que entrámos na sala de espera espreitei para dentro da transportadora e lá estava a linguagem corporal que já conhecemos tão bem: todo encolhido a um canto, olhos pretos, orelhas ligeiramente inclinadas para trás e bigodes para a frente. Assim que o médico tirou a parte de cima da transportadora começou a bufar, a rosnar e, com os olhos muito arregalados, a olhar lentamente para todos os cantos do consultório, como quem diz "Onde é que é a saída de emergência deste inferno???"

Esperámos dez minutos e depois entrou em cena o plano B: a assistente com duas toalhas turcas. "Vou tapá-lo. Pode ser que ele se acalme estando às escuras." Não disse nada mas pensei para com os meus botões "Eeeeeer, isso não me parece uma grande ideia...". Não foi. Ela tapou-o, ele deu um grito ensurdecedor que me assustou imenso, parecia que o estavam a magoar, e deu um salto gigante até ao tecto. Juro, por tudo, que não estou a exagerar. Estava montado o carnaval. Depois disto virou animal selvagem autêntico. Bufou, gritou, rosnou, trepou pelas quatro paredes do consultório, numa dessas escaladas caiu desamparado em cima do computador do médico que foi parar ao chão todo desconjuntado... um filme de terror autêntico. O médico entretanto mandou-nos para a sala de espera enquanto eles o tentavam pôr novamente na transportadora. Lá fora ouvia o gato aos gritos e a ir contra as coisas e de repente, para ajudar, começou um cão a ganir descontroladamente num dos consultórios. Senti-me a arder por dentro. "Não há ninguém que cale raio do cão?! Isto ainda o vai enervar mais!" Cinco minutos depois, que me pareceram toda uma eternidade, a assistente veio chamar-nos com a mão enrolada em papel, porque entretanto o Kubrick tinha-lhe dado uma valente dentada... Quando entrámos lá estava a ferinha enfiada na transportadora, todo rasteirinho e ofegante. Custou-me imenso vê-lo assim. Fui falar com ele baixinho e ele respondeu-me na mesma moeda: rosnou-me baixinho de olhos pregados no veterinário... lovely.

Quando chegámos a casa ficou inquieto durante mais de uma hora, andou de um lado para outro muito devagar e percorreu todas as divisões da casa umas quinze vezes. Deixei-o estar. Ao fim de quase uma hora e meia veio ter comigo ao sofá da sala, enrolou-se no meu colo, escondeu o focinho no meu braço, respirou fundo e adormeceu. Demorou dois dias a voltar ao estado normal: feliz, confiante e brincalhão.

Esta experiência foi traumática para todos: para o gato, para nós e, provavelmente, para o veterinário que se fartou de dizer que o gato não era mau, estava era muito assustado e só queria fugir. No fim da consulta aconselhou-nos a dar-lhe um comprimido calmante meia-hora antes da próxima ida ao veterinário mas eu estou é a pensar seriamente em não o voltar a levar às vacinas. Conheço quem tenha gatos há mais de 10 anos que nunca levaram vacinas e eles estão óptimos. Ainda por cima sei o quão sensíveis os gatos são ao stress e a última coisa que quero é levar o gato saudável às vacinas e regressar com um gato com uma infecção urinária devido ao stress. E sim, isto acontece. Li na Proteste deste mês e levo muito a sério tudo aquilo que a Deco diz. 

 

A modos que estamos assim: mais calmos e cheios de mimo

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 "Espero que o meu comportamento absolutamente vergonhoso no veterinário tenha deixado este assunto arrumado: acabaram-se as m%$das das vacinas!"

 

 

e a pensar seriamente se a vacina de 2017 é assim tãaaaao importante.

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