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zona de desconforto.

zona de desconforto.

30
Abr18

O parto - III

Segunda parte aqui.

 

"Nove dedos de dilatação. Já estou a sentir a cabeça da bebé."


A minha ideia de fazer o trabalho de parto sossegada na sala apropriada, com acesso a bola de pilates, música relaxante e média luz tinha acabado de ir por água abaixo. Fiz todo o período de dilatação na sala de CTG, sem qualquer privacidade e, pior, sem anestesia!, e nem tinha tido tempo de entregar às enfermeiras o plano de parto que escrevemos com tanta dedicação semanas antes. Naquele momento passaram-me pela cabeça os tópicos todos: período expulsivo numa posição o mais vertical possível para a gravidade ajudar - agora, quatro semanas depois, isto dá-me vontade de rir. Duvido que me conseguisse manter noutra posição que não a deitada -; não quero oxitocina para acelerar o parto - pelos vistos também não era preciso; quero receber epidural; não quero episiotomia por rotina, só se for ultra necessário; quero que o cordão umbilical pulse até ao fim; quero ajudar na saída do corpo dela; quero ser informada de todos os procedimentos médicos e suas alternativas... tinha a lista toda na cabeça, mas quando a médica disse que já conseguia sentir a cabeça da bebé só me saiu um dos tópicos que, na verdade, era o mais importante naquele momento: "Quero epidural. Ainda há tempo?" A médica disse que talvez sim e aquele "talvez" matou-me. Se já não conseguia suportar as dores das contrações nem queria pensar no que seria se tivesse de sentir as dores do período expulsivo. 

"Vá querida, agora levante-se e deite-se aqui". Para sair do consultório e entrar na sala de trabalho de parto, que era na porta logo ao lado, tive de passar da marquesa onde estava para outra, móvel, que já ali estava à minha espera com uma das enfermeiras que ia acompanhar o resto do processo. E quem é que diz que eu me conseguia levantar de onde estava? Porque é que a pessoa é obrigada a tantos movimentos quando está cheia de dores? Porquê? Tiveram de juntar as duas camas e eu lá me arrastei de uma para a outra, tipo lesma. Assim que saímos do consultório comecei a sentir uma pressão no ânus. Era a bebé a querer sair. 
Quando entrei na sala de trabalho de parto só me lembro de ver imensa gente a fazer imensa coisa. A vestir batas, a pôr máscaras, a mexerem em tubinhos e tauleiros de metal, a falarem comigo, "Não faça tanta força na mão!" - era uma enfermeira a tentar pôr-me o cateter do soro na mão direita que eu tinha fechada com tanta força que sentia as unhas cravarem-se na palma da mão, tal eram as dores que eu tinha.

"É preciso epidural aqui?", tinha chegado o anestesista, thank God! Ajudaram-me a deitar de lado, em posição fetal, para receber a epidural e a pressão no ânus continuava... comecei mesmo a ficar assustada. "Tenho vontade de fazer força, tenho vontade de fazer força", dizia. A administração da anestesia foi feita num instante, tinha medo que doesse mas, honestamente, nem a senti. Provavelmente por estar cheia de dores das contrações, que rapidamente se começaram a dissipar. Mas a pressão continuava e eu a avisar que tinha vontade de fazer força. "Vamos acabar já com isto! Ponha aqui os pés!". Nisto entra o senhor esposo na sala. Aproximou-se e perguntou, amoroso: "Então, vai começar agora?", "Começar? Não. Já está a acontecer!", "Já está a acontecer? Ela já está a sair?". Sim, estava! 

O resto foi muito rápido. A enfermeira explicou-me como fazer força: sempre que sentisse a tal pressão, a tal vontade de evacuar, tinha de fazer força. Parece simples mas aquilo tem técnica e nem sempre é fácil de pôr em prática. Fiz força cinco ou seis vezes e acho que três delas foram mal feitas. Não a estava a conseguir empurrar para fora de mim. Não dei conta mas o meu homem disse-me, depois, que a certa altura houve uma troca de olhares entre as enfermeiras como quem diz "Esta miúda não vai conseguir fazer isto sozinha. Tragam os forceps!", mas a que estava a liderar as tropas lá me deu mais uma oportunidade e a coisa deu-se sem recurso a instrumentos. Da última vez que fiz força lembro-me de sentir um ligeiro alívio e logo a seguir ouvi um choro. Era ela! "Mãe, quer vir buscar a sua menina?" Sim! Queria! Estava meio abananada mas queria. Queria muito. Levantei o tronco e vi-a pela primeira vez, toda inchadinha e pegajosa, coitadinha. Pus as mãos por baixo das axilas dela e trouxe-a para o meu peito. Foi a melhor sensação da vida. Eu, que sempre fiquei intimidada pelos bebés alheios, tão pequeninos e frágeis, com aqueles choros estridentes horrorosos, tinha deitado isso tudo pela janela e ajudado na extração do corpo da minha filha e agora tinha-a ali, comigo, sossegadinha no meu peito.

Depois de pesada, medida e limpa voltaram a colocá-la no meu peito e a equipa saiu toda, exceto a enfermeira que fez o parto que ainda ficou ali para me remover a placenta e cozer o períneo. Não foi a meia-hora mais confortável - ter alguém a tirar-nos a placenta significa que há uma mão dentro do nosso corpo e outra a pressionar-nos a barriga como se estivesse a empurrar os nossos orgãos cá para fora. Uma violência - mas tê-la ali deitada no meu peito e estarmos os três num namoro pegado ajudou bastante. 

 

Sei que tive sorte por tudo ter acontecido em 2h30 - e não em 12h como a minha amiga da sala do CTG - mas na minha ótica, sofri imenso! Imaginem o que é estar 2h30 com dores que nos impedem de falar e nos cortam a respiração, não é propriamente uma ida ao spa. Porém, tendo em conta as histórias de terror que fui ouvindo durante a gravidez, só me posso dar por feliz por esta ser a minha história. Correu tudo muito bem, foi rápido, nunca tive medo - tirando aquela cagufazita de não ir a tempo de levar anestesia - senti-me sempre segura e em boas mãos e gostei imenso das condições do hospital - falarei sobre isso mais tarde.

23
Abr18

O parto - II

Primeira parte aqui.

 

Felizmente não foi uma dor lancinante como eu temia, assemelhava-se mais àquelas moinhas que sentimos na barriga e na zona lombar quando nos está para aparecer o período - que eu, curiosamente, já não sentia há anos -, perfeitamente suportável. Fiz download de uma aplicação para monitorizar as contrações e esperei.

Entre as 6h e as 8h da manhã o intervalo entre elas variava entre 1 e os 18 minutos. Estava claramente a anos luz do 511 e as dores continuavam a assemelhar-se às tais cólicas menstruais. 
Entre as 8h e as 10h os intervalos começaram a ficar mais curtinhos, entre os 3 e os 8 minutos, as dores estavam um bocadinho mais fortes, mas ainda eram suportáveis, e as contrações não chegavam a 1 minuto. Fui tomar um banho, maquilhei-me, porque caso a coisa se desse naquele dia eu queria estar em bom, e fui-me deitar no sofá a ver televisão para me distrair.
Às 11h30 comecei a ficar com fome e pedi ao meu homem para ir ao McDonald's comprar uns hambúrgueres para o nosso almoço. Ao meio-dia, quando ele chegou com os Big Mac's, as contrações já vinham com intervalos entre os 2 e os 4 minutos, a dor estava mais intensa, a fome começou a passar para dar lugar a uma indisposição generalizada, sentia-me enjoada, mas continuavam a ser contrações curtinhas, de 30 ou 40 segundos. Pensei que não estava a ter contrações eficazes, que aquilo ainda era o aquecimento, mas como já me estava a sentir desconfortável achámos melhor borrifarmo-nos para o 511 e ir para o hospital depois do almoço. Nem consegui acabar de comer.

Dei entrada na urgência obstétrica pelas 13h. As contrações continuavam curtas mas as dores já me impediam de falar, só me conseguia concentrar nas respirações. Chamaram-me uns 10 minutos depois.
Expliquei à médica que já ali tinha estado naquela madrugada e qual a evolução das coisas até ali. A obstetra olhou para mim e disse que provavelmente também ela me iria voltar a mandar para casa, que, pela minha postura, não parecia que já tivesse entrado em trabalho de parto. "Sabe que estas coisas às vezes demoram dias" disse ela. "Mas deite-se na marquesa para eu lhe fazer o toque e ver em que pé estamos." O momento seguinte foi de déjà vu: a médica fez o toque que eu, novamente, não senti, graças a Deus - a sério, ouvi tantas coisas más sobre o toque que estava atormentada por ele - ela franziu o sobrolho e perguntou: "Não tem dores?". "Tenho umas moinhas, tipo cólica menstrual mas mais forte. Olhe, agora estou a ter uma". A médica olhou para mim e riu-se: "Tem uma elevada resistência à dor sabia? Está a caminho dos dois dedos de dilatação. A maioria das mulheres, nesta altura, já está a pedir anestesia." Ele há coisas! Eu que sempre me tinha tomado por caguinchas estava ali a aguentar estoicamente o início do trabalho de parto. Como só me podiam internar quando tivesse os dois dedos de dilatação completos, fui para a sala do CTG para fazer tempo até ter a dilatação necessária para dar entrada na sala de trabalho de parto. 

As dores, as tais moinhas como eu as descrevia, que minutos antes eram suportáveis, tornaram-se galopantes na intensidade e os intervalos entre elas passaram a ser de segundos - sim, s e g u n d o s . As respirações que me tinham ensinado no curso passaram de inspirações e expirações delicadas para sopros sonoros. A certa altura durante uma contração senti um líquido a sair-me do corpo. "Deve ser o resto do rolhão mucoso". Segundos depois, nova contração e novo jato de líquido a inundar a cadeira cadeira do CTG. Segundos depois a mesma coisa. Tinha as calças empapadas. Levei a mão à zona das virilhas, olhei e não vi sangue, era um líquido transparente e gelatinoso. "Rebentaram-me as águas!" Chamei a enfermeira e a gemer perguntei-lhe se era possível que me tivessem rebentado as águas ali. Ela confirmou. "Vá à casa de banho tomar um duche e vista esta bata. Mesmo que ainda não tenha os dois dedos completos já não sai daqui. Tem a bolsa rebentada."

 

Desatei a chorar. 

 

A enfermeira, aflita, perguntou-me o que se passava. Não sabia. Não sabia o que se passava. Estava cheia de dores, mal conseguia falar, precisava muito de uma anestesia, a minha filha estava a chegar, era mesmo verdade, estava mesmo a acontecer e eu ali sozinha, na sala de CTG, sem saber gerir isto tudo. Precisava de colo. Arrastei-me até à zona do duche e ao contrário do que seria de esperar a água quente não ajudou grande coisa, as dores eram insuportáveis. Sequei-me. Foi um filme para vestir a porcaria da bata, ficava paralisada de dor a cada contração e a bata parecia ter mil atilhos impossíveis de atar - mais tarde percebi que eram só dois -, quando saí da casa de banho já tinha o meu homem à minha espera na sala de CTG, para onde regressei. "Vamos ficar aqui só mais um bocadinho porque a Dr.ª está a almoçar e só ela é que pode dar o OK para o internamento", disse a enfermeira. Ela era amorosa, mas só me apetecia dizer asneiras. Como assim a médica foi almoçar? Não há mais ninguém que possa fazer isso para acabar com este tormento?

Na mesma sala onde estávamos tinha acabado de entrar outra mulher para fazer CTG. Estava de 40 semanas, segunda gravidez, frustradíssima porque não tinha contrações e estava farta de estar grávida. E eu cheia de dores. Contorcia-me na cadeira, a cada contração fechava os olhos e cravava as unhas na espuma do cadeirão. Parecia possuída. De repente ouvi do outro lado da sala: "Coitadinha, isso dói imenso não é? Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas!", era a grávida das 40 semanas sem contrações. Só me apeteceu vomitar. Doze horas? Mas alguém consegue estar neste estado 12 horas?  "Aproveite para beber água agora que quando der entrada na sala de trabalho de parto já não a deixam beber nada. Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas e só queria beber água e não podia". Queria matar aquela mulher. Sempre que ela dizia "12 horas" sentia vontade de chorar e vomitar ao mesmo tempo.

 

A enfermeira regressou. A médica tinha, finalmente, acabado de almoçar e já me podia fazer o toque. Foram precisas duas pessoas para me ajudarem a levantar do cadeirão do CTG. Mal conseguia andar com as dores.
Tinham passado 2h desde que tinha dado entrada nas urgências.
Deitar-me na marquesa parecia, agora, impossível. As dores eram insuportáveis. Não conseguia pensar, não conseguia respirar, pedirem-me qualquer tipo de movimento naquela situação parecia-me tortura. Lá me consegui deitar e lembro-me de desejar com muita força já ter os dois dedos completos para poder dar entrada no internamento e ter acesso às drogas todas.

 

A médica sorriu.
"Então, já tenho os dois dedos de dilatação completos?", gemi.
"Dois? Tem nove!"
"NOVE?"

18
Abr18

O parto - I

A partir das 37 semanas entrei em modo "are we there yet"? O desconforto causado pelo peso da barriga, as dores para me levantar, os números na balança que aumentavam a cada semana - li algures que no final da gravidez o aumento de peso estagnava mas, no meu caso, foi a altura em que engordei mais -, o já não ter nada para vestir... era oficial, estava pronta para conhecer a minha filha. Fiz as malas para a maternidade, tirei o verniz das unhas e esperei. 


Na madrugada em que completava as 39 semanas acordei para ir à casa de banho e vi que tinha sangue rosado nas cuecas. O coração disparou mas tentei manter a calma e recordar o que me tinham ensinado no curso. "Deve ser o rolhão mucoso." Se fosse não queria dizer nada. O parto podia acontecer dali a umas horas ou dali a uns dias. Ainda assim, e como não faz parte do meu feitio estar grávida em fim de tempo, ver sangue e voltar para a cama como se nada fosse, liguei para a Saúde 24 para tirar teimas. A enfermeira passou logo a chamada ao INEM para me virem buscar de ambulância mas eu recusei. Tinha o pai da criança ao meu lado, eram 3h da manhã, não havia trânsito, eu sentia-me bem, por isso estavam reunidas as condições para chegarmos ao hospital num instante sem sobressaltos. 


A minha ideia romântica da entrada em trabalho de parto era começar a sentir pequenas contrações fofinhas a meio da tarde, o que me daria tempo para tomar um banho relaxante e maquilhar-me para ficar bem nas fotografias que o meu homem me ia tirar na sala de trabalho de parto enquanto eu fazia respirações na bola de pilates - até comprei máscara de pestanas à prova de água especialmente para aquela ocasião - mas, naquele momento, não houve paciência para nada disso. Comecei a tremer tal era a ansiedade e só queria chegar ao hospital para ser vista e ter a certeza que estava tudo bem. Vesti a primeira coisa que me apareceu à frente, acho que nem as lentes de contacto coloquei e 'bora lá para a maternidade do Hospital São Francisco Xavier.
Quando chegámos as urgências estavam às moscas, uma calmaria, tão bom. Era mesmo daquilo que eu precisava. Fui chamada em menos de nada, a obstetra pediu-me para me deitar na marquesa e elevar as pernas para ela me fazer o toque. O TOQUE! Desde as 37 semanas que andava a temer o toque que toda a gente dizia que doía horrores. Gelei. Ela colocou-se à minha frente, as mãos desapareceram no meio das minhas pernas e... não senti nada. A médica franziu o sobrolho.


"Não tem dores?"
"Não. Porquê?! O que é que se passa?"
"Está a entrar em trabalho de parto! O sangue que viu foi uma parte do rolhão mucoso que saiu mas já tem o colo do útero muito fininho. Deve estar prestes a iniciar a fase de dilatação."


Oh. Meu. Deus.
Como assim estou a entrar em trabalho de parto?! Onde estão as contrações que eu não as sinto?! Querem ver que a primeira contração que vou sentir vai ser tão forte que me vai mandar ao chão e eu nunca mais me levanto? Onde está o 511 tantas vezes falado nas aulas de preparação para o parto - contrações de 5 em 5 minutos, com a duração de 1 minuto, durante 1 hora?!
Fui fazer um CTG para saber a frequência das contrações e em meia hora tive três. Sem dor. Apenas três contrações iguais às que tive durante grande parte da gravidez. A obstetra mandou-me para casa descansar e regressar quando sentisse contrações com dor com intervalos de 5 minutos. Mas avisou-me logo que aquilo era capaz de demorar, que se calhar só no dia seguinte ia sentir necessidade de regressar às urgências. Por outro lado o enfermeiro que estava na sala do CTG - um querido, muito simpático - estava mais otimista: achava que no final daquela manhã eu ia voltar e só iria sair já com a cria nos braços. Os dados estavam lançados. 


Regressámos a casa mas claro que eu não descansei nada. Quem é que consegue dormir naquela situação?! A resposta é simples: o meu homem. O meu homem consegue. Conseguiu dormir um sono reparador de cinco horinhas, benzódeus. Já eu estava na cama de olho aberto e a sentir a realidade descer sobre mim: está quase, está quase, ela está quase a chegar! As contrações que senti na sala do CTG continuavam mas sempre sem dor. Farta de estar ali deitada levantei-me, fui tomar o pequeno almoço, liguei a televisão, fiz zapping e por volta das cinco da manhã... senti a primeira contração com dor.

02
Abr18

O 3.º trimestre

Entrámos na reta final! Ontem caiu-me a ficha: esta é a última semana! A última antes do grande dia, a última semana antes da data prevista para a cria nascer! Claro que ela ainda pode ficar cá dentro até às 41, no quentinho, mas eu espero que venha, o mais tardar, no dia previsto, pontual como a sua rica mãe. Quando penso nisso até se me dá aqui um friozinho na barriga. A partir de agora é só mesmo esperar.

 

 

O melhor do último trimestre

A minha barriga
Nos últimos dois meses a barriga assumiu todo um protagonismo que até aqui não tinha. Se até ali às 30 semanas ainda passava despercebida a algumas pessoas mais distraídas, a partir dessa altura perdeu a vergonha e deu um senhor salto! Com isso surgiram novos desafios: a minha passada, que sempre foi rápida, passou a estar ali ao nível da de uma tartaruga, comecei a ter sensações de falta de ar, calçar ténis passou a ser um desafio digno dos Jogos sem Fronteiras - a sério, a luta é real - e às 35 semanas a barriga começou a dar, oficialmente, noites difíceis e passámos a ser três na cama: eu, o meu homem e uma almofada de amamentação. Quem diria que uma estranha almofada em forma de U podia dar tanto jeito! Apesar de não me sentir nada sexy tenho muito orgulho na minha barriga e fico toda contente quando metem conversa comigo acerca da gravidez - FYI: a gravidez é o melhor desbloqueador de conversa de sempre.

Grandes rambóias no ventre
No primeiro e segundo trimestres aquilo que mais ansiedade me causava era a irregularidade com que sentia os movimentos da bebé - ou não sentir de todo, no caso dos primeiros meses. Estive "a isto" de comprar um daqueles dopplers para ouvir o coração dela quando bem entendesse só para ter a certeza que estava tudo bem, que isto de só ter consultas de mês a mês dava-me cabo dos nervos. Mas a partir do momento em que a comecei a sentir todos os dias e a detetar os padrões de movimento transformei-me numa grávida muito mais serena. Agora, no terceiro trimestre, os movimentos dela passaram de grandes cambalhotas para movimentos mais lentos que se vêem perfeitamente por baixo da pele, sinal de que a casa está a ficar pequena. É muito giro e tranquilizador. Mas nem tudo são rosas, que isto às vezes também aleija. Como quando a criatura estica os joelhos ou os cotovelos, eu sei lá, até não poder mais. Parece que me vai rasgar a pele, credo! Mas prefiro mil vezes isto à pasmaceira dos primeiros meses em que uma pessoa quase tem de estar a meditar para sentir qualquer coisinha para depois ainda ficar na dúvida se serão gases ou se foi o bebé a treinar um encarpado.


Soluços fetais

Fui apresentada aos adoráveis soluços dos bebés, que parece que é uma coisa banalíssima, fazem todos o mesmo. Todos os dias, pelo menos duas vezes, temos direito a grandes sessões de soluços.


Pele imaculada - bem, mais ou menos
Nos posts dedicados aos outros trimestres queixei-me do estado miserável da minha pele, que ficou com acne ligeira mas persistente, a cabra, depois de ter deixado a pílula. Finalmente, no terceiro trimestre, fui bafejada com uma pele livre de borbulhas! Que felicidade! Livre de borbulhas não significa livre de marcas. Todas as borbulhinhas que habitaram nas minhas bochechas durante meses deixaram pintinhas rosadas que não há meio de desaparecerem. Mas antes pintinhas que borbulhas horrorosas. Sei que é sol de pouca dura, que quando as hormonas de gravidez forem à sua vida vai tudo voltar ao mesmo - até porque tomar contracetivos hormonais, que deixam, efetivamente, a pele imaculada mas adormecem por completo o nosso corpo e, por conseguinte, a consciência que temos dele, já foi chão que deu uvas e nem quero ouvir falar disso -, mas por enquanto vou aproveitar estas últimas semanas de despreocupação com a pele.

 

Zero estrias
Apesar do aumento repentino da barriga as estrias não apareceram, não sei se por mérito do creme da Barral com óleo de amêndoas com que me besunto todas as noites, se por o flagelo das estrias não correr nos genes da minha família. Esperemos que tenha a mesma sorte no que toca à flacidez...

 

Umbigo para dentro
Há quem tenha fobias com pés, há quem não suporte que lhes toquem nas orelhas, a minha pancada é com o umbigo. Sempre foi uma bolinha enfiada para dentro, bonitinho e discreto, e eu sempre fingi que ele que não existia. Não gosto de lhe tocar, não gosto da sensação, e não aguento aquelas pessoas que tiram prazer de ter o indicador às voltas dentro do buraco do umbigo ou que fazem piercings naquela zona - arrepio. Acho que me ia fazer imensa impressão se, de repente, a minha barriga vomitasse o umbigo cá para fora - pausa para sentir pequeno suor frio. Felizmente não aconteceu, só ficou plano nada de mais, o que me permitiu continuar a fazer o que sempre fiz: a ignorá-lo.

 

Lavar roupa
Confesso que zerar o cesto da roupa suja me dá especial satisfação. Grávida ou não. Fico com nervoso miudinho quando chove por dias seguidos e a roupa se acumula dentro do cesto ao ponto de transbordar e de repente haver meias em cima da tampa por já não caberem lá dentro. Até se me dão uns tremeliques na vista esquerda. Mas agora refiro-me ao prazer de lavar roupinhas de bebé. Ver bodies, babygrows, vestidinhos, casaquinhos de malha e meias minúsculas ali tudo às voltas no tambor da máquina em grande folia foi o momento alto daquele dia. Até gostei de lhe passar a roupa a ferro, tarefa que eu odeiooooo. Tratar da roupa dela foi um marco cá em casa, do género "Ok, agora está mesmo quase". Senti o mesmo quando, às 37 semanas, fiz as malas da maternidade.

 

O pior, ou menos bom vá

O peso
A desgraça não tem sido grande mas é sempre difícil lidar com os números a mais na balança, especialmente quando deixam de nos ser familiares. Já conto com mais 10.5 kg no lombo. No início do oitavo mês ainda conseguia enfiar as pernas na maior parte das minhas calças pré-gravidez, mas agora já não passa quase nada nestas coxas. Escapam dois pares de calções de ganga e duas calças. Como já sei que isto vai ser um problema depois de ela nascer, porque me vou recusar a usar calças de grávida não estando grávida, já tenho toda uma lista de peças que acho que se vão adaptar bem ao meu novo corpo e que vou encomendar assim que tiver oportunidade: calças básicas um tamanho acima e vestidos, camisas e tops com botões amigos da amamentação.
Houve uma noite em que navegava alegremente pelo site da Zara e, de repente, fui esmagada por um camadão de culpa - ah, a culpa materna começa tão cedo, tão bom... - por estar a pensar no pós-parto como uma oportunidade de ir às compras em vez de estar a refletir seriamente sobre o quão maravilhosos e difíceis vão ser os nossos primeiros tempos de adaptação a um bebé. Mas também me passou depressa! Olhar-me ao espelho e sentir-me bem com o que vejo pode muito bem ser meio caminho andado para ser uma mãe mais bem disposta, equilibrada e menos nervosinha. Ou assim espero.

 

As dores
Ali perto do final do segundo trimestre comecei a ter umas dorzinhas ocasionais nos ossos das virilhas quando me levantava ou quando me queria virar na cama. Agora sempre que me quero levantar da cama de manhã, ou do sofá, ou de uma cadeira onde estive sentada uns míseros 10 minutos sinto com cada guinada que até ando de lado. O mais difícil é mesmo levantar-me da cama, exige toda uma preparação mental antes. Parece que sinto os ossos a abrir, é muito estranho. A parte boa é que basta dar três ou quatro passos para o desconforto desaparecer.

 

No big boobs for you
Cadê aquele mamaçal gigantesco que eu estava preparadíssima para exibir por baixo da roupa? Por aqui as madames ficaram mais ou menos na mesma. Aumentei um número de sutien e já gozei. Humpf, que miséria.

Despertares noturnos
Sei que há mulheres que ficam com a bexiga do tamanho de um bago de arroz que as obriga a correrem para a casa de banho aflitas para depois fazerem duas miseráveis pingas de urina, mas por aqui o tamanho da bexiga, à semelhança do tamanho das mamas, continua mais ou menos o mesmo. Apenas noto que me passei a levantar pelo menos uma vez durante a noite, quase sempre à mesma hora, com a bexiga cheia como se tivesse bebido 1,5l de água meia-hora antes, logo eu que tenho sempre tanto cuidado para não beber muita água ou chá à noite. As famosas insónias de gravidez também me bateram à porta. Recordo uma noite particularmente incrível em que acordei às 4h da manhã e nunca mais consegui dormir. Às 6h andava a arrumar a cozinha. Há meses que não sei o que é dormir uma noite inteira - nada que se compare ao que aí vem, bem sei - mas, em contrapartida, tenho dormido grandes sestas durante a tarde que me sabem pela vida.

A ansiedade
Sou uma pessoa naturalmente ansiosa e com a gravidez isso agravou-se, especialmente nos primeiros meses em que é tudo novo e parece ser tão frágil, mas com o avançar do tempo sinto-me cada vez mais serena. Tenho cá as minhas dúvidas e preocupações mas já não fico consumida dos nervos à mínima coisa. Tenho muitas perguntas que ainda não têm resposta, especialmente relacionadas com a amamentação e o choro do bebé, mas essas questões não são movidas pela ansiedade mas antes pela minha curiosidade natural e vontade de querer saber mais sobre determinado assunto até sentir que o tenho dominado e compreendido a 100%.

 

Sistema imunitário fraquinho
O meu sistema imunitário andou pelas ruas da amargura. Eu que raramente ficava doente, na gravidez tive direito a uma faringite e duas contipações valentes, uma delas com direito a febre e tudo. E como só podemos tomar aquela bomba que dá pelo nome de Ben-u-ron temos de arcar com os sintomas todos e esperar que passem. Nice!


A impossibilidade que é estar parada em pé
Desde o dia seguinte a ter descoberto que estava grávida até agora, estar em pé parada tem sido um martírio. Não interessa se estou aborrecidíssima na fila do supermercado ou em amena cavaqueira com alguém. Dois minutos parada em pé e começo a ter palpitações, a deixar de ouvir, a ter suores frios e aquela sensação horrível de desmaio. Ou estou em movimento ou tenho de me sentar. Abençoada lei da prioridade que me tem safado tantas vezes.

 

25
Fev18

O curso de preparação para a parentalidade

Uma pessoa descobre que está à espera de bebé, vive ali um ou dois meses de enamoramento em segredo, em que todos os bebés e crianças em geral nos parecem encantadoras e todos os pais que se cruzam no nosso caminho parecem felizes e em controlo e pensamos que aquela vírgula vai ser a melhor coisa de sempre e que vamos ser os melhores pais do mundo. Depois, começamos a contar a notícia a toda a gente e acaba-se-nos o sossego. Todos os pais e mães à nossa volta nos despejam conselhos em cima e todos os conselhos são contraditórios. Todos. Porque as pessoas são diferentes, as rotinas de cada família são diferentes e, mais importante que tudo, cada bebé é diferente do anterior. Foi por isto que rapidamente decidi que precisava de fazer um curso de preparação para o parto. Precisava de dicas e conselhos de especialistas e de ajuda para arrumar todas as informações que os outros me estavam a querer transmitir e descartar o que não interessava. Por outro lado, receava estar um mês a praticar respirações e técnicas de alívio da dor no parto e isso deixava-me assim um bocadinho de pé atrás. Não queria estar uma imensidão de tempo a preparar-me para uma coisa que seria apenas um momento. Pode ser um momento mais ou menos longo, mas o parto é um momento. Eu queria era saber o que fazer depois de ela estar cá fora.

Se calhar é por haver mais pessoas com as mesmas reservas que eu que o nome dos cursos começou a mudar e se passaram a chamar, em muitos sítios, cursos de preparação para a parentalidade. Estas aulas são muito mais que respirações e o que fazer na sala de parto. São, de facto, uma introdução à parentalidade, ao que é isto de ser pai e mãe, desde a abordagem mais filosófica da coisa até à mais prática: dar banho, mudar fraldas, limpar os olhos do bebé, aprender técnicas de primeiros socorros, interpretar o choro do pequeno ditador... saímos dali com uma imagem bastante completa daquilo que nos espera. E na minha opinião estes cursos não são úteis apenas para quem nunca mudou uma fralda. De facto, quando somos nós, o chip muda. Uma coisa é estarmos uma ou duas horas com os filhos do outros, com os sobrinhos ou os filhos dos amigos, e sabermos assim por alto das dificuldades e facilidades pelas quais os pais daqueles bebés passam, outra, completamente diferente, somos nós a preparar-nos para assumir aquele papel. De repente uma coisa que parecia muito natural e óbvia levanta-nos imensas dúvidas.

 

Posso usar lentes de contacto no dia do parto? Em que é que consiste o famoso e temível "corte"? Qual o grau de inclinação ideal da cabeceira do berço? Como é que se veste um bebé? Têm mais calor ou mais frio que nós? A chucha ajuda a prevenir a morte súbita? É verdade que atrapalha a amamentação? Qual a temperatura ideal do banho? Durante quanto tempo é que o bebé deve estar na mama? Quando nos começamos a debruçar a sério sobre isto de cuidar de um recém-nascido, do nosso recém-nascido, as perguntas aparecem em catadupa e ficamos assim a modo que assoberbados. 

 

Como o nosso centro de saúde não dá estas aulas e nunca consegui que me atendessem o telefone no hospital público da área de residência, nem tínhamos tempo para lá ir durante a semana porque a secretaria só funciona em horário de expediente, optámos por fazer no privado. Depois de muitas pesquisas e de comparação de preços - há sítios absurdamente caros - decidimo-nos pelo Instituto4Life. Uma amiga já lá tinha feito o dela e gostou bastante, era mesmo ao pé de casa e foi o local com melhor preço que encontrámos. Não sei como são os outros mas acho que não podíamos ter escolhido melhor. O curso é muito completo e as enfermeiras são muitíssimo acessíveis. Se tivermos uma dúvida, mesmo depois de o curso ter terminado, estão a um telefonema ou a uma mensagem de whatsapp de distância. Um descanso!
No nosso caso, o curso não só nos ajudou a dissipar muitas dúvidas como nos deu muita confiança. E esta é a palavra-chave: confiança. Algumas pessoas, principalmente as que já têm filhos e se esqueceram do quão assustadora consegue ser esta fase, dizem que estes cursos não servem para nada porque depois nos esquecemos de tudo e só seguimos o instinto. Até pode ser verdade, e seguir o instinto é extremamente importante - mensagem que também nos é transmitida no curso -, mas eu acho que a utilidade destas aulas é precisamente para a altura em que nos estamos a preparar para sermos pais porque nos dá esse super-poder incrível que se chama confiança. Mesmo que depois, na hora H, nos esqueçamos de tudo e façamos as coisas como achamos melhor no momento, a confiança com que partimos para essa nova fase faz toda a diferença.

Uma das coisas que me estava a atrapalhar era não saber como a ia tirar da banheira e embrulhá-la na toalha quando lhe estivesse a dar banho sozinha. Não temos espaço na casa de banho para um muda-fraldas, nem quisemos comprar aqueles móveis com muda-fraldas e banheira incorporada para ter no quarto, por isso aquela passagem normal da banheira para o muda-fraldas onde já estaria uma toalha estendida e pronta para receber a criança, não existe. Como é que eu a ia embrulhar numa toalha se estivesse sozinha? Só lhe podia dar banho quando o pai estivesse em casa? Esta dúvida surgiu-me numa manhã enquanto eu estava a arranjar-me para ir trabalhar e estava a consumir-me os nervos. Como é que ia ser uma mãe decente se nem conseguia arranjar uma maneira segura de passar a minha filha da banheira para uma toalha quentinha? No curso esta dúvida desapareceu com a aula sobre o banho. Será que vou fazer exatamente como aprendi? Talvez sim, talvez não, logo se vê. Mas só o facto de saber qual a solução para aquele quebra-cabeças deixou-me muito mais tranquila e confiante. 
E sim, a componente das respirações, do alívio da dor e dos diversos sinais de trabalho de parto também fazem parte do curso mas, no caso deste que fizemos, foi tudo treinado e explicado nas duas primeiras aulas e foi mais que suficiente. Os outros módulos do curso foram dedicados ao pós-parto, ao choro do bebé, à amamentação e por aí fora. Aconselho mesmo muito. Este ou outro qualquer que decidam fazer. É muito útil.

 

Quanto às perguntas ali de cima:

 

- Podemos usar lentes de contacto no dia do parto mas temos de levar os óculos na mala e avisar as enfermeiras que as temos postas. Se for necessário avançar para uma cirurgia de urgência alguém terá de as retirar para evitar lesões na córnea.

 

- A episiotomia, ou o corte, é mesmo uma coisa horrorosa e serve para ajudar a criança a sair. Cada vez mais é feito apenas em caso de necessidade - infelizmente depende muito do hospital e da equipa que apanhamos... -, caso as enfermeiras ou o médico vejam que há perigo de a mãe rasgar e assim evita-se que seja uma coisa descontrolada. Durante a gravidez, a partir das 35 semanas, há massagens que podem ser feitas no períneo para tornar aquela zona mais elástica e tentar evitar, assim, a necessidade de se partir para o corte.

 

- A cabeceira do berço deve estar inclinada. Ponto. Para os mais perfecionistas que querem fazer tudo by the book a inclinação recomendada é de 30º. Se a criança bolsar muito necessitará de uma inclinação maior. 

 

- Para uma bebé de primavera, um body de manga comprida e um babygrow é suficiente. Se estiver muito frio acrescentar umas calcinhas de algodão por baixo do babygrow. Normalmente os bebés precisam de mais uma camada de roupa que os adultos, mas cada bebé é diferente. Há uns mais friorentos e outros menos. No fundo são pessoas, como todos nós. Para ver se a criança está quente ou fria basta pôr dois dedos no peito, por baixo da roupa. 

 

- A chucha ajuda a prevenir a morte súbita mas também pode atrapalhar a amamentação. O conselho que deram é para introduzir a chucha apenas depois de a amamentação estar estabelecida - mais ou menos 15 dias após o nascimento - para não baralhar a criança. Mais uma vez, cada bebé é diferente e se houver algum que se acalme e adormeça melhor com a chucha na boca... dá-se chucha.

 

- A água do banho deve estar a 38º-40º para quando o bebé for posto lá dentro já estar à temperatura corporal (37° mais ou menos). A ideia é descontar o tempo que levamos a despir o bebé, tirar-lhe a fralda, limpar o rabo e genitais, para não contaminarem a água caso estejam sujos. Se fizermos isto com a água a 37° quando a criança lá chegar já estará nos 34 ou 35 e isso torna o banho desconfortável.  Os banhos devem ser rápidos porque a água arrefece depressa. 

 

- Durante as mamadas o bebé deve estar na mama não mais que 15 minutos. Mais que isto já não se estará a alimentar mas sim a fazer da mama chucha. Já me estou a ver de cronómetro na mão... Apesar de estar mais esclarecida, a amamentação ainda é um assunto, se não O assunto, que me assusta mais. É suposto ser tudo muito natural e animal, mas depois há uma data de regras e técnicas e cremes e compressas frias e quentes que fazem com que isso pareça ciência de foguetões. Felizmente, no curso de preparação para a parentalidade, as enfermeiras disponibilizam-se para ajudar nessa fase. Se for preciso vão a nossa casa e tudo. Como é lógico não sei como vai correr esta parte, mas ajuda saber onde e a quem me posso dirigir para pedir ajuda.

 

 

Mais uma vez, na dúvida entre fazer ou não um curso destes, façam!

22
Jan18

O 2.º trimestre

E eis que, num piscar de olhos, entrámos na reta final: o terceiro trimestre!
O primeiro resumiu-se a todo um enorme desconforto generalizado que parecia não ter fim e, por isso, foi como se tivesse demorado um ano. Os enjoos, o não saber o que comer, o calor que não consegui suportar naquele verão, a fraqueza... o não estar confortável de maneira nenhuma, basicamente. Depois, no segundo, os desconfortos desapareceram quase todos - quase... - e voltei a sentir-me eu novamente. Esse bem-estar, essa leveza, fez com que o tempo passasse a voar. É uma fase muito bonita de descobertas e, também, a mais dispendiosa até agora. Tudo começou a parecer mais real, a barriga deu um pulo, comecei a sentir e a ver a bebé mexer-se dentro da barriga, começaram as conversas sobre os nomes, tive vontade e energia para preparar o enxoval da criança, para pensar nos pormenores do quarto... é, sem dúvida, a fase de encantamento da gravidez. 

 

O menos bom, porque não posso dizer que tenha havido algo verdadeiramente mau

 

Contrações Braxton Hicks. Sabem aquele episódio dos Friends em que a Rachel começa a sentir umas pontadas na barriga e vai de urgência para o hospital com o Joey e quando o Ross lá chega e percebe que eram só contrações de Braxton Hicks fica aliviado e ainda remata com "a maioria das mulheres nem as sente"? Sabem? Pronto esta era a única referência que eu tinha das contrações de Braxton Hicks: ou eram uma coisa muito dolorosa que nos levava em pânico para o hospital, ou era uma algo tão levezinho que uma pessoa nem as sentia. Por aqui já começaram e não é nem uma coisa nem outra. O que se sente, ou o que eu sinto, vá, é a barriga a ficar pesada e rija de repente, tipo pedra, por baixo do umbigo. Não dói, causa apenas desconforto, e dura alguns segundos. É frequente quando estou em pé ou a andar, mas também acontece quando estou sentada. Por indicação do médico de família comecei a usar uma cinta de gravidez e parece que as contrações são menos frequentes. Quer dizer, não sei se são menos frequentes ou se sou eu que não as sinto tanto por ter a barriga apoiada. De qualquer forma, diminui o desconforto. 

 

Sistema imunitário assim ao nível do chão. No quinto mês foi-me diagnosticada uma faringite que me obrigou a tomar antibiótico. Estive três semanas a evitar ir ao médico e a valer-me das mezinhas caseiras mas no dia em que acordei afónica e com dores horríveis na garganta rendi-me às evidências e lá fui às urgências. Apesar de o meu obstetra me ter garantido que podia tomar o antibiótico que me tinham receitado, que era o único seguro na gravidez, tomei todos os comprimidos, durante os cinco dias de tratamento, muito contrariada e com um aperto no coração. Mas a verdade é que ao fim de uma semana estava boa.

 

Azia e refluxo. Tenho uma hérnia do hiato diagnosticada, por isso as dores de estômago violentas não me são estranhas, mas desde há uns dois anos, quando mudei a minha alimentação e comecei a comer da forma mais natural que consigo - com alguns disparates pelo meio porque, quem nunca? - sem alimentos processados e açucares adicionados, que já não tenho nada que se compare àquelas crises de ficar de cama durante dias. Porém, no final do segundo trimestre os desconfortos gástricos voltaram a dar um ar de sua graça. Tive uns episódios muito levezinhos de azia mas o que me incomodou verdadeiramente foi o refluxo. Cheguei ao ponto de jantar pelas 21h, ir deitar-me perto da 1h da manhã e às 2h acordar com um aperto na garganta e uma sensação de enfartamento como se tivesse acabado de comer um cozido. Tenho de me sentar na cama muito direitinha durante uns bons minutos até me passar. Não é nada do outro mundo, podia ser muito pior, mas como isto só me dá à noite é chato porque não consigo dormir como deve ser. O que vale é que, por enquanto, é pouco frequente.

 

Sono. No post do primeiro trimestre contei que todo aquele sono incrível que as mulheres dizem sentir me passou ao lado. Pois que agora, já no final do segundo, ele chegou em força. Na maior parte dos dias foi um martírio manter-me acordada durante a tarde e não raras as vezes precisei fazer uma sestinha de 20 ou 30 minutos ao final do dia. Os fins de semana são absolutamente gloriosos porque posso dar-me ao luxo de descansar depois de almoço, que é tudo o que me apetece fazer durante a semana. 

 

Fraqueza. A falta de energia que senti durante todo o primeiro trimestre continuou no segundo mas com menos frequência e intensidade. Ainda não consegui perceber se são quebras de tensão, quebras de açúcar no sangue ou o centro de gravidade do corpo alterado que provoca estes salamaleques. Cheguei a estar na Kiko do Chiado a conversar com uma das raparigas da loja sobre vernizes e de repente comecei a perder as forças, deixei de ouvir, deixei de ver a pessoa que tinha à frente e só tive tempo de pedir para me sentar e me atirar para a cadeira mais próxima. É o sintoma mais debilitante que tenho tido ao longo de toda a gravidez ao ponto de evitar ir a lojas ou a supermercados em horas do dia críticas, tipo final do dia durante a semana, porque já sei que as caixas vão estar com filas enormes para pagar e eu nem sempre me sinto à vontade para passar à frente das pessoas, especialmente se não houver caixas prioritárias, como acontece no Continente, por exemplo, ou em praticamente todas as lojas de roupa em que obrigam uma pessoa a mendigar para ser atendida mais depressa. Sei que é estúpido, que é um direito que eu tenho, mas também sei que as pessoas conseguem ser muito mazinhas e inconvenientes e às vezes não estou, simplesmente, para me chatear. 

 

O melhor

 

Olá senhora barriga! Se no primeiro trimestre andava tipo Calimero por não se notar a barriga, no segundo ela começou a dar um ar de sua graça. No quarto mês já se começou a notar uma bolinha redondinha para lá de gira, no início do quinto deu um pulo simpático e ao sexto já ninguém tinha dúvidas de que estava um bebé a caminho. Como não sou de usar roupas justas ainda hoje há quem diga que "não se nota muito"... podemos sempre contar com as pessoas e os seus comentários blazé em relação ao corpo de uma mulher grávida, não é mesmo? Mas já não me incomoda tanto. Continuo sem saber o que responder, porque continuo a achar que esse tipo de abordagem é estúpida, mas já não fico melindrada. Em casa, quando estou de pijama, é quando, efetivamente, se nota bem. Pareço um bêbado gordinho, a andar à pato e com a barriga a querer aparecer por baixo da camisola. Adoro!
Apesar de já ser evidente ainda sou apanhada de surpresa quando reparam que estou grávida. Primeiro foi a senhora da Nespresso, logo no início do quarto mês. "Desculpe, mas está grávida não está?" e deu-me senha prioritária. Fiquei tão emocionada com aquilo que só não a abracei porque tenho noção dos limites e do espaço pessoal dos outros. Depois foi uma vizinha, depois a rapariga que me faz as sobrancelhas na Wink, depois a menina da caixa da H&M, depois a senhora da mercearia, depois a menina da Padaria Portuguesa que me chamou para a frente da fila quando eu ainda estava a decidir se queria um pão de Deus ou um croissant de chocolate, ou os dois, depois um funcionário do IKEA... já devia ser banal mas continua a ser uma coisa que me apanha de surpresa e me deixa estupidamente feliz. 

 

It's a girl! Às 17 semanas soubemos que íamos ter uma menina e já falei aqui dos sentimentos ambivalentes que tive e que entretanto me passaram. Agora adoro ver vestidinhos e blusinhas e imaginá-la lá dentro a espernear. Foi depois de sabermos que era uma menina que começámos a comprar-lhe as primeiras roupas, até li nem me apetecia andar a ver roupa de bebé. Não queria estar a gastar dinheiro em bodies e babygrows brancos ou cinza quando havia coisas tão giras de rapaz e rapariga logo ali ao lado. Principalmente de rapaz, que a grande parte das lojas tem uma capacidade enorme de transformar roupa de rapariga numa piroseira que não se aguenta. Só cor de rosa, tules, brilhantes e bonecada. Nhéc. Uma pessoa quer um vestido, um macacão ou uma t-shirt mais minimal e clássica, de cor neutra, e não encontra quase nada no meio de tantos frufrus. Mas enfim, com alguma paciência lá conseguimos desencantar umas pecinhas janotas e fazer uns conjuntinhos todos giros. 
Foi também depois de sabermos o sexo da criança que começámos a pensar na decoração do quarto. Algo perfeitamente dispensável, tendo em conta que nos primeiros tempos ela vai ficar no nosso quarto e não vai usufruir nada daquele espaço todo mimoso, mas, caramba, que pais é que conseguem resistir à tentação de montar o quarto da pequena cria que aí vem? Tal como na roupa queremos fugir o mais possível ao cor de rosa e à bonecada. O quarto dela tem de se enquadrar na linguagem que temos no resto da casa, onde é tudo muito minimal, em tons de branco e cinza com apontamentos de cor na decoração. Não queria nada ter uma divisão temática cá em casa, acho que não faz sentido nenhum. Portanto a base será o branco e o cinza com apontamentos de rosa velho, amarelo torrado/dourado e verde escuro na decoração. Acho que vai ficar muito giro. Se ela depois, mais tarde, quiser estragar tudo com autocolantes e pósteres de uma qualquer cantora espanhola pirosona que esteja em voga na altura... bom, logo vemos.

 

O primeiro pontapé. Foi também às 17 semanas que a senti mexer-se pela primeira vez, segundos depois de termos descoberto que era uma menina, ainda durante a ecografia. Estava a dizer ao médico que nunca a tinha sentido e quando é que ele achava que isso podia acontecer e de repente brrrrrrrrrrrrrrrrr do lado esquerdo da barriga. Foi incrível. Ao início os movimentos são muito ténues e espaçados, depois desta primeira vez estive dois ou três dias sem sentir nada, mas há medida que o tempo vai passando vão sendo mais intensos e regulares ao ponto de conseguirmos sentir os movimentos com as nossas mãos e de os vermos na barriga. Esta é, sem dúvida, a parte mais gira porque agora o pai pode, finalmente, ter uma pequena noção do que nós sentimos. Pode ver a barriga a mexer, pode pôr a mão e sentir os movimentos. Até ali são meros expectadores. Expectadores dos enjoos, dos desconfortos, dos medos, das nossas ansiedades, da nossa adorável irritabilidade, dos primeiros movimentos do bebé. Mas agora podem efetivamente sentir qualquer coisa.
Durante muito tempo só a conseguia sentir se estivesse sentada, mas agora já dou por ela mesmo quando estou em pé. Não é com tanta intensidade, mas sinto. E qual é a sensação de sentir o bebé a mexer? Estão a ver o que sentem quando estão com gases? O ar a passar pelo intestino? É muito semelhante mas sem a libertação de gás no final. Lamento não conseguir descrever isto de uma maneira mais romântica mas é o que é.

 

Peso. Engordei 6 quilos e pouco em 6 meses e os dois pares de calças que comprei no início da gravidez ainda me servem. Yei! Sei que 1kg por mês, mais coisa menos coisa, é uma boa média mas já cheguei àquela fase em que não reconheço os números que vejo na balança e isso é estranho. A enfermeira do centro de saúde elogiou-me por só tenho ganho 300 ou 400 gr em dezembro, após o Natal e Ano Novo, mas avisou-me logo que no terceiro trimestre o aumento de peso poderia ser galopante porque é quando os bebés começam, finalmente, a ganhar gordura e podem engordar cerca de 1kg por mês o que vai, evidentemente, refletir-se na balança e no tamanho da barriga. Por isso é muito importante ser regrada e fazer uma alimentação saudável na reta final da gravidez para isto não descambar e não chegar ao fim em modo hipopótama. Já meti na cabeça que tenho de voltar à dieta low carb, que os enjoos do primeiro trimestre já passaram há muito e já não há razões para não comer legumes a TODAS as refeições - menos grelos. Grelos salteados continuo a não conseguir suportar.

 

Mitos urbanos, ou aqueles sintomas clássicos que me continuam a passar ao lado

 

Desejos. A única coisa que se pode ter aproximado de um desejo foi ali um espaço de duas semaninhas em que me apetecia imenso comer tomate às refeições. E comi! A todas as refeições. Mas depois passou-me e voltei ao normal. O desejo de comer doces sempre foi uma constante na minha vida, não posso culpar a gravidez por isso, mas houve coisas doces que não comia há anos e que agora me tem apetecido muito. A saber: Chocapic com leite quentinho e Cerelac com grumos. Tem de ser com grumos, sem grumos não tem piada nenhuma! Mas como deixei de beber leite há uns cinco anos tenho conseguido resistir-lhes estoicamente. Chocapic ou Cerelac feitos com bebida de aveia não devem prestar para nada - e nem me venham falar em fazer Cerelac com água! Ninguém aguenta essa mixórdia - por isso mais vale manter esses sabores da minha infância intocáveis na minha memória e não me pôr a inventar. 

 

Estrias. Ainda não vi nenhuma. Às vezes sinto umas comichões na barriga, de lado, mas esse foi o único sinal que a pele me deu de estar a esticar. Continuo a besuntar-me com Barral óleo de amêndoas doces à noite - barriga, ancas, coxas e peito, uma canseira - e de manhã vou variando entre o Nivea soft e umas amostras do Valestisa da Isdin e do Phytolastil da Lierac que volta e meia me dão na farmácia.

 

Bexiga do tamanho de uma ervilha. Grávida que se preze levanta-se quatro a cinco vezes por noite para fazer xixi porque no lugar da bexiga tem agora algo muito semelhante a um bago de arroz. Por aqui, se me levantar uma vez por semana a meio da noite para ir à casa de banho é muito. Mas se for preciso acordo umas três vezes para me virar na cama! Lá está mais uma coisa gira que descobri acontecer na gravidez. De repente virarmo-nos da esquerda para a direita deixa de ser algo tão natural como a sua sede porque, de facto, mudar de posição é todo um tratado, uma pessoa tem mesmo de estar acordada e concentrada naquilo que está a fazer. E as dores que isto dá? Parece que acabámos de fazer uma aula demoníaca de abdominais no ginásio só que não, estivemos apenas a dormir e só nos queremos virar para o outro lado.

 

Calor. Quando percebi que ia ser uma grávida de inverno desejei secretamente sofrer dos famosos afrontamentos de que tantas grávidas se queixam para, pelo menos uma vez na vida, conseguir andar na rua no inverno sem estar incrivelmente desconfortável independentemente das camadas de roupa que tivesse vestidas. No entanto, até agora, tudo se mantém igual. Saio de casa com um top, uma camisola de algodão, uma camisola de malha, casaco, cachecol e, às vezes, gorro, e continuo cheia de frio. Ainda assim reconheço uma pequenina alteração no meu termostato interno: às vezes, em sítios fechados, sou assaltada por uns calores infernais e só me apetece andar de t-shirt. Já me aconteceu várias vezes no trabalho e em restaurantes. Só na rua é que não me dá nada disto. 

 

Pele e cabelo. Continuo à espera da pele luminosa e do cabelo cheio de volume de que tantas grávidas se gabam mas parece que não vou ter essa sorte. No segundo trimestre notei uma melhoria muito ligeira na pele, na medida em que em vez de me aparecerem cinco borbulhas de uma vez aparecem só duas, e o cabelo continua fino como sempre o conheci toda a vida. Por outro lado a famosa linha nigra à qual pensei que me ia escapar triunfantemente começou a surgir muito tenuemente por baixo do umbigo. Mas até lhe tenho algum carinho, acho-lhe graça. 

 

Posto isto: terceiro e último trimestre sê muito bem-vindo.

18
Jan18

O incrível mundo das restrições alimentares na gravidez

Quando soube que não era imune à toxoplasmose pedi ajuda a médicos e enfermeiros para saber o que podia ou não comer e todos me garantiram que os cuidados eram bastante simples: a) comer carne bem passada; b) lavar muito bem, ou desinfetar, frutas e legumes comidos crus, especialmente os que andaram a chafurdar na terra - alfaces, morangos e tudo o mais que cresça ali rentinho ao chão, que é onde o toxoplasma vive.
Só.
"Então e o sushi? Não podes comer sushi! Andas a comer sushi?!" Calmaaaa. O problema do peixe cru não tem nada a ver com a toxoplasmose que, como vimos ainda agora, está presente na terra. A bactéria é outra – chama-se listeriose, que também pode estar presente em queijos não pasteurizados, por exemplo - e os perigos existem sempre e para toda a gente, só que para as grávidas é pior porque o bichinho provoca diarreias e vómitos o que nas grávidas obriga a uma vigilância maior por causa do perigo de desidratação, por isso, e como é melhor prevenir, também não há sushi nem queijos amanteigados para ninguém. Parece simples! Mas depois a pessoa engravida e percebe que estes dois ou três tópicos, afinal, e sem ninguém nos ter avisado, transformam-se em 4396!

 

Saladas: o acompanhamento de que ninguém se atreve a falar

Então, não podemos comer saladas fora de casa. Tudo bem, basta confirmar se os pratos vêm com salada e se vierem dizemos que não queremos. Mas como é que uma coisa tão simples se transforma num problema? Vejamos: vamos a um restaurante e pedimos um prato de carne assada. 
"Acompanha com o quê?"
"Arroz e batata". 
Boa, não vem com salada. Minutos depois o que é que nos chega à mesa? Um prato com umas belas fatias de carne assada acompanhadas de arroz, batata e... salada! Portanto chegámos a um ponto em que a salada já é um mero enfeite que o pessoal dos restaurantes não considera. 
Se forem grávidas descomplicadas basta tirarem a alface e o tomate do prato e comerem o resto, porém, sempre com alguma cautela porque um prato com salada tem sempre umas ripas de alface escondidas por baixo da carne ou do arroz. Se forem grávidas paranóicas acham que a alface e o tomate já contaminaram toda a comida com toxoplasma e sentem vontade de chorar para cima do prato e de agredir o empregado. Eu sou, ou fui, em tempos, uma mistura destes dois. 
Nos primeiros meses, em que tudo é novo e parece que só existem restrições, estas coisas causavam-me um imenso desespero. Parecia que os restaurantes conspiravam contra mim e começava a achar que aquilo já era um ataque pessoal. Mas depois de o meu médico me garantir, várias vezes, que basta tirar a salada e comer o resto sem medos já estou muito mais descontraída. Ainda assim, o desprezo com que se olha para a salada continua a ser uma coisa muito irritante porque torna um processo que tem tudo para ser simples, que é ir comer fora, numa coisa um bocado cansativa. Bom, depois de já dominarmos a problemática da salada eis que somos confrontados com o maravilhoso mundo das ervas frescas.


A invasão das ervas frescas
Ora bem, já vimos que nos restaurantes só podemos comer coisas cozinhadas e que as nossas piores inimigas são as saladas por isso, durante os 9 meses, optamos por legumes cozidos ou arroz. Fácil! Mas e quando toda a comida que nos puseram no prato, legumes e arroz incluídos, vêm com ervas frescas minuciosamente picadinhas por cima? Lá está, o tal universo paralelo que nos tem acompanhado desde os episódios “o mundo encantado de coisas para grávidas” e “o mundo encantado de coisas para bebés”. Aqui também existem dois universos, um em que uma pessoa não grávida pede um prato de arroz e o come sem preocupações e outro em que uma pessoa grávida pede um prato de arroz que vem para a mesa coberto de salsa/cebolinho/coentros/orégãos ou qualquer erva fresca que haja na cozinha naquele dia. Não é incrível? E ninguém nos avisa disto! Os médicos dizem para lavarmos as frutas e legumes e ficam-se por ali. Então e as putas o raio das ervas? Vêm da mesma terra que as alfaces e os morangos e ninguém nos fala dessa epidemia? Sim, porque é uma epidemia. Antes de estar grávida nunca tinha reparado que todos os pratos – todos! - podem vir para a mesa com ervas frescas picadinhas na hora, é só preciso o cozinheiro estar mais inspirado naquele dia e dar-lhe para ali. Querem ver?

Peixe grelhado com batatas cozidas: prato saudável e seguro para grávidas, não fosse chegar à mesa com ar de que um vaso de ervas aromáticas espirrou para cima da comida. É salsa por todo o lado. Pataniscas com arroz de feijão, igual. O arroz vem sempre com salsa acabadinha de picar. Arroz de pato, mais do mesmo. Há sempre um restaurante que acha que, mesmo giro e original, é picar qualquer merdinha ali para cima para dar um ar mais estrela Michelin à coisa.

Só nos dá vontade de chorar de desespero ou de desatarmos aos gritos com o cozinheiro. Em vez disso ficamos 'ssogaditas a olhar para uma coisa que, até ali, nos parecia inofensiva e a tentar arranjar uma estratégia para podermos comer aquilo. "E agora? Mando para trás ou tiro as ervas de cima da comida? E isso será suficiente? Não terá a salsa contaminado já todo o peixe e o arroz com toxoplasma?" Começamos a entrar numa espiral de pensamentos obsessivo-compulsivos e até pomos a hipótese de deixar de ir comer fora coisa que, para mim, esteve sempre completamente fora de questão. 
A minha estratégia foi passar a ter o cuidado de ver as ementas dos restaurantes antes de sair de casa, para saber de antemão o que posso ou não comer, e fazer a advertência “carne bem passada/sem ervas frescas/ sem salada” quando peço qualquer prato. É claro que às vezes a pessoa relaxa, porque não é nenhum robot, e se esquece deste último passo e depois chega à mesa um prato de bacalhau com natas com um montinho de cenoura ralada no meio, só para dar assim um salpico de cor. 
Eu disse que isto era uma epidemia. 
 

Carnes frescas
A secção de enchidos do supermercado. Feiras do fumeiro. Restaurantes de tapas. Tudo coisas ótimas mas que estão completamente off limits para uma grávida. A não ser, claro, que as carnes estejam devidamente cozinhadas. Não há bicho que sobreviva a uma boa cozedura. Inicialmente esta restrição não me fez confusão nenhuma porque também não passava a vida a comer enchidos, mas o que fui percebendo ao longo do tempo é que 9 meses é de facto demasiado tempo para andar a evitar presunto, salpicão, mortadela, farinheira... não é nenhum drama, não é desesperante, não nos estão a tirar nada que seja essencial à nossa alimentação mas... porra, já comia um pãozinho com fiambre, pensei eu um dia ali entre o quarto e quinto mês. Já me tinham dito que os fiambres de frango e perú deviam ser evitados porque não eram cozinhados, eram só fumados, mas ninguém falava do de porco porque a carne de porco tem sempre que ser bem cozinhada, é uma daquelas verdades universais, e portanto o fiambre também passaria por esse processo. Fui à charcutaria, pedi à senhora 150gr de fiambre de porco, com pouca gordura e em fatias fininhas - água na boca - e na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, enquanto me deliciava com uma grande sandocha de fiambre com manteiga, pensava que tinha fintado o sistema. Infelizmente a sensação de vitória não durou muito. Quando me gabei disto a uma amiga o que ouvi foi: "Já pensaste que a lâmina da charcutaria que te cortou o fiambre foi a mesma que, minutos antes, cortou chouriço, presunto, fiambre de perú e todas as outras carnes não cozinhadas?"

Não. De facto isso não me tinha ocorrido.
Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuck!
Esperei pela próxima consulta para esclarecer isto com um profissional de saúde, na secreta esperança que me dissessem que isso era um disparate e que podia comer fiambre à vontade, mas o que me disseram foi que, apesar de ser pouco provável haver contaminação dessa forma, o melhor era mesmo evitar as charcutarias e optar pelos fiambres de porco previamente embalados - vómito - ou então cozinhá-los bem em casa... já me estão a ver a grelhar fiambre em casa de manhã não estão? 
Adeus sandes de fiambre, voltamos a falar daqui a uns meses.

E depois ainda há as frutas
Como assim? Não é só mergulhar as maçãs em Amukina ou tirar-lhes a casca para resolver o problema? Bom, na teoria sim. Mas na prática alguém, um dia, nos conta uma história muito gira sobre a faca que corta a casca ser a mesma que logo depois está em contacto com o interior da fruta e, zás, temos uma maçã contaminada com toxoplasmose e começamos a pôr em causa quão importante é para nós comer melancia ou melão que, até ali, nos pareciam frutas inofensivas porque era só não comer a casca e pronto, mas agora pensamos se não será melhor enchermos a banheira com água, despejarmos 15 garrafas de Amukina lá para dentro e deixarmos as melancias de molho. 

 

Ah, e coisas feitas com ovos crus também é melhor esquecer. Aliás, o melhor mesmo é só comer ovos em casa.
Isto dos ovos foi ainda mais difícil de lidar do que a ideia de não comer sushi durante 9 meses. Vamos lá ver uma coisa: eu a-do-ro ovos. Sou aquela pessoa que vai a um restaurante e quando nada me enche as medidas peço uma omelete de queijo e fico satisfeita. Há quem peça um bitoque, eu peço omoletes. Qual é o problema de comer omoletes fora de casa? Se os ovos estiverem estragados ficamos com uma magnífica intoxicação alimentar, o que já é bastante mau numa situação normal, mas se estivermos grávidas significa ir para o hospital e ficar a soro uma tarde para repor os líquidos que formos perdendo com tantos vómitos e diarreia. Só isto. Não é nada de grave mas se a pessoa poder evitar essa chatice, evita. Isto não é válido apenas para os ovos cozinhados. Tudo o que for feito com ovos crus ou mal cozinhados, tipo mousse de chocolate, bolo de bolacha, tiramisu, lampreia de ovos, qualquer bolo com doce do ovo é melhor deixar para daqui a uns meses. Estão a ver a dificuldade? E nada disto - nada! - vem incluído no discurso dos médicos acerca dos cuidados a ter com a alimentação na gravidez, são as pessoas à nossa volta que nos vão avisando e depois quando o vamos confirmar com os médicos é que eles nos dizem que pois sim, o melhor é deixar os ovos fora do cardápio por uns tempos.

 

Qual é a solução para este pesadelo? Bom senso. Não é suposto sermos prisioneiras das nossas gravidezes por isso, se ajudar, relativizem a coisa. A mim ajuda. Em 31 anos de convivência com gatos e a comer carne, saladas e frutas despreocupadamente - quem nunca comeu um bago de uva por lavar, ou uma cereja, no supermercado para ver se são boas que atire a primeira pedra - nunca fui contaminada com o toxoplasma por isso era mesmo preciso ter muito azar para isso acontecer agora, ainda para mais com estes cuidados todos. Nos primeiros meses isto parece tudo muito avassalador, culpa do nosso desconhecimento e das pessoas alarmistas à nossa volta, mas com o passar do tempo vamos caindo em nós e percebendo que os médicos lá em cima no início do texto até tinham alguma razão: com apenas alguns cuidados corre tudo bem.

07
Jan18

A importância do médico certo

Depois de decidir que queria fazer o parto num hospital público fui-me informar das diferenças entre ser seguida nas consultas de rotina no Serviço Nacional de Saúde e no privado. Para começar há sempre aquelas discrepâncias óbvias de umas serem feitas num centro de saúde, provavelmente num edifício velhinho e algo deprimente, e as outras acontecerem num hospital privado ou clínica de aspeto assim mais fancy, que uma pessoa até se esquece que está no médico, ou dos tempos de espera mais ou menos reduzidos, se bem que neste caso, tanto num como noutro, os tempos de espera são sempre longos. As grávidas são seres muito chatos, com muitas dúvidas. Mas as duas grandes diferenças entre o público e o privado são que no público não há cá contactos trocados entre médicos e pacientes, se têm dúvidas liguem para a Saúde 24 - que eu acho a melhor invenção de sempre. É a next best thing a ter um médico na família a quem se pode ligar a pedir ajuda - ou esperem pela próxima consulta e a frequência com que se fazem ecografias. Numa gravidez normal, sem complicações, seguida apenas no público só se faz uma ecografia por trimestre, ou seja, vemos a criança três vezes ao longo de toda a gravidez. O resto das consultas, feitas mensalmente, resumem-se a conversas com o médico assistente e, a partir de determinada altura, lá pelas 17 semanas, a ouvir o coração da criança com um aparelho. Ora, esta parece ser uma solução para cima de espetacular para grávidas descontraídas, que levam isto tudo na desportiva mas, para mim, a ideia de só ver a minha filha a cada três meses dava-me cabo dos nervos. Se no cardápio há a opção de a ver todos os meses é essa mesmo que eu quero. Houvesse hipótese de a ver todas as semanas e nem pensava duas vezes. Foi principalmente esta diferença que me fez optar pelo privado onde podia ver a pequena cria a nadar alegremente dentro da minha barriga em todas as consultas. Infelizmente isto podia ser assim simplesinho e óbvio mas não é.

 

A primeira consulta de obstetrícia que marquei no hospital privado foi à sorte, com o médico que estava livre mais cedo para me atender, e tive logo um mau pressentimento em relação a isso. Sou aquela nerdzinha irritante que antes de marcar qualquer consulta anda à pesca de referências junto de amigos ou nos milhentos fóruns que populam por essa internet fora. Claro que isto vale o que vale, toda a gente tem dias maus, médicos incluídos, mas eu gosto de partir para as coisas a saber com o que é que posso contar. O problema é que como ainda só tinha contado à família mais próxima, tudo pessoal que é seguido em hospitais públicos, não tinha assim ninguém a quem pedir referências de obstetras por isso não tinha outro remédio senão sujeitar-me à sorte. Ainda me tentei valer do Google mas ele também não foi grande ajuda, o que para começo de conversa não augura nada de bom. Não havia uma única entrada com o nome daquele médico nas primeiras três páginas do motor de busca. Era uma inexistência. E uma pessoa tem de estar muito desesperada para ir além da primeira página, toda a gente sabe disso. Ainda assim fiz um esforço para ir para a consulta de mente aberta. 
Que desilusão.
Calhou-me um médico que estava mais preocupado em atualizar a minha ficha no computador do que em falar comigo, que estava mais preocupado com o peso que eu podia ou não ganhar do que com as 582 dúvidas que eu tinha - deu-me uma folha com uma “dieta” daquelas genéricas, que se passavam em 1987, que dizem que temos de comer de 3 em 3 horas e de fazer 3 lanches por dia que incluíam pão, bolachinhas de água e sal, gelatinas e derivados do leite… ridículo. Ainda pensei explicar-lhe que antes de engravidar seguia uma dieta low carb e que queria recomendações que fossem mais nesse sentido, mas rapidamente percebi que não valia a pena – só dava o contacto dele a partir das não sei quantas semanas porque, coiso, desvalorizou as minhas preocupações, que se calhar até eram de desvalorizar porque eram tontas, mas eu precisava de alguém que me confortasse e me desse confiança e não que me fizesse sentir burrinha, e, o pior de tudo, não fazia ecografias em todas as consultas porque “não há razão médica para isso”. Esta última foi assim um balde de água fria. Estava convencidíssima que no privado se faziam sempre ecografias de rotina mas não, pelos vistos depende do médico. E, claro, tinha-me de calhar um que achava esses "miminhos" completamente dispensáveis, que não entendia que uma grávida, especialmente de primeira viagem, é um poço de ansiedade e que aquele momento em que olha para um ecrã e vê aquele ser pequenino, que depende dela para tudo, é essencial para lhe acalmar o coraçãozinho nervoso.

 

Saí do consultório muito desiludida. Não era nada daquilo que eu queria ou precisava. Se aquela tivesse sido uma simples consulta de rotina e eu só o voltasse a ver dali a um ano estava ótimo! Mas era um obstetra, alguém que eu ia ver todos os meses durante nove meses numa altura única e especial da minha vida onde tudo é novo e bonito e assustador ao mesmo tempo. Se há médico com o qual eu tinha de ter uma relação de empatia e de confiança era com aquele. Claro que sendo eu a pessoa que sou desvalorizei os meus instintos. Achei que estava a fazer uma tempestade num copo de água, que aquilo eram as hormonas a falar e dei-lhe mais uma oportunidade. Voltei lá três semanas depois e... tudo igual. Muito computador, muito acenar de cabeça e aquela escuta ativa vazia, “hum hum”, novamente a porcaria da conversa do peso e um contacto tirado a ferros, quase a pedir por favor. Não, não era, definitivamente, aquilo que eu queria. Este assunto consumiu-me de tal maneira que nessa noite quase não dormi. Queria mudar de médico, queria ser seguida por alguém que me desse confiança, com quem conseguisse ter empatia, que me deixasse à vontade para fazer todas as perguntas que me ocorressem e, sim, queria um médico delicado que falasse comigo com paninhos quentes e não de um bloco de gelo que me tratasse como só mais uma paciente que não podia estar ali mais tempo porque ainda havia muita gente para atender.

Na manhã seguinte levantei-me cedíssimo e fiz o impensável. Fui a um daqueles grupos fechados do Facebook, onde só entram grávidas e mães, e pedi referências de obstetras naquele hospital. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Recebi imenso feedback e dois dias depois tinha encontrado o meu médico. Uma pessoa super calma e paciente, que transmite imensa tranquilidade, que quando está connosco está connosco, não nos está a querer despachar, que explica tudo muito bem explicadinho, que dá logo os contactos na primeira consulta e, a cereja no topo do bolo, faz ecografias em todas as consultas. Era mesmo aquilo que eu queria. Saí do consultório com a certeza de que tinha encontrado a minha alma gémea médica e senti um peso sair-me de cima instantaneamente. Antes da consulta estava um bocadinho nervosa porque não sabia se havia algum protocolo a seguir nestas coisas, se os médicos preferiam não seguir pacientes de outros colegas do mesmo hospital, e continuo sem saber, mas fui muitíssimo bem recebida, expliquei-lhe porque é que estava ali, falei-lhe assim por alto das incompatibilidades que tive com o outro médico e ele simplesmente acolheu-me e tratou-me como se sempre tivesse sido paciente dele.


Isto tudo para dizer o quê? Esta fase da nossa vida é tão especial que eu acho que temos o direito de ser seguidas por alguém também especial, compatível connosco. É a minha profunda convicção. Encontrar o médico certo é quase tão importante e difícil como escolher um marido. Se não tivesse mudado de médico ainda hoje quando fosse às consultas em vez de ir entusiasmada, como vou agora, iria angustiada. E ninguém merece isso. Conheço grávidas para quem isto é secundário mas para mim é essencial ser acompanhada por alguém em quem eu confie e que me transmita segurança. É a diferença entre entrar num consultório esmagada com alguma preocupação que me esteja a consumir e sair igual ou leve como uma pena. Acreditem, chega a ser terapêutico. 

07
Jan18

A importância do médico certo

Depois de decidir que queria fazer o parto num hospital público fui-me informar das diferenças entre ser seguida nas consultas de rotina no Serviço Nacional de Saúde e no privado. Para começar há sempre aquelas discrepâncias óbvias de umas serem feitas num centro de saúde, provavelmente num edifício velhinho e algo deprimente, e as outras acontecerem num hospital privado ou clínica de aspeto assim mais fancy, que uma pessoa até se esquece que está no médico, ou dos tempos de espera mais ou menos reduzidos, se bem que neste caso, tanto num como noutro, os tempos de espera são sempre longos. As grávidas são seres muito chatos, com muitas dúvidas.

Mas as duas grandes diferenças entre o público e o privado são que no público não há cá contactos trocados entre médicos e pacientes, se têm dúvidas liguem para a Saúde 24 - que eu acho a melhor invenção de sempre. É a next best thing a ter um médico na família a quem se pode ligar a pedir ajuda - ou esperem pela próxima consulta e a frequência com que se fazem ecografias. Numa gravidez normal, sem complicações, seguida apenas no público só se faz uma ecografia por trimestre, ou seja, vemos a criança três vezes ao longo de toda a gravidez. O resto das consultas, feitas mensalmente, resumem-se a conversas com o médico assistente e, a partir de determinada altura, lá pelas 17 semanas, a ouvir o coração da criança com um aparelho. Ora, esta parece ser uma solução para cima de espetacular para grávidas descontraídas, que levam isto tudo na desportiva mas, para mim, a ideia de só ver a minha filha a cada três meses dava-me cabo dos nervos. Se no cardápio há a opção de a ver todos os meses é essa mesmo que eu quero. Houvesse hipótese de a ver todas as semanas e nem pensava duas vezes. Foi principalmente esta diferença que me fez optar pelo privado onde podia ver a pequena cria a nadar alegremente dentro da minha barriga todos os meses. Infelizmente isto podia ser assim simplesinho e óbvio mas não é.

 

A primeira consulta de obstetrícia que marquei no hospital privado foi à sorte, com o médico que estava livre mais cedo para me atender, e tive logo um mau pressentimento em relação a isso. Sou aquela nerdzinha irritante que antes de marcar qualquer consulta anda à pesca de referências junto de amigos ou nos milhentos fóruns que populam por essa internet fora. Claro que isto vale o que vale, toda a gente tem dias maus, médicos incluídos, mas eu gosto de partir para as coisas a saber com o que é que posso contar. O problema é que como ainda só tinha contado à família mais próxima, tudo pessoal que é seguido em hospitais públicos, não tinha assim ninguém a quem pedir referências de obstetras por isso não tinha outro remédio senão sujeitar-me à sorte. Ainda me tentei valer do Google mas ele também não foi grande ajuda, o que para começo de conversa não augura nada de bom. Não havia uma única entrada com o nome daquele médico nas primeiras três páginas do motor de busca. Era uma inexistência. E uma pessoa tem de estar muito desesperada para ir além da primeira página, toda a gente sabe disso. Ainda assim fiz um esforço para ir para a consulta de mente aberta. 
Que desilusão.
Calhou-me um médico que estava mais preocupado em atualizar a minha ficha no computador do que em falar comigo, que estava mais preocupado com o peso que eu podia ou não ganhar do que com as 582 dúvidas que eu tinha - deu-me uma folha com uma “dieta” daquelas genéricas, que se passavam em 1987, que dizem que temos de comer de 3 em 3 horas e de fazer 3 lanches por dia que incluíam pão, bolachinhas de água e sal, gelatinas e derivados do leite… ridículo. Ainda pensei explicar-lhe que antes de engravidar seguia uma dieta low carb e que queria recomendações que fossem mais nesse sentido, mas rapidamente percebi que não valia a pena – só dava o contacto dele a partir das não sei quantas semanas porque, coiso, desvalorizou as minhas preocupações, que se calhar até eram de desvalorizar porque eram tontas, mas eu precisava de alguém que me confortasse e me desse confiança e não que me fizesse sentir burrinha, e, o pior de tudo, não fazia ecografias em todas as consultas porque “não há razão médica para isso”. Esta última foi assim um balde de água fria. Estava convencidíssima que no privado se faziam sempre ecografias de rotina mas não, pelos vistos depende do médico. E, claro, tinha-me de calhar um que achava esses "miminhos" completamente dispensáveis, que não entendia que uma grávida, especialmente de primeira viagem, é um poço de ansiedade e que aquele momento em que olha para um ecrã e vê aquele ser pequenino, que depende dela para tudo, é essencial para lhe acalmar o coraçãozinho nervoso.

 

Saí do consultório muito desiludida. Não era nada daquilo que eu queria ou precisava. Se aquela tivesse sido uma simples consulta de rotina e eu só o voltasse a ver dali a um ano estava ótimo! Mas era um obstetra, alguém que eu ia ver todos os meses durante nove meses numa altura única e especial da minha vida onde tudo é novo e bonito e assustador ao mesmo tempo. Se há médico com o qual eu tinha de ter uma relação de empatia e de confiança era com aquele. Claro que sendo eu a pessoa que sou desvalorizei os meus instintos. Achei que estava a fazer uma tempestade num copo de água, que aquilo eram as hormonas a falar e dei-lhe mais uma oportunidade. Voltei lá três semanas depois e... tudo igual. Muito computador, muito acenar de cabeça e aquela escuta ativa vazia, “hum hum”, novamente a porcaria da conversa do peso e um contacto tirado a ferros, quase a pedir por favor. Não, não era, definitivamente, aquilo que eu queria. Este assunto consumiu-me de tal maneira que nessa noite quase não dormi. Queria mudar de médico, queria ser seguida por alguém que me desse confiança, com quem conseguisse ter empatia, que me deixasse à vontade para fazer todas as perguntas que me ocorressem e, sim, queria um médico delicado que falasse comigo com paninhos quentes e não de um bloco de gelo que me tratasse como só mais uma paciente que não podia estar ali mais tempo porque ainda havia muita gente para atender.

Na manhã seguinte levantei-me cedíssimo e fiz o impensável. Fui a um daqueles grupos fechados do Facebook, onde só entram grávidas e mães, e pedi referências de obstetras naquele hospital. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Recebi imenso feedback e dois dias depois tinha encontrado o meu médico. Uma pessoa super calma e paciente, que transmite imensa tranquilidade, que quando está connosco está connosco, não nos está a querer despachar, que explica tudo muito bem explicadinho, que dá logo os contactos na primeira consulta e, a cereja no topo do bolo, faz ecografias em todas as consultas. Era mesmo aquilo que eu queria. Saí do consultório com a certeza de que tinha encontrado a minha alma gémea médica e senti um peso sair-me de cima instantaneamente. Antes da consulta estava um bocadinho nervosa porque não sabia se havia algum protocolo a seguir nestas coisas, se os médicos preferiam não seguir pacientes de outros colegas do mesmo hospital, e continuo sem saber, mas fui muitíssimo bem recebida, expliquei-lhe porque é que estava ali, falei-lhe assim por alto das incompatibilidades que tive com o outro médico e ele simplesmente acolheu-me e tratou-me como se sempre tivesse sido paciente dele.


Isto tudo para dizer o quê? Esta fase da nossa vida é tão especial que eu acho que temos o direito de ser seguidas por alguém também especial, compatível connosco. É a minha profunda convicção. Encontrar o médico certo é quase tão importante e difícil como escolher um marido. Se não tivesse mudado de médico ainda hoje quando fosse às consultas em vez de ir entusiasmada, como vou agora, iria angustiada. E ninguém merece isso. Conheço grávidas para quem isto é secundário mas para mim é essencial ser acompanhada por alguém em quem eu confie e que me transmita segurança. É a diferença entre entrar num consultório esmagada com alguma preocupação que me esteja a consumir e sair igual ou leve como uma pena. Acreditem, chega a ser terapêutico. 

02
Jan18

Público ou privado?

Ainda antes de engravidar o assunto parto no público vs privado já era coisa que me ocupava os pensamentos. Sou uma pessoa que gosta de planear, o que é que querem?
Há já alguns anos, graças ao seguro oferecido pela empresa, que não punha os pés num centro de saúde ou num hospital público, vou a todas as consultas no privado e gosto muito, mas, por alguma razão, fazer um parto no privado nunca me falou ao coração. Ter bebés num hospital público sempre me pareceu o mais lógico a fazer. É gratuito, são sítios que recebem mais pessoas, logo mais casos diferentes, que o privado, as equipas também são muito experientes, se houver algum problema também têm capacidade de resposta para o resolver... a questão para mim sempre foi "porque não fazer um parto no público?".
É verdade que os hospitais públicos são velhos e não têm aquele aspeto de hotel característico de um privado mas, caramba, estamos a falar de um parto, de fazer nascer um ser humano, e não de uma escapadinha romântica. Quão mau pode ser partilhar um quarto com três pessoas que acabaram de passar pelo mesmo que eu durante 48h? Na verdade o que realmente me importa é que ela nasça num sítio seguro, com pessoas experientes, que saibam o que estão a fazer e que cuidem de nós o melhor possível e isso eu sei que posso encontrar tanto num sítio como noutro. Tudo o resto, o quarto privado, o ter o pai da criança a dormir ao lado da minha cama por duas noites, a liberdade de poder escolher como e quando é que ela nasce - que até é uma coisa que não quero ser eu a decidir - é secundário. Para mim.

 

Ainda assim, quando começámos a pensar em engravidar, o assunto voltou a ser posto em cima da mesa. Como o meu seguro não cobre partos ainda pensei fazer um só para isso, para poder ter o conforto desse plano B mas, a verdade, é que sempre tive sentimentos muito ambivalentes em relação a isso. Por um lado, a ideia de fazer o parto com o médico que me segue desde o início da gravidez, ter um quarto só para mim para passar aqueles dois dias do pós-parto e poder dar-me ao luxo de optar por uma cesariana se perto da hora H me acagaçasse toda parecia-me ótimo. Por outro, achava um preciosismo desembolsar 40 ou 50 euros todos os meses que me iriam fazer imensa falta durante, no mínimo, um ano, porque estas coisas têm sempre períodos de carência enormes, por uma coisa que o nosso santo SNS me disponibiliza gratuitamente. Para além disso não sabia se ia ser fácil ou difícil engravidar, mas sabia que se ao fim de um ano, por exemplo, a coisa ainda não se tivesse dado e eu ainda estivesse a pagar todos os meses um montante simpático para poder fazer um parto num sítio tipo hotel quando ainda nem sequer estava grávida isso só me iria causar tristeza e pôr ainda mais pressão numa situação já de si delicada. Esta questão foi, sem dúvida, o deal breaker. Problema resolvido em três tempos: o parto será num hospital público e não se fala mais nisso. É à confiança!


Porém, isto da gravidez é um assunto muito complexo e tem muito que se lhe diga. Se optar pelo parto no público até foi uma decisão bastante fácil de tomar o mesmo não posso dizer em relação à escolha do médico para me seguir nas consultas de rotina. Mas isso fica para outro post.

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