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zona de desconforto.

zona de desconforto.

30
Abr18

O parto - III

Segunda parte aqui.

 

"Nove dedos de dilatação. Já estou a sentir a cabeça da bebé."


A minha ideia de fazer o trabalho de parto sossegada na sala apropriada, com acesso a bola de pilates, música relaxante e média luz tinha acabado de ir por água abaixo. Fiz todo o período de dilatação na sala de CTG, sem qualquer privacidade e, pior, sem anestesia!, e nem tinha tido tempo de entregar às enfermeiras o plano de parto que escrevemos com tanta dedicação semanas antes. Naquele momento passaram-me pela cabeça os tópicos todos: período expulsivo numa posição o mais vertical possível para a gravidade ajudar - agora, quatro semanas depois, isto dá-me vontade de rir. Duvido que me conseguisse manter noutra posição que não a deitada -; não quero oxitocina para acelerar o parto - pelos vistos também não era preciso; quero receber epidural; não quero episiotomia por rotina, só se for ultra necessário; quero que o cordão umbilical pulse até ao fim; quero ajudar na saída do corpo dela; quero ser informada de todos os procedimentos médicos e suas alternativas... tinha a lista toda na cabeça, mas quando a médica disse que já conseguia sentir a cabeça da bebé só me saiu um dos tópicos que, na verdade, era o mais importante naquele momento: "Quero epidural. Ainda há tempo?" A médica disse que talvez sim e aquele "talvez" matou-me. Se já não conseguia suportar as dores das contrações nem queria pensar no que seria se tivesse de sentir as dores do período expulsivo. 

"Vá querida, agora levante-se e deite-se aqui". Para sair do consultório e entrar na sala de trabalho de parto, que era na porta logo ao lado, tive de passar da marquesa onde estava para outra, móvel, que já ali estava à minha espera com uma das enfermeiras que ia acompanhar o resto do processo. E quem é que diz que eu me conseguia levantar de onde estava? Porque é que a pessoa é obrigada a tantos movimentos quando está cheia de dores? Porquê? Tiveram de juntar as duas camas e eu lá me arrastei de uma para a outra, tipo lesma. Assim que saímos do consultório comecei a sentir uma pressão no ânus. Era a bebé a querer sair. 
Quando entrei na sala de trabalho de parto só me lembro de ver imensa gente a fazer imensa coisa. A vestir batas, a pôr máscaras, a mexerem em tubinhos e tauleiros de metal, a falarem comigo, "Não faça tanta força na mão!" - era uma enfermeira a tentar pôr-me o cateter do soro na mão direita que eu tinha fechada com tanta força que sentia as unhas cravarem-se na palma da mão, tal eram as dores que eu tinha.

"É preciso epidural aqui?", tinha chegado o anestesista, thank God! Ajudaram-me a deitar de lado, em posição fetal, para receber a epidural e a pressão no ânus continuava... comecei mesmo a ficar assustada. "Tenho vontade de fazer força, tenho vontade de fazer força", dizia. A administração da anestesia foi feita num instante, tinha medo que doesse mas, honestamente, nem a senti. Provavelmente por estar cheia de dores das contrações, que rapidamente se começaram a dissipar. Mas a pressão continuava e eu a avisar que tinha vontade de fazer força. "Vamos acabar já com isto! Ponha aqui os pés!". Nisto entra o senhor esposo na sala. Aproximou-se e perguntou, amoroso: "Então, vai começar agora?", "Começar? Não. Já está a acontecer!", "Já está a acontecer? Ela já está a sair?". Sim, estava! 

O resto foi muito rápido. A enfermeira explicou-me como fazer força: sempre que sentisse a tal pressão, a tal vontade de evacuar, tinha de fazer força. Parece simples mas aquilo tem técnica e nem sempre é fácil de pôr em prática. Fiz força cinco ou seis vezes e acho que três delas foram mal feitas. Não a estava a conseguir empurrar para fora de mim. Não dei conta mas o meu homem disse-me, depois, que a certa altura houve uma troca de olhares entre as enfermeiras como quem diz "Esta miúda não vai conseguir fazer isto sozinha. Tragam os forceps!", mas a que estava a liderar as tropas lá me deu mais uma oportunidade e a coisa deu-se sem recurso a instrumentos. Da última vez que fiz força lembro-me de sentir um ligeiro alívio e logo a seguir ouvi um choro. Era ela! "Mãe, quer vir buscar a sua menina?" Sim! Queria! Estava meio abananada mas queria. Queria muito. Levantei o tronco e vi-a pela primeira vez, toda inchadinha e pegajosa, coitadinha. Pus as mãos por baixo das axilas dela e trouxe-a para o meu peito. Foi a melhor sensação da vida. Eu, que sempre fiquei intimidada pelos bebés alheios, tão pequeninos e frágeis, com aqueles choros estridentes horrorosos, tinha deitado isso tudo pela janela e ajudado na extração do corpo da minha filha e agora tinha-a ali, comigo, sossegadinha no meu peito.

Depois de pesada, medida e limpa voltaram a colocá-la no meu peito e a equipa saiu toda, exceto a enfermeira que fez o parto que ainda ficou ali para me remover a placenta e cozer o períneo. Não foi a meia-hora mais confortável - ter alguém a tirar-nos a placenta significa que há uma mão dentro do nosso corpo e outra a pressionar-nos a barriga como se estivesse a empurrar os nossos orgãos cá para fora. Uma violência - mas tê-la ali deitada no meu peito e estarmos os três num namoro pegado ajudou bastante. 

 

Sei que tive sorte por tudo ter acontecido em 2h30 - e não em 12h como a minha amiga da sala do CTG - mas na minha ótica, sofri imenso! Imaginem o que é estar 2h30 com dores que nos impedem de falar e nos cortam a respiração, não é propriamente uma ida ao spa. Porém, tendo em conta as histórias de terror que fui ouvindo durante a gravidez, só me posso dar por feliz por esta ser a minha história. Correu tudo muito bem, foi rápido, nunca tive medo - tirando aquela cagufazita de não ir a tempo de levar anestesia - senti-me sempre segura e em boas mãos e gostei imenso das condições do hospital.

23
Abr18

O parto - II

Primeira parte aqui.

 

Felizmente não foi uma dor lancinante como eu temia, assemelhava-se mais àquelas moinhas que sentimos na barriga e na zona lombar quando nos está para aparecer o período - que eu, curiosamente, já não sentia há anos -, perfeitamente suportável. Fiz download de uma aplicação para monitorizar as contrações e esperei.

Entre as 6h e as 8h da manhã o intervalo entre elas variava entre 1 e os 18 minutos. Estava claramente a anos luz do 511 e as dores continuavam a assemelhar-se às tais cólicas menstruais. 
Entre as 8h e as 10h os intervalos começaram a ficar mais curtinhos, entre os 3 e os 8 minutos, as dores estavam um bocadinho mais fortes, mas ainda eram suportáveis, e as contrações não chegavam a 1 minuto. Fui tomar um banho, maquilhei-me, porque caso a coisa se desse naquele dia eu queria estar em bom, e fui-me deitar no sofá a ver televisão para me distrair.
Às 11h30 comecei a ficar com fome e pedi ao meu homem para ir ao McDonald's comprar uns hambúrgueres para o nosso almoço. Ao meio-dia, quando ele chegou com os Big Mac's, as contrações já vinham com intervalos entre os 2 e os 4 minutos, a dor estava mais intensa, a fome começou a passar para dar lugar a uma indisposição generalizada, sentia-me enjoada, mas continuavam a ser contrações curtinhas, de 30 ou 40 segundos. Pensei que não estava a ter contrações eficazes, que aquilo ainda era o aquecimento, mas como já me estava a sentir desconfortável achámos melhor borrifarmo-nos para o 511 e ir para o hospital depois do almoço. Nem consegui acabar de comer.

Dei entrada na urgência obstétrica pelas 13h. As contrações continuavam curtas mas as dores já me impediam de falar, só me conseguia concentrar nas respirações. Chamaram-me uns 10 minutos depois.
Expliquei à médica que já ali tinha estado naquela madrugada e qual a evolução das coisas até ali. A obstetra olhou para mim e disse que provavelmente também ela me iria voltar a mandar para casa, que, pela minha postura, não parecia que já tivesse entrado em trabalho de parto. "Sabe que estas coisas às vezes demoram dias" disse ela. "Mas deite-se na marquesa para eu lhe fazer o toque e ver em que pé estamos." O momento seguinte foi de déjà vu: a médica fez o toque que eu, novamente, não senti, graças a Deus - a sério, ouvi tantas coisas más sobre o toque que estava atormentada por ele - ela franziu o sobrolho e perguntou: "Não tem dores?". "Tenho umas moinhas, tipo cólica menstrual mas mais forte. Olhe, agora estou a ter uma". A médica olhou para mim e riu-se: "Tem uma elevada resistência à dor sabia? Está a caminho dos dois dedos de dilatação. A maioria das mulheres, nesta altura, já está a pedir anestesia." Ele há coisas! Eu que sempre me tinha tomado por caguinchas estava ali a aguentar estoicamente o início do trabalho de parto. Como só me podiam internar quando tivesse os dois dedos de dilatação completos, fui para a sala do CTG para fazer tempo até ter a dilatação necessária para dar entrada na sala de trabalho de parto. 

As dores, as tais moinhas como eu as descrevia, que minutos antes eram suportáveis, tornaram-se galopantes na intensidade e os intervalos entre elas passaram a ser de segundos - sim, s e g u n d o s . As respirações que me tinham ensinado no curso passaram de inspirações e expirações delicadas para sopros sonoros. A certa altura durante uma contração senti um líquido a sair-me do corpo. "Deve ser o resto do rolhão mucoso". Segundos depois, nova contração e novo jato de líquido a inundar a cadeira cadeira do CTG. Segundos depois a mesma coisa. Tinha as calças empapadas. Levei a mão à zona das virilhas, olhei e não vi sangue, era um líquido transparente e gelatinoso. "Rebentaram-me as águas!" Chamei a enfermeira e a gemer perguntei-lhe se era possível que me tivessem rebentado as águas ali. Ela confirmou. "Vá à casa de banho tomar um duche e vista esta bata. Mesmo que ainda não tenha os dois dedos completos já não sai daqui. Tem a bolsa rebentada."

 

Desatei a chorar. 

 

A enfermeira, aflita, perguntou-me o que se passava. Não sabia. Não sabia o que se passava. Estava cheia de dores, mal conseguia falar, precisava muito de uma anestesia, a minha filha estava a chegar, era mesmo verdade, estava mesmo a acontecer e eu ali sozinha, na sala de CTG, sem saber gerir isto tudo. Precisava de colo. Arrastei-me até à zona do duche e ao contrário do que seria de esperar a água quente não ajudou grande coisa, as dores eram insuportáveis. Sequei-me. Foi um filme para vestir a porcaria da bata, ficava paralisada de dor a cada contração e a bata parecia ter mil atilhos impossíveis de atar - mais tarde percebi que eram só dois -, quando saí da casa de banho já tinha o meu homem à minha espera na sala de CTG, para onde regressei. "Vamos ficar aqui só mais um bocadinho porque a Dr.ª está a almoçar e só ela é que pode dar o OK para o internamento", disse a enfermeira. Ela era amorosa, mas só me apetecia dizer asneiras. Como assim a médica foi almoçar? Não há mais ninguém que possa fazer isso para acabar com este tormento?

Na mesma sala onde estávamos tinha acabado de entrar outra mulher para fazer CTG. Estava de 40 semanas, segunda gravidez, frustradíssima porque não tinha contrações e estava farta de estar grávida. E eu cheia de dores. Contorcia-me na cadeira, a cada contração fechava os olhos e cravava as unhas na espuma do cadeirão. Parecia possuída. De repente ouvi do outro lado da sala: "Coitadinha, isso dói imenso não é? Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas!", era a grávida das 40 semanas sem contrações. Só me apeteceu vomitar. Doze horas? Mas alguém consegue estar neste estado 12 horas?  "Aproveite para beber água agora que quando der entrada na sala de trabalho de parto já não a deixam beber nada. Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas e só queria beber água e não podia". Queria matar aquela mulher. Sempre que ela dizia "12 horas" sentia vontade de chorar e vomitar ao mesmo tempo.

 

A enfermeira regressou. A médica tinha, finalmente, acabado de almoçar e já me podia fazer o toque. Foram precisas duas pessoas para me ajudarem a levantar do cadeirão do CTG. Mal conseguia andar com as dores.
Tinham passado 2h desde que tinha dado entrada nas urgências.
Deitar-me na marquesa parecia, agora, impossível. As dores eram insuportáveis. Não conseguia pensar, não conseguia respirar, pedirem-me qualquer tipo de movimento naquela situação parecia-me tortura. Lá me consegui deitar e lembro-me de desejar com muita força já ter os dois dedos completos para poder dar entrada no internamento e ter acesso às drogas todas.

 

A médica sorriu.
"Então, já tenho os dois dedos de dilatação completos?", gemi.
"Dois? Tem nove!"
"NOVE?"

18
Abr18

O parto - I

A partir das 37 semanas entrei em modo "are we there yet"? O desconforto causado pelo peso da barriga, as dores para me levantar, os números na balança que aumentavam a cada semana - li algures que no final da gravidez o aumento de peso estagnava mas, no meu caso, foi a altura em que engordei mais -, o já não ter nada para vestir... era oficial, estava pronta para conhecer a minha filha. Fiz as malas para a maternidade, tirei o verniz das unhas e esperei. 


Na madrugada em que completava as 39 semanas acordei para ir à casa de banho e vi que tinha sangue rosado nas cuecas. O coração disparou mas tentei manter a calma e recordar o que me tinham ensinado no curso. "Deve ser o rolhão mucoso." Se fosse não queria dizer nada. O parto podia acontecer dali a umas horas ou dali a uns dias. Ainda assim, e como não faz parte do meu feitio estar grávida em fim de tempo, ver sangue e voltar para a cama como se nada fosse, liguei para a Saúde 24 para tirar teimas. A enfermeira passou logo a chamada ao INEM para me virem buscar de ambulância mas eu recusei. Tinha o pai da criança ao meu lado, eram 3h da manhã, não havia trânsito, eu sentia-me bem, por isso estavam reunidas as condições para chegarmos ao hospital num instante sem sobressaltos. 


A minha ideia romântica da entrada em trabalho de parto era começar a sentir pequenas contrações fofinhas a meio da tarde, o que me daria tempo para tomar um banho relaxante e maquilhar-me para ficar bem nas fotografias que o meu homem me ia tirar na sala de trabalho de parto enquanto eu fazia respirações na bola de pilates - até comprei máscara de pestanas à prova de água especialmente para aquela ocasião - mas, naquele momento, não houve paciência para nada disso. Comecei a tremer tal era a ansiedade e só queria chegar ao hospital para ser vista e ter a certeza que estava tudo bem. Vesti a primeira coisa que me apareceu à frente, acho que nem as lentes de contacto coloquei e 'bora lá para a maternidade do Hospital São Francisco Xavier.
Quando chegámos as urgências estavam às moscas, uma calmaria, tão bom. Era mesmo daquilo que eu precisava. Fui chamada em menos de nada, a obstetra pediu-me para me deitar na marquesa e elevar as pernas para ela me fazer o toque. O TOQUE! Desde as 37 semanas que andava a temer o toque que toda a gente dizia que doía horrores. Gelei. Ela colocou-se à minha frente, as mãos desapareceram no meio das minhas pernas e... não senti nada. A médica franziu o sobrolho.


"Não tem dores?"
"Não. Porquê?! O que é que se passa?"
"Está a entrar em trabalho de parto! O sangue que viu foi uma parte do rolhão mucoso que saiu mas já tem o colo do útero muito fininho. Deve estar prestes a iniciar a fase de dilatação."


Oh. Meu. Deus.
Como assim estou a entrar em trabalho de parto?! Onde estão as contrações que eu não as sinto?! Querem ver que a primeira contração que vou sentir vai ser tão forte que me vai mandar ao chão e eu nunca mais me levanto? Onde está o 511 tantas vezes falado nas aulas de preparação para o parto - contrações de 5 em 5 minutos, com a duração de 1 minuto, durante 1 hora?!
Fui fazer um CTG para saber a frequência das contrações e em meia hora tive três. Sem dor. Apenas três contrações iguais às que tive durante grande parte da gravidez. A obstetra mandou-me para casa descansar e regressar quando sentisse contrações com dor com intervalos de 5 minutos. Mas avisou-me logo que aquilo era capaz de demorar, que se calhar só no dia seguinte ia sentir necessidade de regressar às urgências. Por outro lado o enfermeiro que estava na sala do CTG - um querido, muito simpático - estava mais otimista: achava que no final daquela manhã eu ia voltar e só iria sair já com a cria nos braços. Os dados estavam lançados. 


Regressámos a casa mas claro que eu não descansei nada. Quem é que consegue dormir naquela situação?! A resposta é simples: o meu homem. O meu homem consegue. Conseguiu dormir um sono reparador de cinco horinhas, benzódeus. Já eu estava na cama de olho aberto e a sentir a realidade descer sobre mim: está quase, está quase, ela está quase a chegar! As contrações que senti na sala do CTG continuavam mas sempre sem dor. Farta de estar ali deitada levantei-me, fui tomar o pequeno almoço, liguei a televisão, fiz zapping e por volta das cinco da manhã... senti a primeira contração com dor.

02
Abr18

O 3.º trimestre

Entrámos na reta final! Ontem caiu-me a ficha: esta é a última semana! A última antes do grande dia, a última semana antes da data prevista para a cria nascer! Claro que ela ainda pode ficar cá dentro até às 41, no quentinho, mas eu espero que venha, o mais tardar, no dia previsto, pontual como a sua rica mãe. Quando penso nisso até se me dá aqui um friozinho na barriga. A partir de agora é só mesmo esperar.

 

 

O melhor do último trimestre

A minha barriga
Nos últimos dois meses a barriga assumiu todo um protagonismo que até aqui não tinha. Se até ali às 30 semanas ainda passava despercebida a algumas pessoas mais distraídas, a partir dessa altura perdeu a vergonha e deu um senhor salto! Com isso surgiram novos desafios: a minha passada, que sempre foi rápida, passou a estar ali ao nível da de uma tartaruga, comecei a ter sensações de falta de ar, calçar ténis passou a ser um desafio digno dos Jogos sem Fronteiras - a sério, a luta é real - e às 35 semanas a barriga começou a dar, oficialmente, noites difíceis e passámos a ser três na cama: eu, o meu homem e uma almofada de amamentação. Quem diria que uma estranha almofada em forma de U podia dar tanto jeito! Apesar de não me sentir nada sexy tenho muito orgulho na minha barriga e fico toda contente quando metem conversa comigo acerca da gravidez - FYI: a gravidez é o melhor desbloqueador de conversa de sempre.

Grandes rambóias no ventre
No primeiro e segundo trimestres aquilo que mais ansiedade me causava era a irregularidade com que sentia os movimentos da bebé - ou não sentir de todo, no caso dos primeiros meses. Estive "a isto" de comprar um daqueles dopplers para ouvir o coração dela quando bem entendesse só para ter a certeza que estava tudo bem, que isto de só ter consultas de mês a mês dava-me cabo dos nervos. Mas a partir do momento em que a comecei a sentir todos os dias e a detetar os padrões de movimento transformei-me numa grávida muito mais serena. Agora, no terceiro trimestre, os movimentos dela passaram de grandes cambalhotas para movimentos mais lentos que se vêem perfeitamente por baixo da pele, sinal de que a casa está a ficar pequena. É muito giro e tranquilizador. Mas nem tudo são rosas, que isto às vezes também aleija. Como quando a criatura estica os joelhos ou os cotovelos, eu sei lá, até não poder mais. Parece que me vai rasgar a pele, credo! Mas prefiro mil vezes isto à pasmaceira dos primeiros meses em que uma pessoa quase tem de estar a meditar para sentir qualquer coisinha para depois ainda ficar na dúvida se serão gases ou se foi o bebé a treinar um encarpado.


Soluços fetais

Fui apresentada aos adoráveis soluços dos bebés, que parece que é uma coisa banalíssima, fazem todos o mesmo. Todos os dias, pelo menos duas vezes, temos direito a grandes sessões de soluços.


Pele imaculada - bem, mais ou menos
Nos posts dedicados aos outros trimestres queixei-me do estado miserável da minha pele, que ficou com acne ligeira mas persistente, a cabra, depois de ter deixado a pílula. Finalmente, no terceiro trimestre, fui bafejada com uma pele livre de borbulhas! Que felicidade! Livre de borbulhas não significa livre de marcas. Todas as borbulhinhas que habitaram nas minhas bochechas durante meses deixaram pintinhas rosadas que não há meio de desaparecerem. Mas antes pintinhas que borbulhas horrorosas. Sei que é sol de pouca dura, que quando as hormonas de gravidez forem à sua vida vai tudo voltar ao mesmo - até porque tomar contracetivos hormonais, que deixam, efetivamente, a pele imaculada mas adormecem por completo o nosso corpo e, por conseguinte, a consciência que temos dele, já foi chão que deu uvas e nem quero ouvir falar disso -, mas por enquanto vou aproveitar estas últimas semanas de despreocupação com a pele.

 

Zero estrias
Apesar do aumento repentino da barriga as estrias não apareceram, não sei se por mérito do creme da Barral com óleo de amêndoas com que me besunto todas as noites, se por o flagelo das estrias não correr nos genes da minha família. Esperemos que tenha a mesma sorte no que toca à flacidez...

 

Umbigo para dentro
Há quem tenha fobias com pés, há quem não suporte que lhes toquem nas orelhas, a minha pancada é com o umbigo. Sempre foi uma bolinha enfiada para dentro, bonitinho e discreto, e eu sempre fingi que ele que não existia. Não gosto de lhe tocar, não gosto da sensação, e não aguento aquelas pessoas que tiram prazer de ter o indicador às voltas dentro do buraco do umbigo ou que fazem piercings naquela zona - arrepio. Acho que me ia fazer imensa impressão se, de repente, a minha barriga vomitasse o umbigo cá para fora - pausa para sentir pequeno suor frio. Felizmente não aconteceu, só ficou plano nada de mais, o que me permitiu continuar a fazer o que sempre fiz: a ignorá-lo.

 

Lavar roupa
Confesso que zerar o cesto da roupa suja me dá especial satisfação. Grávida ou não. Fico com nervoso miudinho quando chove por dias seguidos e a roupa se acumula dentro do cesto ao ponto de transbordar e de repente haver meias em cima da tampa por já não caberem lá dentro. Até se me dão uns tremeliques na vista esquerda. Mas agora refiro-me ao prazer de lavar roupinhas de bebé. Ver bodies, babygrows, vestidinhos, casaquinhos de malha e meias minúsculas ali tudo às voltas no tambor da máquina em grande folia foi o momento alto daquele dia. Até gostei de lhe passar a roupa a ferro, tarefa que eu odeiooooo. Tratar da roupa dela foi um marco cá em casa, do género "Ok, agora está mesmo quase". Senti o mesmo quando, às 37 semanas, fiz as malas da maternidade.

 

O pior, ou menos bom vá

O peso
A desgraça não tem sido grande mas é sempre difícil lidar com os números a mais na balança, especialmente quando deixam de nos ser familiares. Já conto com mais 10.5 kg no lombo. No início do oitavo mês ainda conseguia enfiar as pernas na maior parte das minhas calças pré-gravidez, mas agora já não passa quase nada nestas coxas. Escapam dois pares de calções de ganga e duas calças. Como já sei que isto vai ser um problema depois de ela nascer, porque me vou recusar a usar calças de grávida não estando grávida, já tenho toda uma lista de peças que acho que se vão adaptar bem ao meu novo corpo e que vou encomendar assim que tiver oportunidade: calças básicas um tamanho acima e vestidos, camisas e tops com botões amigos da amamentação.
Houve uma noite em que navegava alegremente pelo site da Zara e, de repente, fui esmagada por um camadão de culpa - ah, a culpa materna começa tão cedo, tão bom... - por estar a pensar no pós-parto como uma oportunidade de ir às compras em vez de estar a refletir seriamente sobre o quão maravilhosos e difíceis vão ser os nossos primeiros tempos de adaptação a um bebé. Mas também me passou depressa! Olhar-me ao espelho e sentir-me bem com o que vejo pode muito bem ser meio caminho andado para ser uma mãe mais bem disposta, equilibrada e menos nervosinha. Ou assim espero.

 

As dores
Ali perto do final do segundo trimestre comecei a ter umas dorzinhas ocasionais nos ossos das virilhas quando me levantava ou quando me queria virar na cama. Agora sempre que me quero levantar da cama de manhã, ou do sofá, ou de uma cadeira onde estive sentada uns míseros 10 minutos sinto com cada guinada que até ando de lado. O mais difícil é mesmo levantar-me da cama, exige toda uma preparação mental antes. Parece que sinto os ossos a abrir, é muito estranho. A parte boa é que basta dar três ou quatro passos para o desconforto desaparecer.

 

No big boobs for you
Cadê aquele mamaçal gigantesco que eu estava preparadíssima para exibir por baixo da roupa? Por aqui as madames ficaram mais ou menos na mesma. Aumentei um número de sutien e já gozei. Humpf, que miséria.

Despertares noturnos
Sei que há mulheres que ficam com a bexiga do tamanho de um bago de arroz que as obriga a correrem para a casa de banho aflitas para depois fazerem duas miseráveis pingas de urina, mas por aqui o tamanho da bexiga, à semelhança do tamanho das mamas, continua mais ou menos o mesmo. Apenas noto que me passei a levantar pelo menos uma vez durante a noite, quase sempre à mesma hora, com a bexiga cheia como se tivesse bebido 1,5l de água meia-hora antes, logo eu que tenho sempre tanto cuidado para não beber muita água ou chá à noite. As famosas insónias de gravidez também me bateram à porta. Recordo uma noite particularmente incrível em que acordei às 4h da manhã e nunca mais consegui dormir. Às 6h andava a arrumar a cozinha. Há meses que não sei o que é dormir uma noite inteira - nada que se compare ao que aí vem, bem sei - mas, em contrapartida, tenho dormido grandes sestas durante a tarde que me sabem pela vida.

A ansiedade
Sou uma pessoa naturalmente ansiosa e com a gravidez isso agravou-se, especialmente nos primeiros meses em que é tudo novo e parece ser tão frágil, mas com o avançar do tempo sinto-me cada vez mais serena. Tenho cá as minhas dúvidas e preocupações mas já não fico consumida dos nervos à mínima coisa. Tenho muitas perguntas que ainda não têm resposta, especialmente relacionadas com a amamentação e o choro do bebé, mas essas questões não são movidas pela ansiedade mas antes pela minha curiosidade natural e vontade de querer saber mais sobre determinado assunto até sentir que o tenho dominado e compreendido a 100%.

 

Sistema imunitário fraquinho
O meu sistema imunitário andou pelas ruas da amargura. Eu que raramente ficava doente, na gravidez tive direito a uma faringite e duas contipações valentes, uma delas com direito a febre e tudo. E como só podemos tomar aquela bomba que dá pelo nome de Ben-u-ron temos de arcar com os sintomas todos e esperar que passem. Nice!


A impossibilidade que é estar parada em pé
Desde o dia seguinte a ter descoberto que estava grávida até agora, estar em pé parada tem sido um martírio. Não interessa se estou aborrecidíssima na fila do supermercado ou em amena cavaqueira com alguém. Dois minutos parada em pé e começo a ter palpitações, a deixar de ouvir, a ter suores frios e aquela sensação horrível de desmaio. Ou estou em movimento ou tenho de me sentar. Abençoada lei da prioridade que me tem safado tantas vezes.

 

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