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zona de desconforto.

zona de desconforto.

11
Jun18

Ah, então amamentar é isto!

Muito antes de engravidar, quando me comecei a interessar mais por isto dos bebés, li imenso sobre amamentação. Artigos mais científicos, testemunhos de quem o tinha feito e correu lindamente, testemunhos de quem tenha odiado todos os minutos e também de quem nunca tenha, sequer, tentado. Depois de ler muita coisa decidi que amamentar não era para mim. Não queria passar por aquele sofrimento inicial, comum a tantas mulheres, e a ideia de mais ninguém poder alimentar o bebé para além de mim também não me entusiasmava. A vida dos pais que alimentavam os bebés a leite adaptado parecia-me infinitamente mais fácil: uma noite ficava um de plantão e na noite seguinte ficava o outro. Saía mais caro mas, na minha perspetiva, as horas de sono compensavam. Para além disso conhecia imensas mulheres que optaram pelo leite adaptado e as crianças delas estavam ótimas. Aliás, o pai da minha criança nunca bebeu leite materno e, para além de duas hérnias discais, é saudável que nem um pêro e é das pessoas mais inteligentes que conheço. Uma jóia de moço! Portanto, estava mais que decidido: não ia amamentar. Entretanto engravidei e mudei de ideias! As hormonas fazem isso a uma pessoa. Decidi que ia tentar, sem pressão. 


Ao longo dos nove meses voltei a ler muitos testemunhos de mulheres que amamentavam, falei com muitas amigas que amamentaram, enchi os meus favoritos de sites sobre o tema e reuni alguns contactos de Conselheiras em Aleitamento Materno (CAM's). Deus me livre de estar a passar por dificuldades e não saber para onde me virar. Saber a quem recorrer numa altura de maior desespero acalmava-me. Umas semanas antes do parto achava que estava preparada para o pior, ou seja, para as dores dos mamilos em ferida e para as mastites. Mal sabia eu o que o meu maior desafio nisto da amamentação não seriam as dores físicas mas a pressão psicológica.


Começámos logo em grande! Ela nasceu às 16h10 e às 23h já eu estava a enviar mensagens por Whatsapp ao meu homem a queixar-me de dores nos mamilos. Às 8h da manhã, depois de ela ter passado 2h na mama nessa madrugada, tinha os mamilos em ferida. As dores, sempre que a punha à mama, eram perto do insuportável, quase tão angustiantes como as dores do parto, e eu tenho uma resistência à dor acima da média! Sempre que ela começava a acordar para mamar eu tremia só de pensar nas dores que me esperavam. Sofria por antecipação a cada mamada.

Na primeira semana tentei tudo: Purelan, discos de hidrogel, passar leite materno nos mamilos, conchas, mamilos de silicone. Nada resultou. Os mamilos continuavam em sangue e sempre que ela pegava no peito eu encolhia-me toda. Até que descobri o Bepanthene eritema da fralda. Foi o que me salvou. Depois de cada mamada punha uma camada generosa da pomada e andava com o peito ao ar o máximo de tempo que conseguisse , o que era uma tortura porque estávamos no início de abril mas mais parecia janeiro, tal era o frio. Em dois ou três dias os mamilos começaram a sarar. Foi m i l a g r o s o! Pelo meio deu-se a subida de leite que, felizmente, não foi nada dolorosa, só dei conta porque um dia quando acordei senti duas bolas grandes do lado de fora de cada mama, junto às axilas. Já estava preparada para aquilo e sabia que tinha que tentar desfazer os durões no banho com água quente, mas isso é mais difícil do que parece. Imaginem o quão agradável deve ser sentir água quente a cair em esguicho em cima de mamilos em ferida. Dói. Muito.

 

Tratei as feridas ao fim de primeira semana, mais ou menos, - não me canso de recomendar o Bepanthene a futuras mães - e quando pensei que as coisas finalmente iam normalizar começaram as pesagens semanais no Centro de Saúde. Na segunda semana ela engordou o equivalente ao que devia ter engordado em dois dias. Quando disse à enfermeira que ela mamava durante seis ou sete minutos em cada mama ela arregalou-me muito os olhos. "Isso é pouquíssimo tempo! Tem de ser, no mínimo, 15 minutos em cada mama." Saí do Centro de Saúde com a recomendação para acordar a bebé a cada 2h para mamar 15 minutos em cada mama. Foi a semana mais cansativa de todas até agora. Custava-me imenso acordá-la de 2h em 2h e apanhava um camadão de nervos quando via que ela ao fim de três ou quatro minutos parava de mamar e adormecia. Era desesperante. Eu e o pai faziamos-lhes festas nos pés, nas bochechas, no queixo, mexiamos-lhe nas mãos mas ela não acordava. Só nunca a despi, outra dica da enfermeira, porque achava que aquilo já seria um exagero. Estava demasiado frio e ela era tão pequenina que me parecia uma maldade enorme estar a deixá-la desconfortável só para acordar e mamar mais 10 minutos.

Lembro-me perfeitamente de uma noite em que, mais uma vez, ela mamou cinco ou seis minutos e depois começou a parar. Naquele momento atingi o meu limite e desatei a chorar. O cenário não podia ser mais trágico-cómico: eu cheia de frio despida da cintura para cima, com o mamilo esquerdo cheio de Bepanthene e ela pendurada na mama direita a dormir e a ficar progressivamente com a carinha molhada pelas minhas lágrimas. Bem-vinda ao mundo encantado da maternidade!

 

Agora que os mamilos tinham sarado e eu pensava que as coisas iam ficar simples continuava tudo difícil. Só queria que ela mamasse os tais 15 minutos e ela só queria dormir. Como a bebé tinha que comer para engordar como deve ser e não  perder peso, e como eu não conseguia tirar leite suficiente com a bomba, só me restava uma solução: leite adaptado. Já lhe tínhamos dado leite em pó duas ou três vezes, quando eu já não aguentava mesmo as dores nos mamilos, e nessas alturas essa solução tinha sido um alívio para mim, mas agora que a parte da dor já tinha passado e eu queria mesmo poder alimentá-la com o meu leite, dar-lhe outra coisa sabia-me a derrota.

O pai, amoroso, perguntou-me se lhe devíamos um biberão, eu, em lágrimas, disse que sim, porque achava que ela estava a passar fome por não mamar o tempo que a enfermeira disse, e ela lá bebeu aquilo sofregamente até ao fim, ao colo do pai, e sem adormecer! Senti inveja da porcaria do biberão. Quando ela terminou adormeceu satisfeita e eu limpei as lágrimas que continuavam a cair dos meus olhos vermelhíssimos e inchados. Antes de engravidar teria achado uma reação deste género um enorme disparate, afinal o importante era a criança estar alimentada. E é! Isso continua a ser o mais importante, sem dúvida, o problema é que quando nos dá o clique da amamentação cá dentro a nossa perspetiva muda mesmo. A partir de certa altura o meu objetivo era poder alimentá-la com o meu leite, queria mesmo muito isso e esta dificuldade que eu não tinha previsto estava causar-me um desespero e frustração enormes.
Estava sempre à espera de quando é que as coisas iam ser simples, como pareciam ser para as insta mamãs que publicavam fotografias a dar de mamar em público sem dificuldade e super sorridentes, ou aquelas que faziam posts sobre como os seus bebés engordavam 1.5kg num mês "só com maminha" e ali estava eu, a arrastar-me em casa, semi-nua, cheia de frio e de dores e com uma bebé que mamava cinco minutos e adormecia e só engordava umas miseráveis 60gr por semana. Sentia-me na merda e completamente derrotada.

 

Quando voltámos ao Centro de Saúde para a pesar eu estava nervosíssima, parecia que estava à espera de saber a nota de um exame. Tinha engordado 320gr nessa semana! O esforço de a acordar de 2h em 2h tinha compensado! Fiquei tão feliz. No dia seguinte fui falar com uma enfermeira, que também é CAM, para validar a pega da bebé e para aprender outras posições para a pôr a mamar que evitassem que ela adormecesse com tanta facilidade. A validação daquela enfermeira foi importantíssima para mim. Saí do consultório muito confiante e a pensar que agora é que era, agora é que ia ser como aquelas mães que podem sair de casa com os seus bebés e amamentá-los em qualquer lado, sem dor, sem desconforto e sem os bebés adormecerem ao fim de um sopro. 
Cheguei a casa, testei as posições, tirei fotografias para enviar à enfermeira que me disse que estava a fazer tudo bem e aquele peso, aquela nuvem negra que tinha andado por cima da minha cabeça nas últimas semanas começou a dissipar-se. Parecia que estava tudo a entrar nos eixos. Só que dias depois mudou tudo novamente. A cria passou de ter que ser acordada para mamar e de adormecer à mama, para querer estar HORAS agarrada às mamas. Horas! Não estava de todo preparada para aquilo e fui-me novamente abaixo. O meu limite foi estar com ela a sugar-me os mamilos durante 5h, com intervalos de 15 ou 20 minutos entre cada hora. Cheguei às 22h exausta, com dores nos mamilos novamente e em lágrimas. Só queria dormir, deitar-me em posição fetal e dormir e ela não me deixava.

Enviei mensagens desesperadas à CAM e a todas as minhas amigas mães e as respostas foram todas as mesmas: é normal. É normal? Como assim, "é normal"? Há mesmo pessoas a passar por este tormento? Isto lá é vida? As coisas que eu tinha lido sobre as dificuldades da amamentação e as amigas com quem tinha falado sobre isso só me falaram nas dores físicas. Nunca ninguém me tinha dito que eles adormeciam à mama de cinco em cinco minutos num dia e que no dia seguinte podiam estar uma tarde inteira a chupar-nos os mamilos. Isto, para mim, também se enquadrava nas dificuldades da amamentação. Não há nada de fácil em não conseguir comer, dormir ou ir à casa de banho porque temos um bebé minúsculo que assim que sai da mama desata num berreiro que ninguém consegue calar. Ninguém me disse que haveria tardes em que eu não conseguia levantar-me do sofá para nada. Nessa noite através de uma amiga fui apresentada aos grupos de amamentação no Facebook. Aderi a dois ou três e comecei a ler o que para ali se dizia. Sim, era normal. Havia imensa gente a queixar-se do mesmo. Era normal, ela era muito pequenina e queria contacto físico com a mãe e aquela era a única maneira de conseguir suprir essa necessidade de afeto. Fofa!

 

Façamos fast forward para agora, dois meses depois.

 

E s t á  t u d o  b e m. 

 

Não há dor, ela mama de olhos bem abertos durante o tempo que quer, podem ser 7 minutos ou 20, ela é que decide, não a acordo para mamar, deixo-a fazer os intervalos que entender, seja uma 1h ou 7h e agora consigo, finalmente, ter prazer a dar de mamar. Consigo ser como aquelas mães que invejava que saem de casa tranquilamente e quando o bebé chora com fome põem a mama de fora e pronto, assunto resolvido. Vendo bem as coisas, dois meses não é nada, é um período de tempo muito curto, mas na altura em que estava a passar por aquelas dificuldades todas cada semana parecia-me uma eternidade. E apesar de gostar de dar de mamar, e de até já estar a pensar em tirar leite no trabalho e fazer stock durante a minha licença para ela o poder beber quando for para a creche - para quem não queria amamentar, não está nada mau - a verdade é que amamentar não é tão fácil como nos vendem. Não é tão natural, tão instintivo assim. Existem, de facto, dificuldades e nem sempre são físicas. Nem sempre são as dores dos mamilos gretados que fazem as mulheres abandonar a amamentação. A pressão psicológia dos enfermeiros com a porcaria dos horários e dos minutos que os bebés TÊM de passar em cada mama, das gramas que eles TÊM de engordar por dia e até a pressão psicológica que fazemos sobre nós mesmas, nada disso ajuda e tudo isso é uma realidade.

Pensei em desistir todos os dias durante o primeiro mês. Todos os dias. Mas sempre que ela acordava com fome e eu, com as mamas cheias de leite, olhava para a lata de leite adaptado que tinha na cozinha pensava "Não. Vou tentar mais um bocadinho. Só mais este dia" e os dias lá foram passando até aquele momento se transformar genuinamente num prazer. Agora adoro dar de mamar. É bom tê-la aqui pertinho de mim, sinto-me orgulhosa quando olho para as perninhas com refegos e penso que é o meu leite que faz aquilo, é prático, é mais fácil pôr a mama de fora às 4h da manhã sem ter que sair da cama do que ter de me arrastar até à cozinha para preparar um biberão, já não me custa oferecer mama por conforto, até me sinto bem com isso, sempre que ela chora porque quer mimo e não há colo ou chucha que a consolem a mama resulta sempre e isso é muito conveniente mas, e apesar de a minha perspetiva em relação à amamentação ter mudado muitíssimo, continuo a achar que amamentar é bastante solitário. São solitárias as horas perdidas no sofá com um bebé ao colo sem conseguirmos fazer mais nada. São solitários os minutos largos que passamos na banheira naqueles primeiros dias a massajar o peito para desfazer os caroços de leite. São solitárias as madrugadas que passamos em claro com um bebé nos braços e em que parece que o mundo inteiro está a dormir menos nós. Mas o que eu sinto quando vejo o prazer dela a pegar na mama para se alimentar, a forma como se aninha e como me toca compensa mesmo tudo isso. 

 

O melhor conselho que posso dar a quem esteja a passar por estas ou outras dificuldades e que queira muito ultrapassá-las é só um. Não, são dois: besuntem os mamilos gretados com Bepanthene e arranjem uma rede de apoio. Não se isolem. Falem com amigas que tenham passado pelo mesmo, adiram aos grupos de Facebook - com o devido filtro, que há muita gente maluca e fundamentalista por lá, mas também há pessoas equilibradas que não julgam e nos ajudam mesmo muito -, falem com as enfermeiras do vosso Centro de Saúde, contactem Conselheiras de Aleitamento Materno ou Assessoras de Lactação... não se isolem, se está difícil peçam ajuda e, acima de tudo, não se esqueçam de vocês. Se estiver a ser mais mau que bom, se este for um assunto que vos esteja a engolir e a tirar-vos a alegria que é ter um bebé nos braços passem para o plano b. Lembrem-se que há outras alternativas, que o mais importante continua a ser que o bebé esteja alimentado e que a mãe esteja feliz e equilibrada. Um bebé de barriga cheia e com uma mãe serena e disponível para lhe dar amor é um bebé feliz.

 

commonwild.png

 Imagem daqui onde tropecei numa das muitas madrugadas em claro a dar de mamar e a fazer scroll pelo Instagram.

 

Sites que me foram úteis até agora:

https://www.facebook.com/groups/da.me.maminha/ 

https://www.facebook.com/groups/maes.oms/?ref=group_browse_new

http://amamenta.net/ 

http://www.e-lactancia.org/ 

https://www.saudecuf.pt/mais-saude/artigo/amamentacao-tudo-o-que-precisa-de-saber 

https://www.macetesdemae.com/categoria/amamentacao/ 

 

 

 

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