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zona de desconforto.

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04
Dez17

Como enervar uma grávida calma em 7 passos

Confesso que antes de engravidar achava este tipo de avisos um exagero. De repente uma mulher engravida e não se lhe pode dizer nada que ela está muito sensível. Mas é mesmo isso que acontece! Existem coisas que quando ditas a uma mulher grávida acordam o monstro hormonal até ali adormecido. Chamo-lhe Alexandre. É provável que isto não suceda com todas nós, é até possível que haja uma ou outra grávida equilibrada e que leve isto tudo na desportiva.
Não é o meu caso. 
Nesta altura estamos mais sensíveis e temos alguma dificuldade em lidar com certos comentários com o mesmo discernimento e leveza com que lidaríamos se não estivéssemos tão... hormonais. Se quando chegarem ao fim do texto continuarem a achar que isto é tudo muito parvo e decidirem continuar a dizer o que vos apetece, sem filtro, estão por vossa conta e risco. O mais provável é levarem uma resposta torta do 'Alexandre' e ficarem ofendidinhos e, se isso acontecer, não esperem que seja a grávida que acabaram de irritar que vos console.

 

  1. Comentários sobre a barriga. A menos que seja para nos elogiar a figura, abstenham-se de comentários do género "tens a barriga enorme" ou "não se nota nada". Este assunto é-me especialmente sensível porque só fiz uma barriga mais ou menos evidente lá para os quatro meses e tal e detestava quando me diziam que não se via nada.
    Vamos lá ver se nos entendemos: se há altura da nossa vida em que queremos que nos reconheçam a pança é esta. Olharem para nós com os olhos semicerrados e dizerem "não se nota nada" não é fixe. Mais vale estarem caladinhos. Pode até parecer que nos estão a elogiar e a dizerem-nos, porém de uma forma um pouco estranha, que estamos para lá de elegantes, mas esses comentários só têm um efeito: fazer-nos questionar se estará tudo bem e porque é que ainda não se nota tanto como gostaríamos. Felizmente, por cada comentário de "mal se nota" há dez pessoas a pedirem-nos para mostrar a barriga e a ficarem genuinamente felizes quando a vêem. 

  2. "Foi planeado?" Assim que descobrimos que estamos grávidas queremos contar a toda a gente LOGO a seguir. É inevitável. Estamos felizes e queremos partilhar isso com as pessoas que nos são mais próximas. Portanto quando, ao fim de três longos e penosos meses, podemos finalmente contar ao mundo esperamos que toda a gente salte de alegria e não que fique na dúvida se nos há-de dar os parabéns ou uma palmadinha no ombro com olhos de bambi, "deixa lá há coisas piores". Temos mesmo de fazer aquele disclaimer "estou grávida, e sim, foi planeado"? Se vos estamos a dar a boa nova com um sorriso enorme e parvo é porque estamos felizes e queremos contagiar toda a gente com essa felicidade.

  3. Inquéritos sobre as restrições alimentares. A não ser que nos ouçam dizer que o que nos apetecia mesmo era um prato gigante de sushi e um copo de vinho, de nada vale fazerem-nos um interrogatório sobre toooooodas as coisas que sentimos falta de comer. "E ovos estrelados tens saudades? Ah, mas aposto que tens saudades de uma boa farinheira! Lembras-te daquele tártaro de novilho maravilhoso que comemos há uns meses? Ah, não podes não é? Pois, é cru. Que chatice. E morangos também não podes? E maionese? E queijo da Serra, daquele bem amanteigadinho, também não vai?" Menos.
    Tudo o que não podermos comer durante os 9 meses vamos poder voltar a comer depois durante uma vida. Provavelmente a grávida já fez as pazes com isso e nem se lembra que não come sushi há meses por isso, e para bem de toda a gente, não a lembrem.

  4. "Não podes fazer isso". Ora bem (pausa para respirar fundo)... o mais provável é estarmos a ser seguidas por um profissional de saúde que já anda nisto há toda uma vida, por isso dispensamos comentários alarmistas em relação ao que podemos ou não fazer. Até porque é possível que a grávida que têm à frente já tenha feito um inquérito exaustivo ao desgraçado do médico sobre tudo o que lhe possa ser prejudicial, inclusive o ar que respira e a água que bebe. Não lhe vão estar a dar novidade nenhuma. "Vais mesmo continuar a pintar as unhas? Não devias beber coca-cola. E também devias cortar na água com gás. Amukina? O vinagre faz o mesmo efeito." Não se aguenta.

  5. "Estás muito gorda/magrinha". Este vem de mãos dadas com o do tamanho da barriga. As únicas observações válidas sobre o nosso peso são do médico obstetra que nos segue. É essa a única opinião que importa porque vem de alguém que sabe, efetivamente, do que está a falar. A perceção do resto do mundo sobre quantos quilos devemos ou não engordar é-nos completamente inútil. Mais uma vez, se a vossa intenção é elogiarem-nos a figura um simples "estás com ótimo aspeto", é suficiente. Olharem para nós de lado quando nos vêem comer um chocolate e soltarem um "olha que isso não é saudável! Assim vais engordar muito" ou um "olha que agora tens de comer por dois! Não é altura para dietas" quando comemos menos tem um nome e chama-se bullying.

  6. Tocarem-nos na barriga. A regra aqui é simples: perguntem primeiro! Basta isso. Um dos primeiros reflexos que adquirimos quando estamos grávidas é levarmos a mão à barriga para a protegermos do resto do mundo. Faço isso quando estou em sítios com muita gente, num centro comercial ou no supermercado, por exemplo. É inconsciente. Não quero levar um encontrão e portanto protejo aquilo que, neste momento, considero mais frágil. Por isso ver alguém, de repente, a esticar a mão em direção à minha barriga, assim do nada, desperta em mim reflexos assassinos. Perguntem primeiro.

  7. Grávida calma = bebé calmo. Já tinha lido muita coisa sobre a culpa materna, e que muita dessa culpa nos era sugerida por terceiros, só ainda não sabia que isso começava tão cedo. O que mais ouvi até agora de amigos, familiares e vizinhos com quem me cruzo na rua a cada 15 dias, foi aquele sábio conselho de que tenho de ter uma gravidez muito calma para o bebé nascer calmo. Mas... como assim? Tenho de fazer um retiro budista? Fazer yoga? Massagens dia sim dia não? Ouvir Chopin? Quão calma pode ser uma gravidez? Especialmente a primeira, em que é tudo novo. E mesmo que a grávida seja a pessoa mais zen desta vida isso garante-lhe um pequeno anjo que já sai do útero a sorrir, não sofre de cólicas e que só faz um pequeno gemido, quase inaudível, quando tem fome ou a fralda suja? Não respondam que eu já sei que a resposta é não.
    Pode não parecer, mas isso é o mesmo que despejar mais um enorme e desnecessário balde de responsabilidade nos ombros da futura mãe que, provavelmente, até ali estava a levar a coisa com relativa tranquilidade mas que, de repente, começa a estar atenta a tudo o que lhe possa causar um ligeiro stress, não vá isso valer-lhe uma criança insuportável ao fim dos 9 meses. Já temos tanto em que pensar que a última coisa que precisamos é de estar a policiar as nossas próprias emoções. 
    Já imaginaram a aflição e a culpa daquelas mães que levaram esta "dica" demasiado a sério e depois lhes saiu na rifa um pequeno terrorista? De certeza que a criança tem cólicas porque ela se enervou daquela vez no trabalho ao quarto mês. Certamente que ele chora muito porque a mãe se fartou de ver filmes lamechas nos últimos 3 meses. É óbvio que ele tem cólicas desde o primeiro dia porque a mãe, essa cabra, comeu chocolates todos os dias quando estava grávida. É evidente que a criança aos dois anos faz imensas birras porque a mãe, quando estava grávida, discutiu com a sogra, porque não queria ter um urso de peluche com 1m80 em casa. 
    A única forma que eu tenho de manter a calma é informar-me sobre tudo o que, para quem está de fora, parece um sintoma clássico de stress e ansiedade. Mas não é pessoas, não se enervem. Quero simplesmente tentar estar preparada para as coisas por isso leio muito e, mais impotante que as leituras, pergunto tudo a toda a gente, não só a médicos e enfermeiros mas, sobretudo, a amigos que tenham sido pais recentemente. Felizmente, tenho muitos exemplares desses à minha volta.

    Dica verdadeiramente importante: não se isolem. Rodearem-se de pessoas que estão a passar, ou passaram recentemente, pelo mesmo que nós é a melhor rede de apoio que se pode ter nesta fase.
    Quando é que se começa a frequentar as aulas de preparação para o parto, como é que foi a experiência na maternidade x e y, quando é que começaram à procura de creches, como é que se veste um recém-nascido, quais as roupas mais práticas, qual a quantidade de fraldas que convém ter em casa quando a criança nascer, etc., etc., etc. As perguntas não têm fim mas acho que as pessoas a quem as fazemos não se importam. Primeiro porque sabem o quão difíceis e avassaladores podem ser os primeiros tempos e depois porque, geralmente, as pessoas gostam de falar das suas experiências e de se sentirem úteis aos outros. É claro que cada pessoa tem uma experiência diferente e o que resultou para uma não resultou para outra e é aqui que entra mais uma dica preciosa: ouvir tudo com o devido filtro e adaptar isso à nossa realidade. Se quisermos incorporar na nossa vida tudo o que resultou com toda a gente, de repente damos por nós a fazer coisas pouco coerentes que, obviamente, não resultam e damos em doidas. Mas isso fica para outro post.

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