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zona de desconforto.

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20
Mai14

Hitler e Eva Braun do século XXI

Fiquei entusiasmada quando soube da existência de um novo jornal online. É sempre bom sinal quando surge um projecto novo, que dá trabalho a umas quantas pessoas e que, ainda por cima, quer contribuir "para a construção de uma sociedade mais bem informada e democrática". Mas depois li o artigo sobre a inspiradora história de amor entre o Mário Machado, ex-líder da Frente Nacional, e a Susana, militante do PS nascida e criada em Cascais, e o meu entusiasmo por este vanguardista  meio de comunicação social sumiu-se. Tudo o que ali está escrito não só é ridículo como é inacreditável que um jornal do século XXI se dedique a este tipo de branqueamentos, neste caso, da extrema direita.


Ora bem, o que é que este extenso artigo nos ensina? Várias coisas. Ficamos a saber que os pombinhos se conheceram num bar gótico em Lisboa e que ela assim que se viu rodeada de skinheads ficou cheia de medo e ele, esperto, aproveitou-se desse medo para ganhar a confiança dela. Não é genial? Quantos de nós já não fizemos isto? Usar o medo dos outros a nosso favor. Tooooda a gente. É uma situação perfeitamente normal! E a táctica resultou porque 10 anos depois continuam juntos e super felizes. Agora é vê-los nas esplanadas da cidade a discordarem um do outro porque, afinal, as diferenças ideológicas estão lá, e a resolverem as discórdias com beijinhos e carícias. Realmente, o que é que interessa aquilo em que nós acreditamos? Aquilo que define o que somos? NADA! Ele espancou uma pessoa até à morte por ter uma cor de pele diferente but who cares?! Ela é a primeira pessoa a esclarecer as nossas cabecinhas conservadoras: "Não concebia o discurso daqueles que diziam ‘pretos’. Achava horrível e ignorante, ainda assim ia com ele para todo o lado, mesmo não concordando.” Isto é genial! Então andamos nós durante anos e anos a desejar encontrar alguém que veja o mundo como nós e com quem nos identifiquemos quando, afinal, as bases para uma relação saudável são precisamente o oposto?! Achamos horrível e ignorante que se chame de preto alguém com uma cor de pele e uma origem diferente da nossa mas apoiamos o nosso amor na mesma! Se para ele essas pessoas são repugnantes e devem ser tratadas sem respeito absolutamente nenhum nós estamos lá para o apoiar! Porque é isso que uma boa namorada faz! Apoia o seu homem. Mesmo que isso signifique que tenha de anular por completo aquilo em que acredita. De início a Susana teve imensos problemas com a família que, retrógrada, não entendia este relacionamento. Mas, assim que conheceram o Mário Machado rapidamente respiraram de alívio. Afinal a imagem que passava na comunicação social era completamente manipulada por jornalistas sem escrúpulos. Afinal o Mário Machado é um homem "super educado e romântico". Depois desta chapada de luva branca ao leitor o Observador afirma: "As diferenças ideológicas foram-se atenuando à medida que o registo criminal de Mário Machado crescia." Oh por amor de Deus! Mas alguém me consegue explicar o que raio quer isto dizer? Eu não digo que neste artigo está tudo virado do avesso? Mas vamos seguir em frente, como fez o jornal, e entrar na daily life destas pessoas. Como o Mário está preso foi a Susana, feminista convicta, que assumiu o papel de chefe de família. E o que é que acham que o Mário acha disto? Fica orgulhoso da sua mulher que trabalha para sustentar o filho dos dois? Claro que não! Para o Mário uma mulher não deve trabalhar! Deve ficar em casa sossegadita a cuidar dos filhos e deixar-se sustentar pelo marido que, assim, tem uma falsa sensação de domínio sobre aquele ser frágil. Para Susana este é um cenário "impensável" mas, mais uma vez, o que é que isso interessa? Nada. Posto isto, o que é que duas pessoas fazem quando se apercebem que uma relação tem tudo para correr bem - como esta? Casam. E foi esse o passo que estes dois deram em 2011. O facto de ele estar preso não foi impedimento para nada. Ela vestiu-se de noiva e quando entrou na prisão, qual altar de uma imponente igreja, viu aquilo com que qualquer bride to be sonha: o futuro marido vestido "de fato macaco de recluso, dois guardas, uma técnica e a conservadora do registo civil." E pensar que há casais que se enchem de dívidas para poderem fazer uma grande festarola cheia de convidados e pratos gourmet. No fim da cerimónia ela foi para casa e ele voltou para a cela onde passava 23 horas por dia. Mas não sejamos insensíveis. O amor tem um poder transformador nas pessoas e Mário não é excepção. Quando se viu ali preso decidiu fazer algo de bom com tanto tempo livre e já está no último ano do curso de Direito da Universidade Autónoma. Para pagar as propinas tem a ajuda dos pais e dos sogros e conta também com o dinheiro que conseguiu poupar quando andava "a fazer aquelas habilidades", e por habilidades entenda-se encontros com traficantes de droga para lhes extorquir dinheiro, que um homem também tem de fazer pela vida. O Mário é o orgulho da Susana que, afirma, nem quer saber se ele cometeu crimes ou não! Ela sabe quem é o verdadeiro Mário: "Um excelente marido e um excelente pai. Sou completamente contra crimes, fui criada assim, mas ele é um ser humano”. É precisamente por isto que esta militante do PS diz com convicção e orgulho que vai votar no Partido Socialista. O Mário ouve e dá uma gargalhada. Tudo está bem quando acaba bem.

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