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zona de desconforto.

zona de desconforto.

18
Jan18

O incrível mundo das restrições alimentares na gravidez

Quando soube que não era imune à toxoplasmose pedi ajuda a médicos e enfermeiros para saber o que podia ou não comer e todos me garantiram que os cuidados eram bastante simples: a) comer carne bem passada; b) lavar muito bem, ou desinfetar, frutas e legumes comidos crus, especialmente os que andaram a chafurdar na terra - alfaces, morangos e tudo o mais que cresça ali rentinho ao chão, que é onde o toxoplasma vive.
Só.
"Então e o sushi? Não podes comer sushi! Andas a comer sushi?!" Calmaaaa. O problema do peixe cru não tem nada a ver com a toxoplasmose que, como vimos ainda agora, está presente na terra. A bactéria é outra – chama-se listeriose, que também pode estar presente em queijos não pasteurizados, por exemplo - e os perigos existem sempre e para toda a gente, só que para as grávidas é pior porque o bichinho provoca diarreias e vómitos o que nas grávidas obriga a uma vigilância maior por causa do perigo de desidratação, por isso, e como é melhor prevenir, também não há sushi nem queijos amanteigados para ninguém. Parece simples! Mas depois a pessoa engravida e percebe que estes dois ou três tópicos, afinal, e sem ninguém nos ter avisado, transformam-se em 4396!

 

Saladas: o acompanhamento de que ninguém se atreve a falar

Então, não podemos comer saladas fora de casa. Tudo bem, basta confirmar se os pratos vêm com salada e se vierem dizemos que não queremos. Mas como é que uma coisa tão simples se transforma num problema? Vejamos: vamos a um restaurante e pedimos um prato de carne assada. 
"Acompanha com o quê?"
"Arroz e batata". 
Boa, não vem com salada. Minutos depois o que é que nos chega à mesa? Um prato com umas belas fatias de carne assada acompanhadas de arroz, batata e... salada! Portanto chegámos a um ponto em que a salada já é um mero enfeite que o pessoal dos restaurantes não considera. 
Se forem grávidas descomplicadas basta tirarem a alface e o tomate do prato e comerem o resto, porém, sempre com alguma cautela porque um prato com salada tem sempre umas ripas de alface escondidas por baixo da carne ou do arroz. Se forem grávidas paranóicas acham que a alface e o tomate já contaminaram toda a comida com toxoplasma e sentem vontade de chorar para cima do prato e de agredir o empregado. Eu sou, ou fui, em tempos, uma mistura destes dois. 
Nos primeiros meses, em que tudo é novo e parece que só existem restrições, estas coisas causavam-me um imenso desespero. Parecia que os restaurantes conspiravam contra mim e começava a achar que aquilo já era um ataque pessoal. Mas depois de o meu médico me garantir, várias vezes, que basta tirar a salada e comer o resto sem medos já estou muito mais descontraída. Ainda assim, o desprezo com que se olha para a salada continua a ser uma coisa muito irritante porque torna um processo que tem tudo para ser simples, que é ir comer fora, numa coisa um bocado cansativa. Bom, depois de já dominarmos a problemática da salada eis que somos confrontados com o maravilhoso mundo das ervas frescas.


A invasão das ervas frescas
Ora bem, já vimos que nos restaurantes só podemos comer coisas cozinhadas e que as nossas piores inimigas são as saladas por isso, durante os 9 meses, optamos por legumes cozidos ou arroz. Fácil! Mas e quando toda a comida que nos puseram no prato, legumes e arroz incluídos, vêm com ervas frescas minuciosamente picadinhas por cima? Lá está, o tal universo paralelo que nos tem acompanhado desde os episódios “o mundo encantado de coisas para grávidas” e “o mundo encantado de coisas para bebés”. Aqui também existem dois universos, um em que uma pessoa não grávida pede um prato de arroz e o come sem preocupações e outro em que uma pessoa grávida pede um prato de arroz que vem para a mesa coberto de salsa/cebolinho/coentros/orégãos ou qualquer erva fresca que haja na cozinha naquele dia. Não é incrível? E ninguém nos avisa disto! Os médicos dizem para lavarmos as frutas e legumes e ficam-se por ali. Então e as putas o raio das ervas? Vêm da mesma terra que as alfaces e os morangos e ninguém nos fala dessa epidemia? Sim, porque é uma epidemia. Antes de estar grávida nunca tinha reparado que todos os pratos – todos! - podem vir para a mesa com ervas frescas picadinhas na hora, é só preciso o cozinheiro estar mais inspirado naquele dia e dar-lhe para ali. Querem ver?

Peixe grelhado com batatas cozidas: prato saudável e seguro para grávidas, não fosse chegar à mesa com ar de que um vaso de ervas aromáticas espirrou para cima da comida. É salsa por todo o lado. Pataniscas com arroz de feijão, igual. O arroz vem sempre com salsa acabadinha de picar. Arroz de pato, mais do mesmo. Há sempre um restaurante que acha que, mesmo giro e original, é picar qualquer merdinha ali para cima para dar um ar mais estrela Michelin à coisa.

Só nos dá vontade de chorar de desespero ou de desatarmos aos gritos com o cozinheiro. Em vez disso ficamos 'ssogaditas a olhar para uma coisa que, até ali, nos parecia inofensiva e a tentar arranjar uma estratégia para podermos comer aquilo. "E agora? Mando para trás ou tiro as ervas de cima da comida? E isso será suficiente? Não terá a salsa contaminado já todo o peixe e o arroz com toxoplasma?" Começamos a entrar numa espiral de pensamentos obsessivo-compulsivos e até pomos a hipótese de deixar de ir comer fora coisa que, para mim, esteve sempre completamente fora de questão. 
A minha estratégia foi passar a ter o cuidado de ver as ementas dos restaurantes antes de sair de casa, para saber de antemão o que posso ou não comer, e fazer a advertência “carne bem passada/sem ervas frescas/ sem salada” quando peço qualquer prato. É claro que às vezes a pessoa relaxa, porque não é nenhum robot, e se esquece deste último passo e depois chega à mesa um prato de bacalhau com natas com um montinho de cenoura ralada no meio, só para dar assim um salpico de cor. 
Eu disse que isto era uma epidemia. 
 

Carnes frescas
A secção de enchidos do supermercado. Feiras do fumeiro. Restaurantes de tapas. Tudo coisas ótimas mas que estão completamente off limits para uma grávida. A não ser, claro, que as carnes estejam devidamente cozinhadas. Não há bicho que sobreviva a uma boa cozedura. Inicialmente esta restrição não me fez confusão nenhuma porque também não passava a vida a comer enchidos, mas o que fui percebendo ao longo do tempo é que 9 meses é de facto demasiado tempo para andar a evitar presunto, salpicão, mortadela, farinheira... não é nenhum drama, não é desesperante, não nos estão a tirar nada que seja essencial à nossa alimentação mas... porra, já comia um pãozinho com fiambre, pensei eu um dia ali entre o quarto e quinto mês. Já me tinham dito que os fiambres de frango e perú deviam ser evitados porque não eram cozinhados, eram só fumados, mas ninguém falava do de porco porque a carne de porco tem sempre que ser bem cozinhada, é uma daquelas verdades universais, e portanto o fiambre também passaria por esse processo. Fui à charcutaria, pedi à senhora 150gr de fiambre de porco, com pouca gordura e em fatias fininhas - água na boca - e na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, enquanto me deliciava com uma grande sandocha de fiambre com manteiga, pensava que tinha fintado o sistema. Infelizmente a sensação de vitória não durou muito. Quando me gabei disto a uma amiga o que ouvi foi: "Já pensaste que a lâmina da charcutaria que te cortou o fiambre foi a mesma que, minutos antes, cortou chouriço, presunto, fiambre de perú e todas as outras carnes não cozinhadas?"

Não. De facto isso não me tinha ocorrido.
Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuck!
Esperei pela próxima consulta para esclarecer isto com um profissional de saúde, na secreta esperança que me dissessem que isso era um disparate e que podia comer fiambre à vontade, mas o que me disseram foi que, apesar de ser pouco provável haver contaminação dessa forma, o melhor era mesmo evitar as charcutarias e optar pelos fiambres de porco previamente embalados - vómito - ou então cozinhá-los bem em casa... já me estão a ver a grelhar fiambre em casa de manhã não estão? 
Adeus sandes de fiambre, voltamos a falar daqui a uns meses.

E depois ainda há as frutas
Como assim? Não é só mergulhar as maçãs em Amukina ou tirar-lhes a casca para resolver o problema? Bom, na teoria sim. Mas na prática alguém, um dia, nos conta uma história muito gira sobre a faca que corta a casca ser a mesma que logo depois está em contacto com o interior da fruta e, zás, temos uma maçã contaminada com toxoplasmose e começamos a pôr em causa quão importante é para nós comer melancia ou melão que, até ali, nos pareciam frutas inofensivas porque era só não comer a casca e pronto, mas agora pensamos se não será melhor enchermos a banheira com água, despejarmos 15 garrafas de Amukina lá para dentro e deixarmos as melancias de molho. 

 

Ah, e coisas feitas com ovos crus também é melhor esquecer. Aliás, o melhor mesmo é só comer ovos em casa.
Isto dos ovos foi ainda mais difícil de lidar do que a ideia de não comer sushi durante 9 meses. Vamos lá ver uma coisa: eu a-do-ro ovos. Sou aquela pessoa que vai a um restaurante e quando nada me enche as medidas peço uma omelete de queijo e fico satisfeita. Há quem peça um bitoque, eu peço omoletes. Qual é o problema de comer omoletes fora de casa? Se os ovos estiverem estragados ficamos com uma magnífica intoxicação alimentar, o que já é bastante mau numa situação normal, mas se estivermos grávidas significa ir para o hospital e ficar a soro uma tarde para repor os líquidos que formos perdendo com tantos vómitos e diarreia. Só isto. Não é nada de grave mas se a pessoa poder evitar essa chatice, evita. Isto não é válido apenas para os ovos cozinhados. Tudo o que for feito com ovos crus ou mal cozinhados, tipo mousse de chocolate, bolo de bolacha, tiramisu, lampreia de ovos, qualquer bolo com doce do ovo é melhor deixar para daqui a uns meses. Estão a ver a dificuldade? E nada disto - nada! - vem incluído no discurso dos médicos acerca dos cuidados a ter com a alimentação na gravidez, são as pessoas à nossa volta que nos vão avisando e depois quando o vamos confirmar com os médicos é que eles nos dizem que pois sim, o melhor é deixar os ovos fora do cardápio por uns tempos.

 

Qual é a solução para este pesadelo? Bom senso. Não é suposto sermos prisioneiras das nossas gravidezes por isso, se ajudar, relativizem a coisa. A mim ajuda. Em 31 anos de convivência com gatos e a comer carne, saladas e frutas despreocupadamente - quem nunca comeu um bago de uva por lavar, ou uma cereja, no supermercado para ver se são boas que atire a primeira pedra - nunca fui contaminada com o toxoplasma por isso era mesmo preciso ter muito azar para isso acontecer agora, ainda para mais com estes cuidados todos. Nos primeiros meses isto parece tudo muito avassalador, culpa do nosso desconhecimento e das pessoas alarmistas à nossa volta, mas com o passar do tempo vamos caindo em nós e percebendo que os médicos lá em cima no início do texto até tinham alguma razão: com apenas alguns cuidados corre tudo bem.

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