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zona de desconforto.

zona de desconforto.

23
Abr18

O parto - II

Primeira parte aqui.

 

Felizmente não foi uma dor lancinante como eu temia, assemelhava-se mais àquelas moinhas que sentimos na barriga e na zona lombar quando nos está para aparecer o período - que eu, curiosamente, já não sentia há anos -, perfeitamente suportável. Fiz download de uma aplicação para monitorizar as contrações e esperei.

Entre as 6h e as 8h da manhã o intervalo entre elas variava entre 1 e os 18 minutos. Estava claramente a anos luz do 511 e as dores continuavam a assemelhar-se às tais cólicas menstruais. 
Entre as 8h e as 10h os intervalos começaram a ficar mais curtinhos, entre os 3 e os 8 minutos, as dores estavam um bocadinho mais fortes, mas ainda eram suportáveis, e as contrações não chegavam a 1 minuto. Fui tomar um banho, maquilhei-me, porque caso a coisa se desse naquele dia eu queria estar em bom, e fui-me deitar no sofá a ver televisão para me distrair.
Às 11h30 comecei a ficar com fome e pedi ao meu homem para ir ao McDonald's comprar uns hambúrgueres para o nosso almoço. Ao meio-dia, quando ele chegou com os Big Mac's, as contrações já vinham com intervalos entre os 2 e os 4 minutos, a dor estava mais intensa, a fome começou a passar para dar lugar a uma indisposição generalizada, sentia-me enjoada, mas continuavam a ser contrações curtinhas, de 30 ou 40 segundos. Pensei que não estava a ter contrações eficazes, que aquilo ainda era o aquecimento, mas como já me estava a sentir desconfortável achámos melhor borrifarmo-nos para o 511 e ir para o hospital depois do almoço. Nem consegui acabar de comer.

Dei entrada na urgência obstétrica pelas 13h. As contrações continuavam curtas mas as dores já me impediam de falar, só me conseguia concentrar nas respirações. Chamaram-me uns 10 minutos depois.
Expliquei à médica que já ali tinha estado naquela madrugada e qual a evolução das coisas até ali. A obstetra olhou para mim e disse que provavelmente também ela me iria voltar a mandar para casa, que, pela minha postura, não parecia que já tivesse entrado em trabalho de parto. "Sabe que estas coisas às vezes demoram dias" disse ela. "Mas deite-se na marquesa para eu lhe fazer o toque e ver em que pé estamos." O momento seguinte foi de déjà vu: a médica fez o toque que eu, novamente, não senti, graças a Deus - a sério, ouvi tantas coisas más sobre o toque que estava atormentada por ele - ela franziu o sobrolho e perguntou: "Não tem dores?". "Tenho umas moinhas, tipo cólica menstrual mas mais forte. Olhe, agora estou a ter uma". A médica olhou para mim e riu-se: "Tem uma elevada resistência à dor sabia? Está a caminho dos dois dedos de dilatação. A maioria das mulheres, nesta altura, já está a pedir anestesia." Ele há coisas! Eu que sempre me tinha tomado por caguinchas estava ali a aguentar estoicamente o início do trabalho de parto. Como só me podiam internar quando tivesse os dois dedos de dilatação completos, fui para a sala do CTG para fazer tempo até ter a dilatação necessária para dar entrada na sala de trabalho de parto. 

As dores, as tais moinhas como eu as descrevia, que minutos antes eram suportáveis, tornaram-se galopantes na intensidade e os intervalos entre elas passaram a ser de segundos - sim, s e g u n d o s . As respirações que me tinham ensinado no curso passaram de inspirações e expirações delicadas para sopros sonoros. A certa altura durante uma contração senti um líquido a sair-me do corpo. "Deve ser o resto do rolhão mucoso". Segundos depois, nova contração e novo jato de líquido a inundar a cadeira cadeira do CTG. Segundos depois a mesma coisa. Tinha as calças empapadas. Levei a mão à zona das virilhas, olhei e não vi sangue, era um líquido transparente e gelatinoso. "Rebentaram-me as águas!" Chamei a enfermeira e a gemer perguntei-lhe se era possível que me tivessem rebentado as águas ali. Ela confirmou. "Vá à casa de banho tomar um duche e vista esta bata. Mesmo que ainda não tenha os dois dedos completos já não sai daqui. Tem a bolsa rebentada."

 

Desatei a chorar. 

 

A enfermeira, aflita, perguntou-me o que se passava. Não sabia. Não sabia o que se passava. Estava cheia de dores, mal conseguia falar, precisava muito de uma anestesia, a minha filha estava a chegar, era mesmo verdade, estava mesmo a acontecer e eu ali sozinha, na sala de CTG, sem saber gerir isto tudo. Precisava de colo. Arrastei-me até à zona do duche e ao contrário do que seria de esperar a água quente não ajudou grande coisa, as dores eram insuportáveis. Sequei-me. Foi um filme para vestir a porcaria da bata, ficava paralisada de dor a cada contração e a bata parecia ter mil atilhos impossíveis de atar - mais tarde percebi que eram só dois -, quando saí da casa de banho já tinha o meu homem à minha espera na sala de CTG, para onde regressei. "Vamos ficar aqui só mais um bocadinho porque a Dr.ª está a almoçar e só ela é que pode dar o OK para o internamento", disse a enfermeira. Ela era amorosa, mas só me apetecia dizer asneiras. Como assim a médica foi almoçar? Não há mais ninguém que possa fazer isso para acabar com este tormento?

Na mesma sala onde estávamos tinha acabado de entrar outra mulher para fazer CTG. Estava de 40 semanas, segunda gravidez, frustradíssima porque não tinha contrações e estava farta de estar grávida. E eu cheia de dores. Contorcia-me na cadeira, a cada contração fechava os olhos e cravava as unhas na espuma do cadeirão. Parecia possuída. De repente ouvi do outro lado da sala: "Coitadinha, isso dói imenso não é? Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas!", era a grávida das 40 semanas sem contrações. Só me apeteceu vomitar. Doze horas? Mas alguém consegue estar neste estado 12 horas?  "Aproveite para beber água agora que quando der entrada na sala de trabalho de parto já não a deixam beber nada. Da minha primeira gravidez estive assim 12 horas e só queria beber água e não podia". Queria matar aquela mulher. Sempre que ela dizia "12 horas" sentia vontade de chorar e vomitar ao mesmo tempo.

 

A enfermeira regressou. A médica tinha, finalmente, acabado de almoçar e já me podia fazer o toque. Foram precisas duas pessoas para me ajudarem a levantar do cadeirão do CTG. Mal conseguia andar com as dores.
Tinham passado 2h desde que tinha dado entrada nas urgências.
Deitar-me na marquesa parecia, agora, impossível. As dores eram insuportáveis. Não conseguia pensar, não conseguia respirar, pedirem-me qualquer tipo de movimento naquela situação parecia-me tortura. Lá me consegui deitar e lembro-me de desejar com muita força já ter os dois dedos completos para poder dar entrada no internamento e ter acesso às drogas todas.

 

A médica sorriu.
"Então, já tenho os dois dedos de dilatação completos?", gemi.
"Dois? Tem nove!"
"NOVE?"

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