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zona de desconforto.

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30
Abr18

O parto - III

Segunda parte aqui.

 

"Nove dedos de dilatação. Já estou a sentir a cabeça da bebé."


A minha ideia de fazer o trabalho de parto sossegada na sala apropriada, com acesso a bola de pilates, música relaxante e média luz tinha acabado de ir por água abaixo. Fiz todo o período de dilatação na sala de CTG, sem qualquer privacidade e, pior, sem anestesia!, e nem tinha tido tempo de entregar às enfermeiras o plano de parto que escrevemos com tanta dedicação semanas antes. Naquele momento passaram-me pela cabeça os tópicos todos: período expulsivo numa posição o mais vertical possível para a gravidade ajudar - agora, quatro semanas depois, isto dá-me vontade de rir. Duvido que me conseguisse manter noutra posição que não a deitada -; não quero oxitocina para acelerar o parto - pelos vistos também não era preciso; quero receber epidural; não quero episiotomia por rotina, só se for ultra necessário; quero que o cordão umbilical pulse até ao fim; quero ajudar na saída do corpo dela; quero ser informada de todos os procedimentos médicos e suas alternativas... tinha a lista toda na cabeça, mas quando a médica disse que já conseguia sentir a cabeça da bebé só me saiu um dos tópicos que, na verdade, era o mais importante naquele momento: "Quero epidural. Ainda há tempo?" A médica disse que talvez sim e aquele "talvez" matou-me. Se já não conseguia suportar as dores das contrações nem queria pensar no que seria se tivesse de sentir as dores do período expulsivo. 

"Vá querida, agora levante-se e deite-se aqui". Para sair do consultório e entrar na sala de trabalho de parto, que era na porta logo ao lado, tive de passar da marquesa onde estava para outra, móvel, que já ali estava à minha espera com uma das enfermeiras que ia acompanhar o resto do processo. E quem é que diz que eu me conseguia levantar de onde estava? Porque é que a pessoa é obrigada a tantos movimentos quando está cheia de dores? Porquê? Tiveram de juntar as duas camas e eu lá me arrastei de uma para a outra, tipo lesma. Assim que saímos do consultório comecei a sentir uma pressão no ânus. Era a bebé a querer sair. 
Quando entrei na sala de trabalho de parto só me lembro de ver imensa gente a fazer imensa coisa. A vestir batas, a pôr máscaras, a mexerem em tubinhos e tauleiros de metal, a falarem comigo, "Não faça tanta força na mão!" - era uma enfermeira a tentar pôr-me o cateter do soro na mão direita que eu tinha fechada com tanta força que sentia as unhas cravarem-se na palma da mão, tal eram as dores que eu tinha.

"É preciso epidural aqui?", tinha chegado o anestesista, thank God! Ajudaram-me a deitar de lado, em posição fetal, para receber a epidural e a pressão no ânus continuava... comecei mesmo a ficar assustada. "Tenho vontade de fazer força, tenho vontade de fazer força", dizia. A administração da anestesia foi feita num instante, tinha medo que doesse mas, honestamente, nem a senti. Provavelmente por estar cheia de dores das contrações, que rapidamente se começaram a dissipar. Mas a pressão continuava e eu a avisar que tinha vontade de fazer força. "Vamos acabar já com isto! Ponha aqui os pés!". Nisto entra o senhor esposo na sala. Aproximou-se e perguntou, amoroso: "Então, vai começar agora?", "Começar? Não. Já está a acontecer!", "Já está a acontecer? Ela já está a sair?". Sim, estava! 

O resto foi muito rápido. A enfermeira explicou-me como fazer força: sempre que sentisse a tal pressão, a tal vontade de evacuar, tinha de fazer força. Parece simples mas aquilo tem técnica e nem sempre é fácil de pôr em prática. Fiz força cinco ou seis vezes e acho que três delas foram mal feitas. Não a estava a conseguir empurrar para fora de mim. Não dei conta mas o meu homem disse-me, depois, que a certa altura houve uma troca de olhares entre as enfermeiras como quem diz "Esta miúda não vai conseguir fazer isto sozinha. Tragam os forceps!", mas a que estava a liderar as tropas lá me deu mais uma oportunidade e a coisa deu-se sem recurso a instrumentos. Da última vez que fiz força lembro-me de sentir um ligeiro alívio e logo a seguir ouvi um choro. Era ela! "Mãe, quer vir buscar a sua menina?" Sim! Queria! Estava meio abananada mas queria. Queria muito. Levantei o tronco e vi-a pela primeira vez, toda inchadinha e pegajosa, coitadinha. Pus as mãos por baixo das axilas dela e trouxe-a para o meu peito. Foi a melhor sensação da vida. Eu, que sempre fiquei intimidada pelos bebés alheios, tão pequeninos e frágeis, com aqueles choros estridentes horrorosos, tinha deitado isso tudo pela janela e ajudado na extração do corpo da minha filha e agora tinha-a ali, comigo, sossegadinha no meu peito.

Depois de pesada, medida e limpa voltaram a colocá-la no meu peito e a equipa saiu toda, exceto a enfermeira que fez o parto que ainda ficou ali para me remover a placenta e cozer o períneo. Não foi a meia-hora mais confortável - ter alguém a tirar-nos a placenta significa que há uma mão dentro do nosso corpo e outra a pressionar-nos a barriga como se estivesse a empurrar os nossos orgãos cá para fora. Uma violência - mas tê-la ali deitada no meu peito e estarmos os três num namoro pegado ajudou bastante. 

 

Sei que tive sorte por tudo ter acontecido em 2h30 - e não em 12h como a minha amiga da sala do CTG - mas na minha ótica, sofri imenso! Imaginem o que é estar 2h30 com dores que nos impedem de falar e nos cortam a respiração, não é propriamente uma ida ao spa. Porém, tendo em conta as histórias de terror que fui ouvindo durante a gravidez, só me posso dar por feliz por esta ser a minha história. Correu tudo muito bem, foi rápido, nunca tive medo - tirando aquela cagufazita de não ir a tempo de levar anestesia - senti-me sempre segura e em boas mãos e gostei imenso das condições do hospital.

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