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zona de desconforto.

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29
Mai14

"sempre que aceitar trabalhar de graça está a prejudicar outros"

Ontem, depois de ler o texto da Alexandra Lucas Coelho no Público, senti-me indignada. Como pessoa inteligente que sou concordo com tudo o que ela ali escreveu, mas senti-me indignada porque aquele discurso me lembrou várias conversas que tenho tido nos últimos tempos à volta deste assunto. No artigo ela refere-se a quem faz vida da escrita mas, na verdade, hoje em dia aquilo aplica-se a tudo. Acho inacreditável ainda existirem empresas que acham normal contratarem pessoas para trabalharem à borla, ou quase! Há dias alguém me dizia que a empresa para onde trabalhava estava com imensas dificuldades em encontrar pessoas para exercer determinada função. Chocada, perguntei porquê, afinal há tanta gente desempregada, qual era a dificuldade? Resposta: "Porque só querem pessoas para estágio curricular." Ora bem, vamos lá pensar todos juntos. Porque raio de carga de água é que alguém no seu perfeito juízo, e que não precisa de um estágio curricular para terminar uma cadeira de faculdade, haveria aceitar trabalhar nas condições de um estágio desse género que nem remunerado é? Porquê?! Se precisam assim tanto de gente para trabalhar paguem-lhes! É assim tão complicado? Mas o mais grave é quando quem está à frente destas empresas ouve alguém com um discurso, lógico!, deste género e se sente insultado, tipo "Vejam-me só este pelintra a querer que eu lhe pague pelo trabalho que vai fazer! Primeiro vem para cá penar durante uns meses e depois logo decido se vale a pena ficar por cá. No limite faço-lhe um estágio profissional." Gente, tenham alguma noção. Se não estão dispostos a abrir os cordões à bolsa para contratar pessoas, não se queixem que é muito difícil encontrar quem queira trabalhar. O trabalho, seja ele qual for, tem de ser pago! E vocês, pessoas que estão à procura de trabalho, não aceitem trabalhar nessas condições com a desculpa de que é muito importante para ganhar currículo. Isso de trabalhar à borla é muito bonito e útil enquanto estão a fazer o curso. Ganham estaleca. Mas depois é urgente exigirem que vos paguem pelo vosso trabalho. Quando saí da faculdade também aceitei trabalhar para uma revista a custo zero. Seis meses a custo zero. Bastaram 15 dias para perceber o ridículo daquilo com que tinha concordado. Trabalho é trabalho e tem de ser remunerado. Sempre.


"sempre que aceitar trabalhar de graça está a prejudicar outros", é um facto. Cada pessoa que aceita trabalhar de borla está a baixar a fasquia dos que vêm atrás, que passam a achar natural que não lhes paguem, ou que lhes paguem 600€ pelo trabalho que desempenham. E isto leva-nos a outra questão: os trabalhos que são, efectivamente, pagos, mas, porém, mal pagos. Acho inacreditável que haja alguém que pense que um ordenado de 700€, 800€ ou 1000€ é um grande ordenadão. Não é! E é gravíssimo que alguns empregadores justifiquem os baixos salários aos mais jovens com o argumento de que estão em início de carreira. O que é que isto significa? Que até aos 30 não devemos aspirar a ter uma vida melhor, independente das ajudas alheias, uma casa, pensar em ter filhos, planear uma vida, porque somos novos e estamos em início de carreira? A partir de que idade deixamos de estar em início de carreira, afinal? São, agora, as empresas que decidem quando é que uma pessoa deve começar a fazer planos? Pior que isto é quando esses baixos ordenados se mantêm indefinidamente, mesmo quando a experiência aumenta. Tudo isto me revolta. Muito. Especialmente porque conheço muita gente nesta situação. Gente que tem a sorte de ter trabalho mas que não pode fazer nada da vida porque ganha uma miséria. Um dos casos mais flagrantes e que me toca cá dentro é o de uma amiga que durante anos trabalhou em jornalismo a recibos verdes e a ganhar pouquíssimo. Era o sonho dela, ser jornalista, escrever, dar a conhecer aos outros histórias que valem a pena ser contadas. E, à conta desse sonho, aceitou adiar todos os outros por falta de dinheiro, por falta de um pagamento justo pelo trabalho que desempenhava. Aceitou esse adiar de sonhos até ao dia em que teve uma proposta irrecusável no Dubai, numa área que nem sequer era a sua, e foi. Foi preciso ir para o outro lado do mundo para sentir que o trabalho dela era, de facto, valorizado. Bastava que lhe tivessem pago como deve ser cá para ela ter ficado e achar que era possível pôr em prática os outros sonhos que tinha. Simples, certo? "sempre que aceitar trabalhar de graça está a prejudicar outros. É isso, colegas, camaradas, escritores, estagiários, futuros jornalistas, ilustradores, desenhadores, fotógrafos: não trabalhem de graça para o mercado. O mercado que não paga o trabalho, ou não o paga decentemente, baixa a fasquia, apela à falta de alternativa, a quem precisa de ganhar curriculum. Trabalho mal pago não vai ser bom". Parece simples, porém, um discurso lógico como este, ainda é sentido por muitos como um insulto.

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